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Projeto de extinção do CNDH aprofunda ofensiva contra direitos, comunicação pública e participação social

Foto: Pedro França/Agência Senado

Após mais de seis décadas de trajetória, conselho criado para acompanhar violações de direitos humanos pode ser extinto por projeto que transfere suas atribuições ao governo federal e reduz a participação da sociedade civil na fiscalização do Estado.

O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) é uma conquista da sociedade brasileira que demorou quase meio século para se consolidar por meio da Lei nº 12.986/2014. Agora, 12 anos após sua criação, corre o risco de ser extinto por iniciativa do deputado Capitão Augusto (PL-SP), autor do PL 1013/2026.

Pela proposta, as funções do CNDH seriam absorvidas pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, enquanto denúncias passariam a ser tratadas por outros órgãos federais. O projeto integra uma série de iniciativas legislativas voltadas à extinção de órgãos públicos e entidades federais e já motivou reação de entidades como o Conselho Nacional de Saúde (CNS), que classificou a medida como um retrocesso para a participação social e para a democracia.

“Trata-se de um conjunto de iniciativas que enfraquece instrumentos de garantia de direitos e reduz a presença da sociedade civil nos processos decisórios”, alerta Tadeu Porto, secretário de Comunicação do FNDC e secretário-adjunto de Comunicação da CUT Brasil, entidade eleita para representar os trabalhadores no CNDH.

“Trata-se de um conjunto de iniciativas que enfraquece instrumentos de garantia de direitos e reduz a presença da sociedade civil nos processos decisórios”

Tadeu Porto

Ao extinguir a autonomia do CNDH e transferir suas atribuições ao guarda-chuva ministerial, o PL promove um apagamento da participação social, silenciando frentes como a Comissão Permanente de Direito à Comunicação e à Liberdade de Expressão, da qual o FNDC faz parte e tem importante atuação no combate aos discursos de ódio e aos monopólios midiáticos.

Para o FNDC, o desmantelamento de um órgão paritário como o CNDH não é apenas burocracia administrativa, mas um grave retrocesso que atropela os Princípios de Paris da ONU e submete a fiscalização das garantias fundamentais ao humor político do governo de turno.

A coordenadora-geral do FNDC, Katia Marko, avalia que, “na prática, a proposta deforma o legado de meio século de lutas democráticas, trancafiando a sociedade civil do lado de fora dos debates e deixando o controle das violações de direitos humanos sob o monopólio e a conveniência do próprio Estado”.

“na prática, a proposta deforma o legado de meio século de lutas democráticas, trancafiando a sociedade civil do lado de fora dos debates e deixando o controle das violações de direitos humanos sob o monopólio e a conveniência do próprio Estado”

Katia Marko

Para Admirson Ferro Jr., representante do FNDC no CNDH, o projeto faz parte de uma ofensiva contra mecanismos de participação social construídos ao longo das últimas décadas. “O Conselho Nacional de Direitos Humanos resistiu aos governos Temer e Bolsonaro, mantendo uma defesa intransigente dos direitos humanos. Sua extinção representa uma tentativa de enfraquecer espaços fundamentais de controle social e de formulação de políticas públicas”, afirma.

“O Conselho Nacional de Direitos Humanos resistiu aos governos Temer e Bolsonaro, mantendo uma defesa intransigente dos direitos humanos. Sua extinção representa uma tentativa de enfraquecer espaços fundamentais de controle social e de formulação de políticas públicas”

Admirson Ferro Jr.

A sociedade civil fora da mesa de decisões

Ao longo das últimas décadas, conselhos, conferências nacionais e órgãos colegiados passaram a funcionar como pontes entre governo e sociedade civil, permitindo que populações historicamente excluídas dos espaços de poder participassem da formulação e fiscalização de políticas públicas. Para entidades sociais, iniciativas que esvaziam ou extinguem esses espaços representam uma redução da capacidade de controle democrático sobre o próprio Estado.

Uma luta de meio século

Criado em 1964 como Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), foi reformulado pela Lei nº 12.986 e transformado no CNDH, adotando uma composição paritária entre Estado e sociedade civil e alinhando-se aos Princípios de Paris da ONU, que orientam a atuação de instituições nacionais de direitos humanos independentes.

Durante o governo Jair Bolsonaro, o conselho posicionou-se contra medidas de enfraquecimento dos mecanismos de participação social, reforçando seu papel como instância de monitoramento de violações de direitos humanos.

Outras propostas de extinção

O deputado Capitão Augusto apresentou, ao longo de março de 2026, uma série de projetos com o objetivo de extinguir a Ancine, a EBC, o Incra, o Dnocs, a Conab e o Iphan, entre outros órgãos ligados à cultura, à comunicação pública, aos direitos sociais e à formulação de políticas públicas.

“Vivemos um momento marcado pelo avanço de discursos de ódio, pelo crescimento do extremismo e pela concentração de poder nas plataformas digitais. Temas como regulação das big techs, inteligência artificial, reconhecimento facial, direitos dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, da população LGBTQIA+ e a própria defesa da democracia fazem parte da agenda do CNDH. Por isso, a tentativa de extinguir o conselho não é casual: ela atinge justamente um dos espaços mais ativos na defesa dos direitos humanos no país”, avalia Admirson Ferro Jr..

“A tentativa de extinguir o conselho não é casual: ela atinge justamente um dos espaços mais ativos na defesa dos direitos humanos no país”

Admirson Ferro Jr.

>> Leia o projeto na íntegra

Ato de posse dos membros do biênio 2024-2026 também marcou os 76 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foto: Clarice Castro/MDH

Proposta de extinção da Ancine reacende ameaça bolsonarista à cultura

Foto: Renato Araújo/Agência Brasil

Projeto de lei apresentado na Câmara dos Deputados propõe extinguir a Agência Nacional do Cinema e transferir suas atribuições para o Ministério da Cultura. A iniciativa enfrenta ampla rejeição e é mais um ataque do bolsonarismo à cultura brasileira.

O Projeto de Lei nº 994/2026, de autoria do deputado Capitão Augusto (PL-SP), propõe extinguir a Agência Nacional do Cinema (Ancine), criada em 2001 para fomentar, regular e fiscalizar a atividade audiovisual no país. Pelo texto, as atribuições atualmente exercidas pela agência seriam transferidas para uma secretaria a ser criada no âmbito do Ministério da Cultura. O projeto também prevê a transferência da gestão de recursos vinculados ao audiovisual, do patrimônio da autarquia e de seus processos administrativos.

A proposta, apresentada em março na Câmara dos Deputados, voltou à agenda das organizações do setor depois do primeiro turno da eleição, que deu à extrema direita uma força sem precedentes na próxima legislatura parlamentar. O temor é de que a eleição de Flávio Bolsonaro (PL-SP) no segundo turno reforce ainda mais o risco de aprovação da matéria.

Capitão Augusto, aliás, também apresentou outros oito projetos de lei propondo, cada um, a extinção de órgãos e entidades como a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), entre outros.

