A Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo reuniu jornalistas, pesquisadores, comunicadores e militantes de diferentes áreas, no campus Consolação da PUC-SP, para discutir os impactos das novas tecnologias no campo da comunicação

A relação entre jornalismo, inteligência artificial (IA) e as transformações no mundo do trabalho esteve no centro da roda de diálogo “Jornalismo e inteligência artificial: um avanço à soberania ou à precarização do trabalho?”, que abriu a Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo neste sábado (20/6).

A atividade reuniu jornalistas, pesquisadores, comunicadores e militantes de diferentes áreas, no campus Consolação da PUC-SP, para discutir os impactos das novas tecnologias no campo da comunicação. A mesa foi mediada pela secretária de Finanças do FNDC, Larissa Gould.

A proposta da mesa foi abordar a inteligência artificial como fenômeno inserido em disputas políticas, econômicas e sociais, com efeitos diretos sobre a produção de informação, os modelos de negócio das plataformas e as condições de trabalho no setor.

Em comum, as falas destacaram a necessidade de superar visões fragmentadas sobre tecnologia e comunicação. A inteligência artificial foi apresentada como parte de um processo mais amplo, que envolve disputas por poder, controle de dados, modelos de negócio e direitos trabalhistas.

Comunicação como prática política e coletiva

A jornalista e militante feminista Bianca Pessoa, da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e do portal Capire, trouxe ao debate a perspectiva dos movimentos sociais, destacando a comunicação como elemento estruturante da organização política.

Sua fala enfatizou que o fazer comunicativo não deve ser entendido como uma etapa posterior às ações coletivas, mas como parte constitutiva da própria militância. A partir da experiência da MMM, ela apontou a necessidade de formação política e tecnológica das militantes, incluindo o uso crítico da inteligência artificial.

Também apresentou iniciativas concretas do movimento que articulam comunicação, formação e tecnologia, evidenciando como ferramentas digitais podem ser apropriadas para fortalecer processos organizativos e ampliar a circulação de narrativas feministas.

Tecnologia, poder e trabalho

O radialista Alexandre D’Lou, diretor do Sindicato dos Radialistas de São Paulo (Sinrad-SP) e mestrando da UFSCar, trouxe uma abordagem histórica e crítica sobre o desenvolvimento da inteligência artificial.

Ao resgatar a trajetória de Alan Turing, o pesquisador destacou a relação entre tecnologia, Estado e controle social, estabelecendo paralelos com o cenário contemporâneo de transformação do trabalho. Ele ressaltou que a ideia de neutralidade tecnológica não se sustenta, pois as ferramentas refletem os interesses de quem as desenvolve e operam dentro de estruturas de poder.

Alexandre também chamou atenção para o impacto da IA nas relações laborais, especialmente diante de discursos empresariais que associam a tecnologia à substituição de trabalhadores, reforçando uma lógica de descartabilidade.

Plataformas, “conteúdo” e regulação

O criador de conteúdo Thiago Guimarães, do canal @oratiago, concentrou sua intervenção na crítica ao conceito de “conteúdo” e ao modelo de funcionamento das plataformas digitais.

Segundo ele, a generalização promovida por esse termo contribui para diluir diferenças entre formatos e esvaziar o debate sobre produção audiovisual. Ao mesmo tempo, destacou a centralidade da extração de dados na lógica econômica dessas plataformas, que tratam diferentes produções como ativos de mercado.

Thiago também abordou a convergência entre internet e radiodifusão, apontando que formatos como streaming e podcasts frequentemente replicam estruturas tradicionais da mídia, porém fora dos marcos regulatórios existentes. Ele alertou que esse cenário está diretamente relacionado ao avanço da inteligência artificial e à precarização do trabalho no setor.

Impactos estruturais da inteligência artificial

Encerrando o debate, o professor e cientista de dados Ergon Cugler, do Barão de Itararé, apresentou uma análise ampla dos efeitos da inteligência artificial sobre o jornalismo e a sociedade.

Ele destacou três impactos principais: a apropriação de conteúdos jornalísticos por sistemas automatizados, o potencial ampliado de manipulação da informação e a substituição de trabalho humano. Para Ergon, esses processos estão inseridos em um modelo econômico orientado pela concentração de poder nas big techs.

O pesquisador também chamou atenção para a dimensão material da IA, destacando os impactos ambientais e sociais da expansão de data centers e questionando políticas públicas que incentivam esse modelo sem considerar seus efeitos.