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28/03/2018 às 18:06

Uma discussão: o tempo é de comunicação e é 'moderno'

Escrito por: André Lemos
Fonte: Portal Vermelho

Uma afirmação condizente com a contemporaneidade pode ser esta que intitula o presente artigo, “o tempo é de comunicação e é moderno”. Os termos que a ratificam não presunçosamente coloca a comunicação como uma categoria superior da ação societal, pois as outras ações societais não são menos importantes como é a política, a economia, a cultura, a saúde e todas as formas objetivas e subjetivas que compõem o espectro humano em sociedade. 
 
Na qual, a atualidade demonstra a dominância do neoliberalismo num ambiente de “ordem social moderna” (as aspas surgem por ser um termo em contravenção à provocação de Marx de que não transcendendo o capitalismo estaríamos vivendo uma espécie de “pré-história” da humanidade) e envolto das novas tecnologias de informação e da emersão da indústria 4.0.
 
Em termos de subsídio teórico, ao adequarmos esta afirmação ao método de análise materialista histórico e dialético, é possível iniciar relacionando com ideia de conexão universal, ou seja, todas as indagações das relações humanas são partes que orbitam em um todo (sistêmico), numa sociedade emergida de uma determinada trajetória histórica e que gera específicos momentos políticos. Neste sentido, e por isso mesmo, um mundo não ideal conjuminado em crises civilizacionais sob todos os efeitos das tensões que circunscrevem as outras leis da dinâmica dialética, como a unidade e lutas dos contrários, as transformações quantitativas e qualitativas e a negação da negação. Tudo se transforma, e, essa cadeia de estruturas, trajetórias e relações exigem muito da comunicação.
 
Nas ciências sociais o estudo dos elementos que envolvem a comunicação é denso e com foco majoritariamente na sociedade moderna a partir da transição do feudalismo para o capitalismo, e respectivamente das transições de governos monárquicos para os republicanos, período no qual se intensifica a noção de Estado-Nação. Não são poucas as análises, em diferentes pensamentos, que levantam que para se chegar ao quadro de sociedade moderna houve o encontro de histórias, de sistemas culturais e de diferentes linguagens fazendo com que o território exterior deixasse de ser cósmico. Tais análises incluem retrospectivas históricas e reflexões que de uma maneira ou de outra delimitam o poder da comunicação em diferentes ordens sociais.
 
Esta dimensão é o estudo de Benedict Anderson, onde embasa que o ambiente do mundo “pré-moderno” era de letrados e não letrados, e a língua cristã (latim) tida como erudita era dominante na Europa medieval. A descoberta de lugares e culturas em um novo mundo fez com que imediatamente se firmassem línguas-nações sem que houvesse a obrigatoriedade do conhecimento de latim. Para ele, os jornais e romances do fim do século XVIII seriam como referências deste momento, e explicita citando Hegel, “jornais como substituição da oração matinal”. O autor fundamenta, inclusive, uma teoria de “Capitalismo Editorial” tendo como sujeito a língua, os símbolos e a escrita; estruturados na comunicação, na imprensa e no nacionalismo.
 
Já para, Antony Giddens, as três principais características da descontinuidade de ordem social estão na comunicação, no transporte e na reprodução do sistema social. Tais características estão vinculadas à descoberta (científica) do relógio mecânico no final do século XVIII, fazendo “um zoneamento da vida social” onde a “natureza da dinâmica da modernidade é a separação do tempo e espaço” pela simultaneidade de coisas que ocorrem sob a égide desses novos adventos. Essa organização racionalizada foi gerada num império da burocracia, fator que o autor traz como exemplo o pessimismo do Max Weber (por ser um teórico da racionalização do Estado) quanto à modernidade. 
 
Uma questão a se ressaltar nessas referências é a intrínseca relação da comunicação com o conhecimento, visto que a insurgência de processos históricos tendo como resultado fenômenos sócio-políticos conhecidos como renascimento e o iluminismo trazem novas atribuições e signos da relação em sociedade. Outra evidência é de um capitalismo centralizado e alicerçado em colonizações gerando a disparidade geopolítica já na sua fase inicial, como expõe Harvey, do “saber geográfico como mercadoria valiosa”. E no qual o motor fundamental da conexão societal está na relação capital trabalho, formatado como a estratificação social que se ocupa nas relações de produção, as classes sociais. 
 