A proposta, por óbvio, já é alvo de denúncia e resistência por parte do setor empresarial e de organizações de trabalhadores e de defesa da cultura. Só para citar um exemplo, a enquete pública disponível na página do projeto na Câmara dos Deputados registra um resultado parcial de mais de 100 mil manifestações de discordância total em relação à iniciativa, correspondendo a 99% das participações contabilizadas até o momento.

“Sabemos que a extrema direita odeia a cultura e a comunicação que não a enaltecem. Seguimos, desde já, mobilizados e articulados com as organizações da sociedade civil que vão resistir ao pior Congresso da nossa história para fazer resistência. Não nos calaremos!”.

Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC

Muito além do financiamento

Na justificativa do PL, Capitão Augusto argumenta que a Ancine teria se tornado uma estrutura administrativa onerosa, marcada por problemas de transparência e por resultados insuficientes diante dos recursos empregados. O texto também sustenta que as funções da agência poderiam ser desempenhadas de forma mais eficiente por uma secretaria ministerial, reduzindo custos administrativos. Especialistas, gestores, agentes e trabalhadores do setor desmentem essa avaliação e alertam para os riscos de desmonte de uma política pública construída ao longo de mais de duas décadas.

A discussão em torno da Ancine não se limita ao financiamento de filmes e séries. A agência exerce atribuições regulatórias que envolvem fiscalização do mercado audiovisual, monitoramento de plataformas digitais, implementação de políticas de conteúdo nacional, acompanhamento de fundos setoriais e combate à pirataria.

A própria Ancine define sua missão institucional como a promoção de um ambiente regulatório equilibrado e o desenvolvimento do setor audiovisual brasileiro “em benefício da sociedade”. Entre seus objetivos estão a ampliação e democratização do acesso à cultura, a valorização da produção nacional e a promoção da diversidade de conteúdos audiovisuais.

Também integram as atribuições da agência temas centrais para a soberania audiovisual brasileira, como a regulamentação de serviços de vídeo sob demanda, a produção de informações sobre o mercado audiovisual e a implementação de instrumentos de proteção ao conteúdo nacional em um cenário cada vez mais dominado por plataformas globais de streaming.

Por essa razão, extinguir a agência não significaria apenas eliminar uma estrutura administrativa, mas desmontar uma institucionalidade responsável pela formulação e execução de políticas públicas estratégicas para a cultura e para a comunicação.

Dados econômicos contestam argumento de baixa efetividade

Outro ponto contestado diz respeito à alegação de que os recursos destinados ao audiovisual não produziriam resultados proporcionais para a sociedade.

Estudo da Oxford Economics, encomendado pela Motion Picture Association (MPA), estimou que a indústria audiovisual brasileira gerou R$ 70,2 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2024, sustentou 608.970 empregos e respondeu por R$ 9,9 bilhões em arrecadação tributária. O levantamento também apontou que os trabalhadores do setor recebem, em média, remuneração 84% superior à média nacional.

Dados mais recentes divulgados por estudo da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e da Universidade Federal Fluminense (UFF) indicam que o audiovisual movimentou R$ 81,1 bilhões na economia brasileira em 2025. Segundo o levantamento, cada R$ 10 milhões investidos no setor geram aproximadamente R$ 18,3 milhões em atividade econômica.

Ao comentar os resultados do estudo da Oxford Economics para a Veja, o presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (SIAESP), André Sturm, destacou a relevância estratégica da atividade. “É um trabalho que requer experiência, história e conhecimento. São fatores importantes, inclusive, para justificar políticas públicas de fomento ao audiovisual.”

Transparência e fiscalização

A justificativa do projeto cita críticas históricas formuladas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) quanto à governança da agência. De fato, auditorias do tribunal apontaram, ao longo dos anos, problemas relacionados à concentração de recursos e à morosidade na análise de projetos.

Contudo, a própria agência afirma ter promovido mudanças significativas em seus mecanismos de controle. Em março de 2026, a Ancine informou que o programa “Malha Fina Ancine”, desenvolvido em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU), resolveu 92% do passivo histórico de prestações de contas acumulado pelo setor audiovisual. Segundo a agência, o modelo foi reconhecido pelo próprio TCU como boa prática de gestão pública.

Ao comentar os resultados da iniciativa, o diretor-presidente da agência, Alex Braga, declarou que “Era um problema histórico que atravancava e até mesmo paralisava o setor. Escolhemos enfrentá-lo pelo diálogo, pela cooperação e pela técnica. O resultado é a devolução de segurança e confiança a quem aposta no audiovisual brasileiro.”

O que o projeto não explica

Análises produzidas após a apresentação do PL apontam que a proposta transfere as atribuições da Ancine para o Ministério da Cultura, mas não detalha como seriam mantidas funções técnicas atualmente desempenhadas pela autarquia. Entre elas estão a operação do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), a fiscalização da Condecine, o acompanhamento da execução de projetos, a prestação de contas e diversos procedimentos regulatórios relacionados ao mercado audiovisual.

Também não são apresentados os critérios utilizados para sustentar a estimativa de economia de 40% nas despesas administrativas mencionada na justificativa do projeto.

Política cultural e democracia

Para entidades e movimentos que atuam na defesa da cultura, da comunicação pública e da democratização dos meios, o debate ultrapassa questões de gestão administrativa.

A existência de uma agência especializada é vista como instrumento de garantia da diversidade cultural, da presença do conteúdo brasileiro nas telas e da capacidade do Estado de formular políticas públicas para um setor estratégico da economia criativa. Em um cenário de crescente concentração global do mercado audiovisual, a discussão sobre o futuro da Ancine também envolve temas como soberania cultural, pluralidade de vozes e fortalecimento da produção nacional.

Nesse contexto, o PL 994/2026 recoloca em disputa não apenas o desenho institucional da política audiovisual brasileira, mas o próprio papel do Estado na promoção da cultura e da comunicação como direitos da sociedade.

Um histórico de ataques

O PL 994/2026 não é a primeira iniciativa voltada à extinção ou ao esvaziamento institucional da Ancine. Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, a agência foi alvo de sucessivas ameaças de extinção e de propostas para reduzir sua autonomia administrativa.

Em julho daquele ano, Bolsonaro declarou que o governo pretendia impor “filtros culturais” às produções audiovisuais apoiadas por recursos públicos e afirmou que, caso isso não fosse possível, a agência poderia ser extinta. “Vai ter um filtro sim. Já que é um órgão federal, se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine. Privatizaremos, passarei ou extinguiremos.”

Dias depois, o então presidente voltou ao tema e foi ainda mais explícito: “Vamos buscar a extinção da Ancine. Não tem nada que o poder público tenha que se meter a fazer filme.”

Na ocasião, o governo também defendia transferir a sede da agência para Brasília e estudava transformá-la em uma secretaria subordinada ao Poder Executivo. As declarações provocaram forte reação de cineastas, artistas e instituições ligadas ao audiovisual.

Defesa da comunicação e da soberania audiovisual

Para o FNDC, a tentativa de extinguir a Ancine ultrapassa um debate meramente administrativo. Trata-se de uma iniciativa que ameaça instrumentos construídos ao longo de décadas para garantir diversidade cultural, fortalecimento da produção nacional, regionalização dos investimentos e soberania comunicacional.

