Receba no seu e-mail

Voltar

Clipping

09/10/2013 às 00:32

Uma "última chance" para a Alcatel-Lucent

Escrito por: Redação
Fonte: Valor Econômico - Online

Michel Combes, que dirige a Alcatel-Lucent: fama de 'cortador de custos'

Michel Combes não esperava um trabalho fácil ao ser nomeado executivo-chefe da Alcatel-Lucent em fevereiro. Desde a fusão com a americana Lucent Technologies, em 2006, a francesa Alcatel, que fabrica desde torres de rádio até softwares de cobrança para telefones móveis, perdeu cerca de ? 700 milhões, em média, por ano. O preço de sua ação caiu de mais de ? 13 em 2006, para ? 1,02 no primeiro trimestre deste ano.

No fim de 2012, tendo passado por pelo menos meia dúzia de planos de recuperação que não deram certo, a ação da companhia foi excluída do índice CAC 40, que relaciona os papéis mais representativos na bolsa francesa. Mas para o veterano executivo da indústria de telecomunicações, foi uma chance irresistível de colocar à prova sua reputação de grande cortador de custos.

Ontem, Combes forneceu aos funcionários da Alcatel-Lucent a indicação mais clara até agora de que isso é sério: o anúncio de que cerca de 10 mil dos 72 mil funcionários da companhia serão demitidos até o fim de 2015, sendo 900 deles na França.

A companhia vai cortar pela metade o número de seus centros irradiadores de negócios no mundo. "Precisamos tomar decisões difíceis", disse Combes. "E vamos tomá-las com um diálogo aberto e transparente com nossos funcionários e representantes."

As demissões atraíram críticas de Arnaud Montebourg, ministro da Renovação Industrial, que classificou o plano de "excessivo... e que precisa ser reduzido". Mesmo assim, os cortes são parte integral do que Combes chama de "plano de mudança", uma profunda reestruturação dos negócios globais da Alcatel-Lucent para reduzir os custos fixos em ?1 bilhão, ou mais de 15%. O plano também prevê foco em áreas de crescimento acelerado, como a tecnologia 4G e banda larga de altíssima velocidade.

Segundo a companhia, 85% de seu orçamento estará dedicado à pesquisa e desenvolvimento de tecnologias da próxima geração em 2015, frente aos atuais 65%. A seu modo caracteristicamente franco, Combes disse ao "Le Monde": "Esse plano é a última chance".

Muitos dos concorrentes europeus também vêm sofrendo com a crise da dívida e a recessão, que afetaram a demanda por equipamentos de rede e outros tipos de infraestrutura. Eles vêm sofrendo a concorrência de companhias chinesas como a ZTE e a Huawei, que se beneficiaram do crescimento de dois dígitos na demanda interna e em outros mercados emergentes. Conforme disse ontem ao "Financial Times" Fleur Pellerin, ministra francesa das Indústrias Digitais, "não conseguimos prever a concorrência dos fabricantes chineses".

Analistas receberam bem a notícia das demissões. Profissionais do Bank of America Merrill Lynch descreveram a decisão como "um grande passo na direção certa". Os mercados também reagiram favoravelmente, com as ações da Alcatel-Lucent subindo 1,5% após o anúncio, embora tenham terminado o dia em queda de 4%. Isso levou à valorização do papel nos últimos seis meses, mais ou menos o período em que Combes está na companhia, para 154%, ao passo que o índice CAC 40 subiu 12,6% no período.

Além do plano em si, um motivo de otimismo é o histórico de Combes. Durante os quatro anos em que foi o executivo-chefe da Vodafone na Europa, ele conduziu um bem-sucedido plano de corte de custos de ? 2 bilhões. Também ampliou os negócios empresariais e de dados da companhia, e reorganizou sua estrutura de tarifas de transmissão de dados, passando a baseá-la nos níveis de consumo. Uma pessoa que o conhece diz que a experiência fora da França abriu os olhos de Combes para diferentes maneiras de fazer as coisas.

Mais tarde, como diretor financeiro da France Télécom, Combes foi, em grande parte, responsável pela mudança da situação financeira da companhia. Outro conhecido o descreve como "um grande jogador em equipe", acrescentando que "ele aprende muito rápido e isso assusta as pessoas".

Observadores afirmam que, apesar das críticas de Montebourg às demissões, pelo menos há um reconhecimento gradual de que a situação da Alcatel-Lucent pede uma medida extrema. Fleur Pellerin transmitiu um tom mais conciliador que Montebourg: "Com o plano de mudança, o novo executivo-chefe mostra uma verdadeira visão estratégica sobre onde é preciso estar o foco".

Pessoas próximas de Combe dizem que ele está bem preparado para enfrentar qualquer tempestade política. "Ele sabe que não é bom surpreender os políticos e acuá-los", disse uma pessoa a par da situação. "Ela já deu suas voltas. Você pode estar certo disso."

Por Adam Thomson | Financial Times, de Paris