Em debate no Vozes pela Democracia, representantes da FENAJ e da Repórteres Sem Fronteiras alertam para os riscos da desinformação impulsionada por inteligência artificial e defendem o fortalecimento do jornalismo nas eleições de 2026.

O avanço da desinformação impulsionada por inteligência artificial (IA), a fragilidade das respostas institucionais e o aumento dos ataques contra jornalistas foram apontados como alguns dos principais desafios para as eleições de 2026 no Brasil. Os temas foram debatidos por Samira Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), e Bia Barbosa, coordenadora de Advocacy para a América Latina da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), durante o programa Vozes pela Democracia da última sexta-feira (14).

Para Samira Castro, o contexto eleitoral reforça a centralidade do jornalismo profissional como instrumento de enfrentamento à desinformação. Segundo ela, em um ambiente dominado por plataformas digitais sem regulação adequada e marcado pela circulação de conteúdos manipulados, a atividade jornalística se diferencia pelo compromisso com a apuração, a checagem, a contextualização e a correção de erros.

“O papel do jornalismo é qualificar o debate público e fazer com que a população tenha condições de escolher entre projetos. Isso só é possível com um jornalismo sério, comprometido com seu papel social”, afirmou.

Samira Castro

A dirigente da FENAJ destacou que a comunicação sempre foi um campo de disputa política e ideológica, mas que essa disputa se torna mais evidente nos períodos eleitorais. Nesse cenário, observou, cresce a responsabilidade dos profissionais de imprensa diante da influência das plataformas digitais sobre a formação da opinião pública.

Bia Barbosa ressaltou que a defesa do jornalismo está diretamente ligada à garantia do direito da sociedade à informação. Segundo ela, em períodos eleitorais, esse direito torna-se ainda mais fundamental para que eleitoras e eleitores possam formar opiniões de maneira consciente e informada.

A representante da RSF chamou atenção para os impactos da inteligência artificial no ambiente informacional. Além de facilitar a produção em larga escala de imagens, vídeos e áudios sintéticos, a tecnologia também está presente nos sistemas algorítmicos que definem quais conteúdos chegam ao público por meio das redes sociais.

“A inteligência artificial não está apenas produzindo desinformação. Ela também influencia a forma como recebemos informação”, observou.

Bia Barbosa

Desinformação em escala industrial

Durante o debate, Samira relatou ter encontrado, ao acessar a rede social X, uma grande quantidade de conteúdos falsos em respostas às publicações de uma candidata. Para ela, o problema ultrapassa iniciativas isoladas e ocorre de forma organizada.

“Isso tem objetivo, tem método e tem financiamento para desinformação”, afirmou.

A presidenta da FENAJ avaliou que a velocidade e a escala da produção de conteúdos enganosos dificultam a atuação dos órgãos de fiscalização. Na sua avaliação, tanto o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quanto os Ministérios Públicos atuam de forma reativa diante de um fenômeno que se expande continuamente pelas plataformas digitais.

Ela também defendeu a atualização da legislação eleitoral para enfrentar os desafios impostos pela comunicação digital. Segundo Samira, as normas atuais ainda estão estruturadas para coibir práticas tradicionais de propaganda irregular, sem considerar plenamente a dinâmica das redes sociais.

Papel dos eleitores e das instituições

Para Bia Barbosa, o enfrentamento à desinformação exige não apenas ações institucionais, mas também maior responsabilidade dos próprios cidadãos. Ela criticou a lentidão de decisões da Justiça Eleitoral em casos envolvendo o uso de inteligência artificial durante a pré-campanha e alertou para os riscos da falta de respostas rápidas diante de violações já previstas nas normas eleitorais.

A jornalista lembrou que a legislação prevê responsabilização para quem produz e compartilha conteúdos gerados por inteligência artificial sem a devida identificação, inclusive no contexto eleitoral.

“Temos que checar as informações cada vez mais. Buscar fontes confiáveis e verificar se aquele conteúdo foi publicado por veículos de credibilidade antes de compartilhá-lo”, afirmou.

Segundo ela, fortalecer o jornalismo profissional e combater campanhas de descrédito contra a imprensa são medidas essenciais para preservar a qualidade do debate público. “Quando a sociedade não sabe mais em quem acreditar, as decisões deixam de ser baseadas em fatos e passam a ser tomadas a partir de opiniões e achismos”, alertou.

Monitoramento de ataques a jornalistas

Ao final do programa, Bia Barbosa anunciou uma iniciativa conjunta da RSF, da FENAJ e de outras organizações integrantes da Coalizão em Defesa do Jornalismo para monitorar ataques digitais e presenciais contra jornalistas e comunicadores durante todo o período eleitoral.

Os dados serão divulgados ao longo da campanha pelas entidades participantes, com o objetivo de dar visibilidade às agressões e pressionar por medidas mais efetivas de proteção aos profissionais da comunicação.

Samira Castro reforçou que a defesa do direito à informação passa também pela valorização da categoria. “Não existe um jornalismo capaz de dar conta das necessidades de informação da população se os jornalistas não forem bem remunerados e respeitados em seus direitos”, afirmou.

Para as duas convidadas, a defesa da democracia nas eleições passa necessariamente pelo fortalecimento do jornalismo profissional, pela proteção de comunicadores e pelo enfrentamento à desinformação em todas as suas formas.

Assista o programa na íntegra