Em um contexto em que o audiovisual brasileiro demonstra crescente relevância econômica, capacidade de geração de emprego e reconhecimento internacional, propostas de desmonte institucional tendem a enfraquecer a capacidade do Estado de formular políticas públicas para um setor estratégico da cultura e da comunicação nacional.

Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, avalia a ameaça à Ancine e à EBC no contexto da próxima legislatura como um dos piores ataques ao direito à comunicação e à cultura. “Sabemos que a extrema direita odeia a cultura e a comunicação que não a enaltecem. Seguimos, desde já, mobilizados e articulados com as organizações da sociedade civil que vão resistir ao pior Congresso da nossa história para fazer resistência. Não nos calaremos!”.

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Com informações da Câmara dos Deputados, Oxford Economics, Motion Picture Association (MPA), Mídia Ninja, VEJA, Agência Brasil, Ancine e TCU.

Congresso dominado pela extrema direita alerta para riscos à EBC e à comunicação pública

Proposta de extinção da empresa apresentada na Câmara dos Deputados recoloca em pauta uma agenda iniciada com o esvaziamento da EBC no governo Temer e aprofundada durante o governo Bolsonaro.

A legislatura que se inicia a partir de primeiro de janeiro de 2027 põe em alerta toda a sociedade pelo seu potencial nocivo à manutenção de direitos e avanços obtidos com muita luta política e consolidados na Constituição Federal. No campo do direito à comunicação, uma das ameaças mais urgentes é a extinção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

O PL 995/26, de autoria do deputado Capitão Augusto (PL-SP), propõe extinguir a EBC, autoriza a liquidação de seus ativos e altera a Lei 11.652/08, que autorizou a criação da estatal pelo Executivo e instituiu os princípios e objetivos da comunicação pública.

Apresentado à Mesa Diretora da Câmara em março deste ano, o PL extingue a EBC, determina a devolução das frequências de rádio e televisão atualmente operadas pela estatal à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a demissão dos empregados da estatal.

O autor também apresentou projetos que extinguem a Agência Nacional do Cinema – Ancine (PL 994/2026), o Conselho Nacional de Direitos Humanos CNDH (PL 1013/2026) e outros seis órgãos: INCRA (PL 1001/2026), DNOCS (PL 1002/2026), CONAB (PL 1005/2026), IPHAN (PL 1007/2026), CNPCP (PL 1009/2026) e Codevasf (PL 1015/2026).

As justificativas para a extinção desses órgãos utilizam uma estrutura argumentativa semelhante: redução dos gastos públicos, racionalização institucional, transferência de competências para ministérios e extinção de estruturas autônomas consideradas desnecessárias.

Com relação à EBC, os argumentos não são novidade: baixa audiência, alto custo operacional e a alegação de que o acesso à informação pública poderia ser garantido por outros meios, como portais governamentais e parcerias com emissoras educativas.

Renata Maffezoli, secretária de Políticas Públicas do FNDC, rebate as razões. “A EBC existe para cumprir o princípio constitucional da complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de comunicação e garantir acesso à informação plural e diversa”. Ela lembra que a lógica da comunicação pública não é competir com os grandes veículos de comunicação comerciais por audiência, nem fazer propaganda das ações do governo do momento, mas cumprir funções constitucionais de pluralidade informativa, diversidade cultural e interesse público.

“A EBC existe para cumprir o princípio constitucional da complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de comunicação e garantir acesso à informação plural e diversa”

Renata Maffezoli

A EBC é cara?

Renata também contrapõe a ideia de que a EBC “é cara”. A coordenadora lembra, inclusive, que uma moção aprovada pela 26ª Plenária Nacional do FNDC, no ano passado, alertava o governo federal para a necessidade de recomposição do orçamento da empresa pública.

Em artigo publicado na revista Eptic em 2020, o pesquisador Octavio Pieranti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), já rebatia o argumento utilizado pela direita de que a EBC onera os cofres públicos. Segundo ele, o orçamento total previsto entre 2008 e 2018 era de R$ 5,7 bilhões. No mesmo período, o orçamento anual médio executado foi de aproximadamente R$ 495 bilhões.

Desde então, a destinação de recursos vem caindo. A própria EBC informou que o orçamento discricionário previsto para 2027 é de R$ 207,9 milhões, o maior desde 2017. Esse é o montante disponível para contratos, tecnologia, manutenção, operação e investimentos, excluindo despesas obrigatórias como pessoal. “Um valor muito abaixo do R$ 700 milhões que o Capitão Augusto usa para justificar sua proposta”, observa Renata.

O terceiro argumento do autor da proposta de extinção da EBC é o de que o acesso à informação pública pode ser garantido por outros meios.

Nesse ponto, a secretária-geral do FNDC, Helena Martins, ressalta que o serviço prestado pela EBC não serve nem ao governo e nem ao mercado. Ela lembra que a comunicação pública e a EBC, especificamente, existem justamente para garantir esse espaço de informação pública prevista na Constituição. “A EBC existe porque a sociedade precisa de um espaço de comunicação que não seja nem governamental nem comercial. Substituí-la por portais oficiais ou por contratos com veículos privados significa enfraquecer o próprio conceito de comunicação pública”, afirma Helena.

A EBC existe porque a sociedade precisa de um espaço de comunicação que não seja nem governamental nem comercial. Substituí-la por portais oficiais ou por contratos com veículos privados significa enfraquecer o próprio conceito de comunicação pública”

Helena Martins

Resistência

Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, lembra que as ameaças à EBC e à comunicação pública não são uma novidade e que o movimento pela democratização da comunicação está atento e articulado para denunciar e resistir.

Em 2016, uma das primeiras medidas do governo Temer foi intervir na governança da empresa, extinguindo o Conselho Curador da EBC e o mandato fixo de diretor-presidente. Já no governo Bolsonaro, a ameaça era de privatização. “Jair declarou publicamente que pretendia extinguir ou privatizar a empresa, incluindo-a no conjunto de estatais submetidas a estudos de privatização. Também houve a unificação da TV Brasil e da NBR. Conseguimos manter a EBC pública e seguiremos resistindo”, garante Katia.

Jair declarou publicamente que pretendia extinguir ou privatizar a empresa, incluindo-a no conjunto de estatais submetidas a estudos de privatização. Também houve a unificação da TV Brasil e da NBR. Conseguimos manter a EBC pública e seguiremos resistindo”

Katia Marko

Veja o PL 995/2026 na íntegra

Movimentos sociais conquistam acesso à informação para milhões de eleitores nas eleições de 2026

Decisão do STF garante acesso gratuito a serviços da Justiça Eleitoral e plataformas de checagem de fatos mesmo após o esgotamento da franquia de dados móveis

A campanha Democracia sem Franquia conquistou uma importante vitória no Supremo Tribunal Federal (STF): o acesso gratuito a serviços da Justiça Eleitoral e de checagem de fatos mesmo após o esgotamento da franquia de dados móveis. Com a decisão, eleitoras e eleitores de todo o país poderão acessar, nos dias decisivos do processo eleitoral, informações essenciais para o exercício do voto livre e informado.

