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E-Fórum / Notícias

22/10/2019 às 13:25

"Sem a mídia, a Lava Jato não existe", apontam expositores de debate sobre relação entre mídia e a Operação

Escrito por: Weslley Maranhão/Cobertura Colaborativa do 4ENDC

Debate destaca a relação entre veículos de comunicação e o sistema de justiça para validação das ações dos operadores e juízes

A mídia comercial tem desempenhado um papel central da Operação Lava Jato, apontam especialistas presentes no debate realizado nesta sexta-feira (18) como parte da programação do 4º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação, realizado em São Luís (MA), desde a manhã desta sexta-feira. O evento se encerra neste domingo.

“Sem a mídia, a [Operação] Lava Jato não existe. A narrativa por trás da Lava Jato a sustentou”, aponta o professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Fábio Palácio. Ele ainda sublinha que essa aproximação orientou angulações da mídia favoráveis à Operação, fato evidenciado pelas denúncias realizadas pelo site The Intercept Brasil. Nas denúncias realizadas pelo veículo é visibilizada a forte relação estabelecida pelo Grupo Globo com a força tarefa da Operação – fato reforçado pela não parceria entre o conglomerado e o Intercept, diferentemente do que ocorreu com veículos como Folha de São Paulo e Revista Veja que produziram conteúdos a partir das denúncias reveladas pelo Intercept. 

O professor destaca o desvio de função dos magistrados e juízes no andamento das investigações que compunham a força tarefa. “O juiz não pode influenciar no processo além do que é o seu papel”, pontua. Central para os recentes mandatos presidenciais, a Operação colabora para implementar um projeto político para o país, aponta o professor.  “A Lava Jato é uma espécie de consórcio do poder e é direcionada para o neoliberalismo e influenciou a forma de Michel Temer governar, de prender o ex-presidente Lula e de eleger o atual presidente, Bolsonaro”, diz.

Para o jurista e pós-doutor pela Universidade de São Paulo (USP), Silvio Luis de Almeida, as revelações feitas pelo veículo possibilitam o acesso da população, em especial a mais jovem, a parte fundamental da história do país. “No dia em que o Intercept divulgou os primeiros vazamentos vi juízes se envergonharem. A próxima geração não pode esquecer o que foi feito. É preciso cultivar a memória e responsabilizar quem nos colocou neste atoleiro”, destaca. Para ele, não seria possível, na década de noventa, a consagração pública do ministro da Justiça, Sério Moro, então juiz da Operação. “Há 30 anos atrás não seria possível que Sergio Moro fosse um ator consagrado, como é hoje em dia, pois o cenário político de antes era muito diferente do atual. E tudo isso só é possível por conta do neoliberalismo, que fundamentalmente torna isso possível, pois colocou dentro de si, de sua cena, atores como, a Lava Jato, o agora Ministro da Justiça Sérgio Moro e o atual Presidente da República Jair Bolsonaro”, reflete.

Silvio ainda problematiza que a Operação Lava Jato trouxe de volta a pergunta se realmente o Estado democrático de Direito funciona para todos. Ele exemplifica que a prisão do ex-presidente, os grampos telefônicos e não autorizados de diálogo entre Lula e Dilma Rousseff e a exibição das conversas pela Rede Globo são exemplos que sustentam este questionamento.

Em livro
As revelações sobre a Operação Lava Jato é tema do livro “Relações Obscenas”, de autoria da jornalista Maria Inês Nassif. Ela destaca, em sua exposição, que Operação Lava Jato tem seu início no esquema de corrupção conhecido como Mensalão, como estratégia de desmoralização do Partido dos Trabalhadores construção e que culminou na prisão do presidente Lula. “Deram mais um ‘tiro’ no Lula, esse de misericórdia”, afirma Nassif em referência à prisão do ex-presidente. Ela ainda destaca o envolvimento do Sergio Moro no Mensalão, na condição de assessora da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Rosa Weber. 

 

 

 

O livro “Relações Obscenas” será lançado na noite deste sábado (19), às 19h, no Armazém do Campo do Maranhão. (Rua Rio Branco, 420. Centro)

Edição: Supervisão dos GTs

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