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A era do tecnofascismo: disputa por soberania e o impacto das big techs no Brasil

Foto: Bruno Cunha (Facom-UFPA)

Ou o país investe na infraestrutura tecnológica própria e fortalece o debate democrático, ou continuará submetido a uma agenda global que, sob o manto da eficiência tecnológica, ameaça as estruturas de participação popular.

Entre a promessa de inovação e o avanço da desinformação, pesquisadores e especialistas alertam para a ascensão do que definem como “tecnofascismo” — um modelo de sociedade onde a democracia é substituída por uma gestão corporativa algorítmica e onde a soberania nacional é colocada em xeque por meia dúzia de empresas estadunidenses aliadas à extrema direita.

O alerta foi o centro do debate “A luta pela democratização da comunicação na atualidade – A velha mídia a serviço da extrema direita no Brasil e as big-techs a serviço do fascismo”, realizado nesta terça (28/4), durante o primeiro dia da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em Belém-PA.

Ergon Cugler, pesquisador e conselheiro da Presidência da República; Elaide Martins, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA); e Altamiro Borges, jornalista e presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, resumiram, mais uma vez, o cenário desafiador para o movimento pela democratização da comunicação e para a sociedade como um todo.

O “Reich Digital” e a tecnocracia

Ergon Cugler destacou que o fenômeno do tecnofascismo opera sob uma lógica que desafia as bases do Estado democrático. Ele aponta como referência o pensamento de Curtis Yarvin, ideólogo do neoreacionarismo, que defende a substituição de governantes eleitos por uma gestão baseada em IA e CEOs com poder absoluto.

“Eles propõem um Estado absoluto, vigilantista, gerido por empresas privadas. Quando Yarvin fala em regime tecnocrata, ele descreve uma sociedade sem eleições, sem oposição e sem imprensa crítica”, afirmou Ergon.

O pesquisador destaca que esse “nazismo digital” não utiliza apenas a linguagem de raça, mas a retórica da “meritocracia algorítmica” e da “competência técnica” para justificar a exclusão de grupos marginalizados e a destruição de instituições políticas tradicionais em favor de uma “gestão corporativa”.

A infiltração e o colonialismo de dados

Um dos pontos de maior tensão levantados no debate é a presença da Palantir — empresa de análise de dados ligada ao setor de defesa dos Estados Unidos — em contratos com órgãos públicos brasileiros.

Ergon apresentou dados que indicam parcerias ou reuniões de agências como o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação, Advocacia Geral da União (AGU) e prefeituras, como a de São Paulo, com a empresa. Para o pesquisador, essa dependência é um entrave ao desenvolvimento de tecnologia nacional. “Governos brasileiros gastaram, em um ano, R$ 10 bilhões em contratos com Google, Microsoft e Oracle. Esse montante seria suficiente para financiar quatro anos e meio de uma universidade pública como a UnB”, exemplifica.

Esse movimento é classificado como “colonialismo de dados”, onde o país exporta recursos financeiros e soberania, recebendo em troca soluções tecnológicas que, em muitos casos, são utilizadas para fins de vigilância e controle social.

Ergon Cugler alertou para a infiltração das big techs no poder público, inclusive no governo federal

Amazônia: laboratório do colonialismo digital

A professora e pesquisadora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA), Elaide Martins, lembra que a falta de regulamentação do dispositivo constitucional que veda o monopólio e oligopólio dos meios de comunicação abriu caminho para uma nova forma de dominação. “Não houve regulamentação efetiva. Hoje, os conglomerados de mídia tradicionais se renderam aos algoritmos opacos das big techs, criando uma simbiose perigosa a serviço de interesses que muitas vezes colidem com a soberania nacional”, afirma.

Para Elaide, a Amazônia tornou-se o principal terreno de teste desse fenômeno. Ela aponta que o domínio das gigantes tecnológicas — como Google, Amazon, Meta e a Starlink de Elon Musk — vai muito além da oferta de serviços de internet. Essas empresas controlam a infraestrutura crítica: desde cabos submarinos e satélites até a gestão de dados em data centers. Segundo ela, antenas da Starlink estão presentes em cerca de 90% das cidades da Amazônia. Embora apresentadas como soluções para conectar escolas, denúncias apontam o uso da tecnologia para facilitar a logística do garimpo ilegal e dificultar a fiscalização do Ibama.

Segundo a pesquisadora, a centralização do controle nas mãos de empresas transnacionais acirra a exclusão digital. Enquanto o marketing dessas corporações foca na “conectividade”, a realidade é que o acesso nas periferias e regiões remotas é precário e condicionado a modelos de negócio que monitoram o comportamento dos usuários.

Elaide destaca que a dependência da infraestrutura da Starlink, de Elon Musk, na Amazônia. Embora o governo do Amazonas e o Estado do Pará tenham firmado contratos milionários sob a promessa de conectar escolas e comunidades ribeirinhas, a professora pontua que o custo social é alto. O monitoramento ambiental, por exemplo, tem sido dificultado pela presença desse poder privado que muitas vezes ignora as diretrizes dos órgãos de fiscalização, como o Ibama, favorecendo o garimpo ilegal.

Elaide Martins, professora da UFPA: antenas da Starlink estão presentes em cerca de 90% das cidades da Amazônia. Foto: Bruno Cunha (Facom-UFPA)

A falha na disputa de hegemonia

Para Altamiro Borges, o governo e as forças políticas de esquerda têm falhado ao tratar a comunicação como um tema lateral. Ele critica a ausência de políticas públicas sólidas para fortalecer a mídia comunitária, progressista e independente, além da fragilidade na gestão da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

“Enquanto o governo não investe o necessário na batalha de ideias, as forças de extrema direita continuam a consolidar redes próprias de comunicação”, avalia. Miro alertou que, na próxima disputa eleitoral, o país verá novamente a polarização entre projetos de soberania e entreguismo, com a mídia hegemônica desempenhando um papel decisivo na modulação do imaginário social.

Altamiro Borges, do Barão de Itararé, critica os governos progressistas e outras forças de esquerda por tratarem a comunicação como um tema lateral

O desafio da soberania

O debate encerra com uma provocação: o Brasil vive uma encruzilhada. Ou o país investe na infraestrutura tecnológica própria e fortalece o debate democrático, ou continuará submetido a uma agenda global que, sob o manto da eficiência tecnológica, ameaça as estruturas de participação popular. A conclusão dos especialistas é unânime: a tecnologia nunca é neutra; ela é, antes de tudo, política.

Caravana do FNDC

As atividades estão sendo realizadas no Sindicato dos Bancários do Estado do Pará, com transmissão ao vivo pelo Canal do FNDC no YouTube. A Caravana do FNDC será encerrada nesta quarta (29/4), com a plenária do Comitê Estadual do FNDC no Pará. Antes, será realizada a oficina “Redes sociais para o campo popular – Armar a militância nas redes e nas ruas por uma comunicação democrática e popular para enfrentar o fascismo”.