A medida é resultado de uma mobilização construída por organizações da sociedade civil a partir de pesquisas que demonstraram o impacto das franquias de dados sobre o acesso à informação no Brasil. A campanha Democracia sem Franquia foi liderada pelo Sleeping Giants Brasil em conjunto com cerca de 20 organizações, entre elas o FNDC, a FENAJ, o Intervozes, o Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), a Fenadados e diversas entidades comprometidas com a defesa da democracia e dos direitos digitais.

Segundo a campanha, o problema afeta milhões de brasileiros todos os meses. Dados da Pesquisa de Conectividade Significativa da Anatel indicam que 64,1 milhões de pessoas ficam sem franquia de dados mensalmente, enquanto 29,5 milhões passam pelo menos oito dias sem acesso pleno à internet.

Embora continuem conectados a aplicativos favorecidos por acordos comerciais de zero rating, ficam impedidos de acessar livremente sites de notícias, buscadores, serviços públicos e plataformas de verificação de fatos. O fenômeno foi definido pelos organizadores como uma forma de “confinamento digital”: a pessoa não fica fora da internet, mas limitada a uma parcela restrita dela.

Entre as pessoas que ficaram sem dados móveis, 57,4% deixaram de acessar sites de notícias, o que representa cerca de 37 milhões de eleitores sem acesso direto à imprensa em algum momento do mês.

Foi a partir desse diagnóstico que a campanha contribuiu para levar o tema ao STF por meio da ADPF 1355, protocolada em 22 de setembro pelo Partido Verde (PV) e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). A ação pedia que o acesso à internet aberta fosse garantido durante o período eleitoral, reconhecendo a informação como condição essencial para o exercício da cidadania e do voto.

Seis dias entre a ação e a primeira vitória

A tramitação da ADPF foi rápida. Em 24 de setembro, o ministro Cristiano Zanin solicitou manifestações da Anatel, da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Procuradoria-Geral da República (PGR), além de abrir espaço para contribuições do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

Em 28 de setembro, o ministro concedeu liminar determinando que pessoas com franquia esgotada pudessem acessar gratuitamente os sites e aplicativos da Justiça Eleitoral. No dia seguinte, após articulação da campanha e a publicação da nota “O Fato ou Boato não funciona sem acesso aos portais de checagem parceiros do TSE”, a decisão foi ampliada para incluir também os sites das agências de checagem integrantes da rede de combate à desinformação do TSE.

Em 30 de setembro, o Plenário Virtual do STF referendou por unanimidade a liminar, consolidando a garantia de acesso sem consumo de franquia aos serviços eleitorais e às plataformas de checagem durante os períodos definidos pela decisão.

O que ficou garantido

Com a decisão, eleitoras e eleitores poderão acessar gratuitamente os portais do TSE e dos Tribunais Regionais Eleitorais, a página Fato ou Boato e aplicativos como e-Título, Mesário, Boletim na Mão, Resultados e Pardal. A decisão também alcança os parceiros de checagem do TSE, entre eles Lupa, Aos Fatos, UOL Confere, AFP Checagem, Fato ou Fake, Comprova, Estadão Verifica, E-farsas e Boatos.org.

A medida será aplicada entre os dias 1º e 5 de outubro, durante o primeiro turno, e entre 22 e 26 de outubro, caso haja segundo turno.

Uma conquista importante, mas parcial

A campanha considera a decisão uma conquista concreta para milhões de brasileiros, mas ressalta que a reivindicação original era mais ampla. O STF não acolheu, nesta etapa, o pedido de suspensão geral do bloqueio da internet após o fim da franquia de dados nem a garantia de acesso irrestrito à rede em velocidade reduzida. O julgamento do mérito da ADPF 1355, que discute o próprio modelo de franquias de dados no Brasil, continua em aberto.

Ainda assim, a mobilização produziu um resultado inédito. Pela primeira vez, chegar aos dias decisivos de uma eleição sem dados móveis não significará ficar sem acesso às informações oficiais da Justiça Eleitoral e às principais fontes de checagem reconhecidas pelo TSE. Como destaca o relatório da campanha, trata-se de uma vitória construída pela pesquisa, pela incidência jurídica, pela comunicação e pela capacidade da sociedade civil de transformar uma desigualdade pouco visível em uma questão pública e constitucional.

Fonte: relatório da campanha Democracia Sem Franquia

Proteção ao jornalismo nas plataformas digitais exige transparência e garantias democráticas

Entidade alerta para impactos da moderação privada de conteúdo sobre o trabalho jornalístico e reforça necessidade de mecanismos de proteção aos profissionais da comunicação

O debate sobre o poder das grandes plataformas digitais na circulação de informações ganhou mais um capítulo com a campanha “Defende tua voz na internet”, lançada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). A iniciativa busca ampliar a proteção a jornalistas diante de remoções de conteúdo, suspensões de contas e outras formas de restrição impostas unilateralmente por empresas de tecnologia, sem transparência adequada ou garantias efetivas de contestação.

Ao chamar atenção para os efeitos da censura privada das plataformas, a FENAJ destaca que decisões automatizadas ou pouco transparentes podem comprometer o direito da sociedade à informação e atingir diretamente o exercício profissional do jornalismo. A entidade defende que a moderação de conteúdos respeite princípios de devido processo, ampla possibilidade de recurso e transparência nos critérios utilizados pelas plataformas.

Para o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), a discussão reforça a urgência de estabelecer mecanismos democráticos de governança do ambiente digital, capazes de equilibrar o enfrentamento à desinformação, aos discursos de ódio e às práticas ilícitas com a proteção da liberdade de expressão e da atividade jornalística.

A concentração de poder comunicacional nas mãos de poucas empresas globais tem permitido que decisões com grande impacto sobre o debate público sejam tomadas sem controle social, transparência ou responsabilização adequados. Quando perfis, conteúdos ou veículos jornalísticos são removidos sem justificativa clara ou sem canais efetivos de contestação, não está em jogo apenas o direito individual dos profissionais atingidos, mas também o acesso da sociedade à pluralidade de vozes e informações.

Plataforma política 20 Pontos para uma Comunicação Democrática

O tema dialoga diretamente com uma das propostas da plataforma política 20 Pontos por uma Comunicação Democrática, construída pelo FNDC. O ponto 18 defende o fortalecimento de políticas de proteção a jornalistas e comunicadores contra violências e intimidações, com atenção especial aos profissionais que atuam em territórios de conflito e em contextos de maior vulnerabilidade.

Embora historicamente associada a ameaças físicas, perseguições judiciais e assédio, a proteção ao trabalho jornalístico precisa considerar também os riscos decorrentes da mediação exercida pelas plataformas digitais. Na atual configuração do ecossistema comunicacional, suspensões arbitrárias de contas, remoções indevidas de conteúdos e bloqueios de alcance podem representar formas adicionais de constrangimento e silenciamento, afetando especialmente comunicadores independentes, populares e comunitários.

