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Clipping

31/05/2006 às 08:46

Versão brasileira

Escrito por: Redação
Fonte: Revista Veja

Em meados do ano passado, quando a loira Eliana assumiu o comando de um programa de auditório depois de mais de uma década como apresentadora infantil, os bispos da Record não botaram muita fé. Por vários meses, o Tudo É Possível teve presença apagada nas tardes de domingo. Mas Eliana encontrou uma tábua de salvação. Versão de um sucesso da MTV americana, o quadro Saindo coma Sogra estreou junto com o programa e aos poucos se revelou um chamariz de ibope: num dia em que a audiência tradicionalmente se divide entre a Globo e o SBT, não raro tem levado Eliana à vice-liderança. O quadro, em que um rapaz escolhe entre três pretendentes com base apenas em encontros com suas mães, é um dos diversos exemplos de atrações de outros países atualmente importadas – e exibidas com sucesso – pelos programas de auditório brasileiros. O expediente também é usado na Globo. O Domingão do Faustão exibe um quadro comprado do estúdio americano Fox, o Se Vira nos 30. E seu carro-chefe atual é o Dança dos Famosos, no qual celebridades disputam uma gincana de bailado – premissa idêntica à de Dancing with the Stars, criado pela rede inglesa BBC. O Caldeirão do Huck também tem como trunfos dois quadros inspirados em produções estrangeiras. O Lata Velha éuma variação de programas de reforma de carros como o Overhaulin', do Discovery, e o Lar Doce Lar trata, como várias atrações da TV paga, da decoração de residências.

As emissoras sempre se valeram de produções estrangeiras, dos seriados às 'pegadinhas'. Nos últimos dez anos, contudo, ganhou força a compra dos chamados 'formatos' – os direitos sobre a fórmula de um programa, e não de um produto já finalizado. Ao adquirir um formato, a emissora pode explorar o nome e a idéia da atração, e ainda recebe cartilhas com instruções que vão de como selecionar os participantes ao modo de usar as câmeras. Esse mercado é alimentado por produtoras como a holandesa Endemol, inventora do Big Brother e parceira da Globo, e a inglesa Fremantle, criadora do reality show Idols (a matriz de Ídolos, do SBT). Duas ou três vezes por ano, os executivos das redes de TV vão a feiras especializadas na Europa e nos Estados Unidos, onde se arrematam programas de sucesso por preços que variam de 4.000 a 15.000 dólares por episódio.

Nessa seara, a questão dos direitos autorais é confusa. 'As emissoras mudam detalhes na fórmula e dizem que já não se trata do mesmo programa', diz Flávia da Matta, gerente da Fremantle no Brasil. Tome-se o Dança dos Famosos. O quadro estreou na Globo depois que já era sucesso em países como os Estados Unidos. A emissora alterou o número de participantes e o esquema de votação, mas, em essência, a idéia éa mesma. O SBT, que pretende lançar Dancing with the Stars em breve, não se pronuncia oficialmente, mas sabe-se que o quadro de Faustão incomoda sua direção – e também a BBC. A Globo considera o Dança dos Famosos uma produção original sua, com o argumento de que os programas de dança constituem um gênero, assim como os shows de calouros. Ironicamente, a justificativa é a mesma dada por Silvio Santos quando Casa dos Artistas, do SBT, foi acusado pela Globo de plagiar Big Brother, cinco anos atrás. A situação se inverteu agora.

A discussão sobre o que é original ou cópia não elimina o fato de que esses quadros representam um sopro de renovação nos programas de auditório. Havia tempos o Domingão do Faustão não contava com uma atração de tanta repercussão como Dança dos Famosos. Seu achado é expor celebridades a uma situação de vulnerabilidade,pois elas têm de se desdobrar para dar uns passos de merengue ou discoteca em dupla com bailarinos profissionais. Nas últimas semanas, viu-se o ator Stepan Nercessian rebolar ao som do Village People e a modelo e atriz Babi Xavier suar a camisa nos ensaios. Os quadros do Caldeirão do Huck, por sua vez, são um exemplo de como dar uma 'cor local' a idéias importadas. Enquanto seus similares da TV paga se concentram no processo de transformação, eles deixam esse aspecto em segundo plano. No Lata Velha, o foco recai sobre a história de vida dos donos dos automóveis, e não sobre o trabalho na oficina. O Lar Doce Lar vai na mesma linha: o drama da família que deseja mudar sua casa importa mais que o processo de decoração. 'As reformas são uma desculpa para contar as histórias de pessoas, que é o que o espectador da TV aberta quer ver', diz o apresentador Luciano Huck.

No caso do Saindo com a Sogra, a graça está nas enrascadas a que os rapazes estão sujeitos ao escolher suas pretendentes, já que a filha nem sempre é a cara da mãe. A última coisa que pode surgir de uma atração tão adolescente, claro, é namoro sério. 'Um garoto ficou com as três candidatas depois do programa', diz Eliana. Graças a seu desempenho, a apresentadora acaba de renovar contrato com a Record por três anos, com direito a um aumento em seu salário de 200.000 reais mensais. Com sogras assim, ela está feita.