Os tempos mudam e uma das estratégias do capital é se disfarçar, o exemplo mais evidente é do quão mal informada é a população em relação ao neoliberalismo e a financeirização do capital. Para adensar o tema, vale ressaltar a encruzilhada da transição da segunda revolução industrial para terceira. Harvey, teorizando nos EUA, faz uma crítica contundente sobre a mudança de mentalidade da sociedade movida pelo modo de produção flexível, a partir da década de 1970, momento no qual o capitalismo passa a ter prioridade em marcas e patentes gerando uma mudança no status do sistema por fazer a transição da produção e consumo de bens, para a produção e consumo de serviços. Desde então, a indústria de imagens e signos, na condição também de mídia hegemônica, passa a influenciar mais intensamente de forma instantânea e volátil a vida social. 
 
Essa persuasão da influência da mídia hegemônica na vida social atinge inclusive a esfera pública, essa é uma discussão de Habermas, por exemplo, onde confere que ainda que possua um espaço político privado a mídia hegemônica disputa a esfera pública através do marketing. Na condição do avanço do Estado de direito e em algumas situações até mesmo da democracia, vozes que não tinha representação passam ter, é o caso dos direitos trabalhistas. Desde então, o marketing privado busca pautar a esfera pública com o plasma do individualismo criminalizando o que é público, ao invés de primar pelo respeito à individuação e ao coletivo. E gerando a situação de que “a própria crítica se apresenta sob a forma da opinião pública”, fazendo com que o Estado tenha o dever de corresponder não aos interesses e direitos civis e sociais, mas aos caprichos da mídia hegemônica. Para demonstrar, Habermas traz ainda o seguinte ditado, “a grande palavra por toda a cidade, ante a qual, em sua peruca oficial, se inclina qualquer maioral é esta, escutai publicidade!”.
 
Não à toa alguns autores vão dizer que a comunicação no seu arquétipo de mídia hegemônica é o próprio poder vis a vis Manuel Castells, que retrata a partir do âmbito das redes um poderio intimamente ligado ao ordenamento político e ao direcionamento da sociedade. Tema este tão bem e, também apresentado por Milton Santos, tendo como horizonte a defesa de outra globalização e pelo qual trata a atual de “o mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade”. 
 
Ao visualizar o Brasil, essa regra é logo entendida, um forte exemplo é a década de 1990 quando se implantou o neoliberalismo e o que se vendia em termos de publicidade era a felicidade. Fazia-se isso sem dificuldade em vista da recente superação do autoritarismo pelo processo de redemocratização, arejando a vida política e social, porém a redução do Estado (e o governar com horizonte no sistema financeiro) foi contraditória às conquistas sociais e estruturais estabelecidas na própria Constituição de 1988. Para, além deste, são inúmeros os momentos em que a mídia hegemônica é persuasiva na tomada de narrativa se tornando guia de pensamento social, tendo como exemplos mais recentes as jornadas de 2013 e do golpe de 2016. 
 
Outros tantos autores e autoras vão discutir sobre a construção de bens simbólicos baseados na moral (do que vende). No âmbito marxiano seria a reprodução constante da sobreposição do “valor de troca” sobre o “valor de uso”, numa ocupação do Estado pelo mercado e regulado pela mídia hegemônica (monopolizada). A questão de pensar num pós-monopólio partindo do princípio da regulação e democratização da mídia é algo de suma importância, seja pelos novos adventos de tecnologias de informação, seja pelos agentes de mídia alternativa e coletiva. Demonstrando um quadro em que é possível outro modelo de comunicação, imbuída de diversidade cultural, socialização e transparência de informação. 
 
Referências Bibliográficas
 
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
CASTELLS, Manuel. O poder da comunicação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.
GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. 2ª ed. São Paulo: Unesp, 1991. 
HABERMANS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações sobre uma categoria da sociedade burguesa. Ed. São Paulo: Unesp, 2014.
HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 15ª ed. Rio de Janeiro: Edições Loyola, 2006. 
MARX, Karl. Contribuição para a crítica da economia política. São Paulo: Mandacaru, 1989.
PEIXOTO, Madalena. Pós-modernismo e a atualidade da teoria Marxista. Princípios, São Paulo. Nº150. 2017
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 15ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.
 
 
*André Lemos é cientista social, especialista em economia do trabalho e sindicalismo, especialista em sociologia política e cultura, editor do blog Formigueiro - Mídia Coletiva e secretário de comunicação do distrital zona sul do PCdoB-RJ.