Nesse sentido, iniciativas como a campanha da FENAJ contribuem para ampliar o debate público sobre direitos digitais e liberdade de imprensa, reafirmando que a construção de um ambiente informacional democrático depende não apenas da proteção aos profissionais da comunicação, mas também de regras transparentes e socialmente controladas para a atuação das plataformas digitais.

Fonte: Fenaj/“Defende tua voz na internet” (acesse aqui)

Censura seletiva não pode ser o caminho para o debate eleitoral!

FNDC e mais de 70 entidades assinam manifesto contra interferência da plataforma Meta no processo democrático brasileiro

Publicado originalmente em diracom.org

A Meta retirou do Instagram, na última quarta-feira (23), o perfil da série jornalística Revelando, que havia publicado uma reportagem apresentada por Fábio Porchat sobre relações entre o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e políticos de extrema direita, como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira.

Segundo reportagem da Folha, o Instagram alegou apenas que o conteúdo não seguia seus padrões, sem informar qual regra teria sido violada. O teaser da reportagem havia alcançado cerca de 6 milhões de visualizações antes da retirada, estando no primeiro lugar de visualizações no YouTube.

A decisão e mesmo a velocidade da ação da Meta contrastam com outros casos em que a empresa tem sido omissa. Pesquisas e investigações jornalísticas já documentaram que contas do Instagram que difundiram conteúdos nazistas. Nas eleições de 2022 no Brasil, toda uma série de grupos e canais denunciados pelo TSE permaneceu no ar até meses depois do pleito, contribuindo com a organização da tentativa de golpe de 8 de janeiro. Nestas eleições, dezenas de casos de suspensão de perfis de jornalistas e meios de comunicação de maneira arbitrária pela Meta já foram denunciados ao Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais. Outras iniciativas, como o Observatório de Olho na Censura, do DiraCom, também tem divulgado casos de práticas de moderação equivocadas.

Isso mostra o que há tempos denunciamos: as plataformas não devem decidir, sozinhas, o que circula ou não nas redes sociais, que se tornaram espaços públicos fundamentais para o debate político.

A Meta está lucrando bastante com as eleições e a sociedade também paga por isso. A empresa deve fornecer explicações sobre o caso da série Revelando e os critérios que estão sendo utilizados na moderação de conteúdo eleitoral. Deve ainda franquear informações para as autoridades, partidos e pesquisadores.

A situação é ainda mais perigosa diante da postura do TSE na eleição atual à presidência da República. Em meio a graves suspeitas de seu próprio envolvimento com Daniel Vorcaro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, deu 24 horas para o Instagram retirar publicação que associa Flávio Bolsonaro ao Banco Master. Em outra, rejeitou o pedido para excluir vídeo publicado pela campanha de Flávio que relaciona a vitória de Lula em 2022 ao crime.

Diante da diferença entre os tratamentos, manifestamos nosso repúdio e cobramos que haja transparência e acompanhamento dessas decisões tomadas pelas empresas pela sociedade civil. Cobramos também que o TSE cumpra seu papel e utilize critérios transparentes, previsíveis e aplicados de maneira consistente, especialmente quando a moderação atinge conteúdos de interesse público e relacionados a candidatos e instituições políticas. O escrutínio público é fundamental para garantir a lisura e a confiança no processo eleitoral.

As plataformas digitais têm interesses claros na manutenção de um ambiente desregulado e não podem usar seu poder e alcance no Brasil para influenciar o resultado das eleições.

A democracia brasileira não pode ficar refém das grandes plataformas digitais. É por isso que o DiraCom – Direito à Comunicação e Democracia e outras entidades da sociedade civil têm defendido há anos uma regulação pública democrática, a qual, entre outros aspectos, deve assegurar as explicações nestes casos e o devido processo na moderação de contas e conteúdos.

Censura seletiva não pode ser o caminho para o debate eleitoral!

Assinam este manifesto as organizações e entidades a seguir:

  1. ABPEducom – Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação
  2. Aliança Nacional LGBTI+
  3. ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais
  4. ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior
  5. ANDI – Comunicação e Direitos
  6. Aqualtune Lab
  7. Articulação Nacional de Agroecologia (ANA)
  8. Artigo 19 Brasil
  9. As Cunhãs Podcast
  10. Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor)
  11. Associação Cultura Cidade e Arte (ACCA)
  12. Associação Mulheres na Comunicação (AMC)
  13. Associação Mundial de Rádios Comunitárias – AMARC Brasil
  14. BemTV
  15. Bloco Não é Não – Goiânia, Goiás
  16. Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
  17. Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC)
  18. Ciranda Net
  19. Coding Rights
  20. Coletivo Democratiza UFRN
  21. Coletivo Digital
  22. Coletivo Feminista Emancipa
  23. Coletivo Soylocoporti
  24. COMPÓS
  25. CTRL+Z
  26. data_labe
  27. DiraCom
  28. EMERGE
  29. Estratégia Latino-Americana de Inteligência Artificial – ELA-IA
  30. Faculdade de Educação da UFC
  31. FALA – estúdio de impacto
  32. Federação Nacional de Jornalistas – FENAJ
  33. FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
  34. Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública
  35. FRENTE MATERNA FEMINISTA
  36. GAPPI
  37. Grupo de Pesquisa Desinfomídia (UFSM/CNPq/RNCD)
  38. Grupo de Pesquisa em Gênero, Tecnologia Digital e Cultura/GIG@
  39. Iandé Comunicação e Educação
  40. Individual
  41. Inovacom
  42. Instituto Aaron Swartz
  43. Instituto Atrium de Políticas Públicas e Mediação Social
  44. Instituto Bem Estar Brasil – IBEBrasil
  45. Instituto de Defesa de Consumidores (Idec)
  46. Instituto de Referência em Internet e Sociedade
  47. Instituto Decodifica
  48. Instituto Devir Educom
  49. Instituto Nupef
  50. Instituto Vladimir Herzog
  51. INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
  52. International Center for Information Ethics – ICIE
  53. Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
  54. Ipê UFMG (Grupo de pesquisa em instituições, públicos e experiências coletivas)
  55. Laboratório de Qualidade Informativa (Qual-i)
  56. MediaLab.UFRJ
  57. MíDI – Laboratório de Mídias Digitais e Internet
  58. Moto coletivo Anhangá
  59. Movimento Ouro Preto pela Infância
  60. Museu Paraense Emílio Goeldi
  61. Núcleo de Tecnologia do MTST
  62. Observatório da Mídia: direitos humanos, políticas, sistemas e transferência
  63. Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (OBCOM)
  64. Rede Folkcom
  65. Rede Nacional de Combate à Desinformação
  66. Rede Sementes da Agroecologia
  67. Sindicato de Jornalistas do Distrito Federal (SJPDF)
  68. Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro
  69. Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo
  70. Sindipúblicos – Sindicato dos Trabalhadores e Servidores Públicos do Estado do Espírito Santo
  71. SINT-IFESGO
  72. Sleeping Giants Brasil
  73. SOCICOM (Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação)
  74. Sociedade EPTICC
  75. Terra de Direitos
  76. Visão Nativa Educação e Cultura

Educação midiática nos territórios é arma estratégica contra a desinformação

Jornalista e educomunicadora da Cáritas Brasil destaca o papel dos movimentos sociais na formação crítica da população, na disputa de narrativas e no combate às fake news a partir das comunidades.

