Alexandre D’Lou ressaltou que qualquer inovação pode assumir tanto um caráter útil quanto prejudicial, dependendo de como é desenvolvida e aplicada, pois atende aos interesses de quem a criou

O radialista Alexandre D’Lou, diretor do Sindicato dos Radialistas de São Paulo (Sinrad-SP) e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), defendeu uma análise crítica sobre o desenvolvimento da inteligência artificial e seus impactos sociais, trabalhistas e políticos. Ele foi um dos palestrantes da mesa de abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo neste sábado (20/6).

A mesa debateu o tema “Jornalismo e Inteligência Artificial: Um avanço à soberania ou da precarização do trabalho?”. Alexandre iniciou sua fala resgatando a origem histórica da inteligência artificial e da informática, destacando o papel do matemático Alan Turing. Considerado um dos precursores da área, o cientista foi responsável por desenvolver máquinas capazes de quebrar códigos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial, contribuindo decisivamente para o desfecho do conflito.

Apesar disso, o radialista ressaltou a contradição vivida por Turing, que, mesmo tendo prestado serviços fundamentais ao Estado, foi posteriormente punido com castração química por ser homossexual. Para Alexandre, esse episódio ilustra uma relação estrutural entre indivíduo e Estado marcada pela lógica de utilidade e descarte.

“Quando ele não serve mais para a função do Estado, esse indivíduo se torna descartável”, afirmou, estabelecendo um paralelo com o mundo do trabalho contemporâneo. Para Alexandre, o argumento utilizado por empresas para justificar demissões associadas à adoção de inteligência artificial reforça essa lógica: trabalhadores passam a ser tratados como substituíveis.

Alexandre também destacou que a tecnologia, em si, não é neutra. Para ele, qualquer inovação pode assumir tanto um caráter útil quanto prejudicial, dependendo de como é desenvolvida e aplicada. “Ela atende aos interesses de quem a criou”, resumiu.

Essa perspectiva se estende, segundo o diretor do Sinrad-SP, a todo o campo da comunicação. Assim como veículos de mídia possuem linhas editoriais e interesses definidos, as tecnologias também carregam intencionalidades políticas e econômicas, sejam elas desenvolvidas por Estados, empresas privadas ou organizações coletivas, como sindicatos e movimentos sociais.

Uso qualificado da IA depende das condições materiais e simbólicas

Ao abordar o acesso às ferramentas tecnológicas, Alexandre chamou atenção para as desigualdades existentes. Ele destacou que o uso qualificado da inteligência artificial depende de condições materiais e simbólicas, como acesso a equipamentos, tempo disponível para estudo e formação acadêmica. Mesmo assim, pontuou que o acesso às versões mais avançadas dessas tecnologias ainda está limitado por barreiras econômicas.

Nesse contexto, o radialista defendeu que o debate sobre democratização da comunicação deve incluir também a democratização da tecnologia. Para ele, é necessário pensar formas de desenvolver ferramentas alinhadas aos interesses sociais e coletivos, e não apenas às lógicas de mercado. Encerrando sua fala, Alexandre dirigiu-se especialmente aos estudantes, incentivando uma postura crítica no uso da inteligência artificial. Ele afirmou que a tecnologia não deve ser utilizada apenas como atalho para execução de tarefas, mas como instrumento de aprofundamento do conhecimento. “Você pode usar a IA, mas precisa investigar como fazer isso para dar um passo além no seu conhecimento”, concluiu.