A desinformação não é um fenômeno novo, mas ganhou escala inédita com o poder das plataformas digitais e das grandes empresas de tecnologia. Para enfrentar esse cenário, é preciso fortalecer a comunicação popular nos territórios, investir em educação midiática e dialogar diretamente com a população. Essa foi a avaliação da jornalista, repórter, educomunicadora e editora audiovisual Clara Glock, assessora de comunicação da Cáritas Brasil, durante participação no programa Vozes pela Democracia, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

Ao abordar o tema “Os movimentos sociais contra a desinformação”, Clara ressaltou que a chamada educomunicação tem raízes na educação popular de Paulo Freire e nas contribuições do comunicador uruguaio Mario Kaplún, associando comunicação, diálogo e produção coletiva de conhecimento.

“A educomunicação não é só comunicação, nem educação pela educação. É uma educação popular, com base na ética, no diálogo e na informação e conhecimento a partir dos saberes das populações nos territórios”.

Clara Glock

Para a jornalista, a desinformação sempre esteve presente na sociedade, mas atualmente está associada ao enorme poder político e econômico das plataformas digitais globais. Segundo ela, compreender quem controla os meios de comunicação é um passo fundamental para enfrentar a manipulação informacional.

“Quando a gente faz oficinas de educomunicação, a primeira pergunta é: quem são os donos da mídia? As big techs, essas grandes empresas que todo mundo usa no dia a dia, estão muito ligadas a essa questão da desinformação.”

Comunicação popular frente às emergências climáticas

Durante a entrevista, Clara apresentou experiências desenvolvidas pela Cáritas no Rio Grande do Sul após as enchentes que atingiram o estado em 2024. Ela destacou o projeto “Cáritas nas Emergências: comunidades mobilizadas no enfrentamento às mudanças climáticas”, que atuou diretamente junto às populações afetadas.

A iniciativa combinou ações emergenciais, incidência política, apoio psicossocial e processos de comunicação comunitária. Um dos resultados foi a construção de um dicionário popular com termos relacionados à prevenção de desastres, elaborado a partir da realidade vivida pelas comunidades.

Segundo Clara, a experiência demonstrou a importância de traduzir temas técnicos para uma linguagem acessível e conectada ao cotidiano das pessoas. “Informar é também fazer com que as comunidades consigam entender do que a gente está falando e participem ativamente disso.”

Ela argumentou que as mudanças climáticas, a disputa por informações e os processos eleitorais estão diretamente conectados, uma vez que as decisões políticas influenciam questões ambientais e sociais centrais para a vida das populações.

Sair das bolhas e dialogar com afeto

Ao comentar o cenário eleitoral e o avanço da desinformação, Clara defendeu que movimentos sociais, organizações populares e cidadãos fortaleçam o diálogo cotidiano com seus círculos de convivência. Para ela, mais do que confrontar ou hostilizar quem pensa diferente, é necessário construir pontes de conversa e estimular reflexões sobre direitos sociais e democracia. “Esse não é o momento para a gente acusar. Esse é um momento para conversar com as pessoas e mostrar do que elas já usufruem por viverem numa democracia.”

A educomunicadora também alertou para o papel dos algoritmos na circulação de conteúdos e destacou a importância de compartilhar informações de qualidade, acessíveis e produzidas em linguagem popular. “Hoje vale muito mais a gente sair das nossas bolhas e conversar com as pessoas no dia a dia.”

Comunicação como direito e participação

Na avaliação da representante da Cáritas, o combate à desinformação exige presença permanente nos territórios, fortalecimento da comunicação comunitária e valorização dos saberes populares. Ela defendeu que espaços como associações comunitárias, escolas, pontos de cultura, coletivos juvenis, grupos de rap e slam podem ser fundamentais para reconstruir laços sociais e promover formação crítica.

Ao final da entrevista, Clara reforçou a importância do voto consciente e da participação cidadã como instrumentos para a defesa e ampliação de direitos. “Quando a gente está falando de meio ambiente, a gente também está falando de eleição e de voto potente. Nosso voto é potente.”

O programa Vozes pela Democracia é uma produção do FNDC dedicada ao debate sobre cidadania, direito à comunicação e fortalecimento da democracia no Brasil.

Acesso à internet antes das eleições está nas mãos do STF

FNDC integra campanha Democracia Sem Franquia, que reúne dezenas de organizações em defesa da internet aberta nas 72 horas anteriores à votação e apoia ação em análise pelo ministro Cristiano Zanin.

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) é uma das dezenas de organizações da sociedade civil que aderiram à campanha Democracia Sem Franquia, iniciativa que defende a garantia de acesso à internet aberta para toda a população nas 72 horas anteriores às eleições de 2026.

A mobilização ganha força em meio à tramitação, no STF, da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1355/2026, apresentada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e pelo Partido Verde (PV) pedindo a garantia de acesso mínimo à internet móvel durante as 72 horas que antecedem o pleito. O processo foi distribuído ao ministro Cristiano Zanin, relator do caso, que determinou a manifestação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e de outros órgãos antes de analisar o pedido de tutela de urgência. Segundo os autores, a medida busca assegurar que restrições decorrentes do esgotamento da franquia de dados não impeçam o acesso da população à informação em um período decisivo para a formação da vontade política.

A campanha reúne entidades que atuam nas áreas da comunicação, dos direitos digitais, da educação e dos direitos humanos. O objetivo é assegurar que eleitoras e eleitores possam acessar livremente veículos jornalísticos, serviços públicos, mecanismos de busca e outras fontes de informação, independentemente de terem consumido integralmente seus pacotes de dados móveis.

“Não basta garantir que todos possam votar. É preciso garantir que todos tenham condições de escolher livremente em quem votar, e isso só é possível com pleno acesso à informação”.

Recentemente, a Advocacia-Geral da União (AGU) também se manifestou favoravelmente à adoção de medidas que garantam o acesso à internet nas 72 horas anteriores às eleições, reforçando o entendimento de que o acesso à informação constitui um elemento essencial para o exercício dos direitos políticos e para a participação democrática.

Para as organizações que integram a campanha, a questão ultrapassa as relações de consumo entre usuários e operadoras de telecomunicações. O acesso à internet aberta é entendido como uma condição fundamental para que a população possa buscar informações confiáveis, comparar propostas, verificar conteúdos e exercer o voto de forma livre e consciente.

Além de apoiar a ação judicial, as entidades preparam pedidos de participação no processo na condição de amici curiae, apresentando contribuições técnicas e jurídicas sobre os impactos da exclusão digital no exercício dos direitos à informação e ao voto. Entre os argumentos defendidos está o fato de que a interrupção do acesso à internet afeta principalmente a população de menor renda, aprofundando desigualdades já existentes.

A campanha

As entidades lançaram ainda o portal da campanha, que reúne estudos, informações e materiais de mobilização sobre a proposta. Segundo os organizadores, milhões de brasileiros enfrentam períodos recorrentes de desconexão após o término de seus pacotes de dados, justamente em um cenário em que o acesso à informação, a serviços públicos e ao jornalismo profissional ocorre cada vez mais por meio da internet.

No manifesto divulgado pelas organizações apoiadoras, a defesa da internet aberta é apresentada como uma condição indispensável para a efetivação da democracia. O documento afirma que “não basta garantir que todos possam votar. É preciso garantir que todos tenham condições de escolher livremente em quem votar, e isso só é possível com pleno acesso à informação”.

Entre as entidades que integram a mobilização estão a CNTE, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o Intervozes, o Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), a Fenadados, o Sleeping Giants Brasil e o FNDC, entre outras organizações comprometidas com a defesa da democracia, da comunicação e dos direitos digitais.

Como parte das ações de conscientização pública, a campanha também promoveu uma projeção em um edifício da cidade de São Paulo com mensagens como “Voto livre é voto bem informado” e “Queremos internet aberta 72 horas antes do voto”, buscando ampliar o debate sobre a importância do acesso à informação durante o processo eleitoral.

Mais informações sobre a iniciativa podem ser encontradas no portal democraciasemfranquia.com.br

Mulher na Comunicação: Katia Marko defende democratização da comunicação e soberania digital

Coordenadora-geral do FNDC destacou a necessidade de regulamentar plataformas digitais, fortalecer mídias comunitárias e garantir o direito à comunicação como condição para a democracia.

Comunicação é um direito humano e não haverá democracia plena sem sua democratização. Essa foi uma das principais mensagens da coordenadora nacional do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Katia Marko, durante participação no programa Segundamente, promovido pelo canal Mulheres na Comunicação (21/9). O episódio reuniu comunicadoras populares, pesquisadoras e ativistas para discutir o tema “Comunicação como direito humano: quem tem voz no Brasil?”.

Ao longo do debate, Katia ressaltou que a luta pela democratização da comunicação acompanha mais de três décadas de atuação do FNDC e segue atual diante da crescente concentração do poder informacional nas mãos das grandes plataformas digitais. “Sem democratizar a comunicação, a gente não vai ter uma democracia real no nosso país”, afirmou.

A dirigente do FNDC apresentou a plataforma 20 Pontos para uma Comunicação Democrática, lançada pela entidade e construída a partir de debates realizados em diferentes regiões do país. O documento reúne propostas históricas do movimento pela democratização da comunicação e incorpora desafios contemporâneos relacionados à internet, inteligência artificial e soberania digital.

Entre as medidas defendidas estão a regulamentação das concessões públicas de rádio e televisão, a universalização do acesso à banda larga, a regulação democrática das plataformas digitais, o fortalecimento da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a proteção de jornalistas e comunicadores, a promoção da educação midiática e o combate aos monopólios e oligopólios da comunicação.

Segundo Katia, a plataforma representa uma síntese das reivindicações acumuladas pelo movimento social desde a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), cujas propostas, em grande parte, seguem sem implementação.

Big techs e soberania nacional

Um dos principais alertas feitos pela coordenadora do FNDC diz respeito ao poder político e econômico exercido pelas chamadas big techs. Para ela, o debate sobre comunicação deixou de estar restrito aos meios tradicionais e passou a envolver corporações globais que influenciam eleições, comportamentos e o fluxo de informações em escala mundial.

Katia destacou que hoje se fala de empresas cujo faturamento supera o PIB de muitos países e que controlam ferramentas capazes de influenciar a forma como as pessoas enxergam o mundo. Na avaliação da dirigente, não é mais possível discutir soberania nacional sem discutir soberania digital. Ela chamou atenção para a dependência crescente de infraestruturas e serviços controlados por grandes empresas estrangeiras, inclusive em áreas estratégicas do Estado.

“Os dados da saúde, da educação e dos serviços públicos estão nas mãos dessas corporações. Como falar em soberania quando informações fundamentais da população dependem delas?”.

Katia Marko

Cumprir a Constituição

Ao tratar dos caminhos para garantir o direito à comunicação no Brasil, Katia afirmou que um passo importante seria colocar em prática dispositivos já previstos na Constituição Federal.

Ela lembrou que a Carta Magna proíbe monopólios e oligopólios na comunicação, estabelece deveres para concessionários de rádio e televisão e prevê complementaridade entre os sistemas privado, público e comunitário. No entanto, segundo a dirigente, muitos desses princípios permanecem sem regulamentação efetiva.

A coordenadora também voltou a defender a proibição da propriedade de meios de comunicação por políticos e destacou a necessidade de ampliar mecanismos de financiamento para mídias públicas, populares e comunitárias.

Comunicação popular como instrumento de transformação

Em sintonia com as falas das demais participantes, Katia reforçou a importância das rádios comunitárias, dos veículos independentes e das iniciativas populares de comunicação na ampliação da pluralidade de vozes.

Segundo ela, esses espaços cumprem um papel fundamental ao dar visibilidade a grupos historicamente marginalizados, como populações periféricas, movimentos sociais, comunidades tradicionais e trabalhadores.

“A comunicação comunitária e popular existe para transformar a realidade e garantir que as vozes silenciadas pelos grandes meios possam ser ouvidas”, afirmou.

Mulheres e esperança coletiva

Nas considerações finais, a dirigente destacou o protagonismo das mulheres nas lutas sociais e comunicacionais contemporâneas. Para ela, parte significativa das transformações em curso na sociedade brasileira tem sido impulsionada pela atuação de mulheres nos movimentos populares, nos territórios e nos meios de comunicação.

Katia afirmou que as mulheres são hoje algumas das vozes mais potentes da sociedade brasileira e que a construção de um futuro democrático passa necessariamente por seu protagonismo. Ao encerrar sua participação, a coordenadora do FNDC reafirmou a necessidade de seguir defendendo a comunicação como direito humano e de manter viva a mobilização pela democratização da mídia.

“Temos que repetir cada vez mais que comunicação é um direito humano. Precisamos de políticas públicas que fortaleçam a comunicação popular, comunitária e pública para construir uma sociedade mais democrática”.

Katia Marko

Direita brasileira resiste à regulação das big techs porque são suas aliadas

Em entrevista ao programa Vozes pela Democracia, cientista de dados defende regulação das plataformas digitais, responsabilização das big techs e políticas de prevenção para enfrentar golpes, fraudes e violência online que afetam milhões de brasileiros.

Os crimes digitais deixaram de ser um problema secundário para se tornar uma das principais questões de segurança pública do país. Golpes financeiros, vazamentos de dados, desinformação, manipulação por inteligência artificial e a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos nocivos compõem um cenário que desafia governos, instituições e a própria democracia.

Esse foi o tema da edição 122 do Vozes pela Democracia, programa do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), que recebeu o cientista de dados, professor de pós-graduação, escritor e conselheiro da Presidência da República, Ergon Cugler. Em conversa com o apresentador Sousa Júnior, o pesquisador argumentou que o enfrentamento da criminalidade digital exige inteligência, prevenção e responsabilização das grandes plataformas tecnológicas.

Segurança pública também passa pelo ambiente digital

Logo no início da entrevista, Ergon destacou que a segurança pública aparece hoje como a principal preocupação da população brasileira. No entanto, segundo ele, parte do debate político ignora que uma parcela crescente dos crimes ocorre ou é potencializada pela internet.

“O problema da criminalidade, da segurança pública e dos conflitos que a gente tem na nossa sociedade também está explodindo no ambiente digital”, afirmou.Para o pesquisador, discursos simplistas e punitivistas não são capazes de enfrentar o crime organizado nem as novas modalidades de violência mediadas pela tecnologia. “Somente atuação de segurança pública com inteligência dá conta de lidar com o chamado crime organizado.”

Ergon citou dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública para destacar a dimensão do problema. Segundo ele, os golpes digitais registraram crescimento superior a 400% nos últimos anos, tornando-se uma realidade cotidiana para milhões de brasileiros. “É difícil encontrar alguém que nunca caiu em um golpe no ambiente digital.”

O lucro das plataformas diante dos golpes

Durante a entrevista, o pesquisador criticou a postura das grandes empresas de tecnologia diante da circulação de fraudes e conteúdos criminosos.

Ele mencionou reportagem da agência Reuters baseada em documentos internos da Meta que apontaria lucros bilionários associados à manutenção de anúncios fraudulentos e golpes em suas plataformas. “A Meta lucra 16 bilhões de dólares com golpes e fraudes que ela deixa de derrubar.”

Para Ergon, esse tipo de situação evidencia a necessidade de mecanismos regulatórios que obriguem as plataformas a agir preventivamente.

“O mundo já está dando respostas para isso”, afirmou, citando legislações adotadas pela Austrália e pela União Europeia que preveem multas pesadas para empresas que descumprem regras relacionadas à segurança digital e à proteção dos usuários.

Inteligência artificial e novas formas de violência

Outro ponto de preocupação levantado pelo entrevistado foi o uso de inteligência artificial para a produção e disseminação de conteúdos criminosos.

Ergon relatou pesquisas desenvolvidas no âmbito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) sobre a chamada “cripface”, prática que utiliza tecnologias de manipulação de imagem para inserir rostos de pessoas em conteúdos pornográficos.

Segundo ele, um dos casos mais graves identificados envolvia o uso de imagens de pessoas com síndrome de Down para a comercialização de material adulto.

“Tem gente pegando o rosto de pessoas com síndrome de Down e colocando em vídeos pornográficos de conteúdo adulto para revender esses conteúdos na internet.” O pesquisador chamou atenção para o fato de que esse material não circula apenas em espaços clandestinos da rede. “Isso está no Twitter, que é o atual X, isso está no TikTok, isso está no Instagram.”

Crianças e adolescentes entre os mais vulneráveis

Ao longo da conversa, Sousa Júnior e Ergon falaram sobre os riscos enfrentados por crianças e adolescentes em ambientes digitais cada vez mais presentes no cotidiano. Segundo o entrevistado, a proteção da infância exige mecanismos efetivos de controle, fiscalização e responsabilização das empresas responsáveis pelas plataformas.

Ele avaliou positivamente os avanços trazidos pelo chamado ECA Digital, sobretudo ao estabelecer obrigações mais claras para as plataformas em relação à proteção de menores.

Um dos aspectos destacados foi o chamado dever de cuidado. “Não é só a partir de denúncia que as plataformas são obrigadas a derrubar conteúdo. Elas têm que prevenir que o crime seja circulado.”

Para o pesquisador, entretanto, ainda há dúvidas sobre a efetividade das medidas adotadas pelas empresas para cumprir essas determinações. Ele também fez uma provocação sobre a resistência dos parlamentares e outros políticos de direita e extrema direita sobre a regulação democrática. “Até quando vamos deixar que a extrema direita coloque nossas crianças em risco de serem cooptadas no ambiente digital porque tem medo de entregar seus aliados que estão permitindo esses crimes no ambiente digital?

Golpes digitais atingem principalmente os mais pobres

Cugler também argumentou que os crimes digitais possuem forte impacto social e econômico sobre a população de baixa renda.

Segundo ele, o prejuízo provocado por um golpe pode significar a perda de recursos essenciais para a sobrevivência de uma família trabalhadora. “Quem mais sofre hoje na internet por golpes digitais não são as pessoas ricas de classe média ou de classe alta. São as pessoas pobres.”

E completou: “Se aqueles R$ 60 perdidos eram a compra da feira da semana, ela vai deixar de comer.” Na avaliação do pesquisador, esse aspecto evidencia a necessidade de tratar a segurança digital como uma política pública voltada à proteção da população mais vulnerável.

Regulação não é censura

Um dos temas centrais da entrevista foi o debate sobre a regulação das plataformas digitais. Ergon criticou o que considera uma tentativa da extrema direita de associar qualquer proposta regulatória à censura, ignorando os impactos reais da ausência de regras. “Quando a gente vai falar sobre regulação das big techs, as pessoas contaminadas pelo discurso da extrema direita ficam com medo, achando que é proposta de censura.”

Segundo ele, o objetivo da regulação é garantir que as mesmas leis aplicadas no mundo físico também tenham validade no ambiente digital. “A lei que já vale fora das redes também tem que valer para esses poderosos das big techs.”

Para o pesquisador, há uma contradição entre o discurso de setores que defendem punições severas para determinados crimes mas rejeitam medidas de responsabilização das empresas de tecnologia. “Quando vai lidar com crime digital, aí vira um gatinho que mia, perde toda a pose de leão.”

Prevenção e atendimento imediato às vítimas

Entre as iniciativas apontadas como exemplos positivos, Ergon citou a proposta do “Disque Golpe”, apresentada pela deputada estadual Dani Balbi, no Rio de Janeiro. A ideia é oferecer orientação especializada e imediata para vítimas de fraudes digitais, aumentando as chances de reverter perdas financeiras e interromper golpes em andamento.

“A ação imediata, quando você está sofrendo um golpe no ambiente digital, é o que mais pode dar conta de reverter a perda que aquele cidadão vai ter.” Para ele, experiências desse tipo deveriam ser replicadas em todo o país.

Democracia, direitos e responsabilidade

Ao encerrar a entrevista, Ergon voltou a defender que o debate sobre segurança pública incorpore de forma mais consistente os desafios impostos pelo ambiente digital.

Segundo ele, combater golpes, proteger crianças e responsabilizar plataformas não representa restringir a liberdade de expressão, mas garantir direitos fundamentais e fortalecer a democracia. “A internet não está saudável, não está segura.”

E concluiu: “Os principais aliados da negligência, da cooptação de crianças e dos golpes digitais hoje são, evidentemente, os setores que se recusam a enfrentar a responsabilidade das plataformas. E a gente precisa evidenciar isso durante o processo eleitoral.”