Em participação no Vozes pela Democraica, o presidente do INIADS Brasil destacou que empresas como Meta, Google, Amazon e Microsoft possuem interesses próprios e são capazes de influenciar o alcance de conteúdos políticos.
O uso da inteligência artificial, o poder das plataformas digitais e a necessidade de regulamentação das big techs estiveram no centro do debate da edição 118 do programa Vozes pela Democracia. O entrevistado foi José Vital, publicitário, pesquisador, comunicador estrategista, presidente do Instituto Nacional por Inteligência Artificial com Direitos Sociais (INIADS Brasil) e integrante da Coordenação Brasil da Frente por IA com Direitos Sociais.
Durante a conversa com o apresentador Sousa Jr., Vital alertou para os riscos da utilização da inteligência artificial no processo eleitoral e para a influência que as grandes plataformas digitais exercem sobre a circulação de informações e a formação da opinião pública.
O debate começou a partir do uso de uma imagem e voz geradas por inteligência artificial de Jair Bolsonaro em uma convenção eleitoral de seu filho, Flávio Bolsonaro. Para José Vital, a questão exige atenção das autoridades eleitorais, especialmente diante da capacidade da IA de produzir conteúdos que simulam pessoas reais.
“A inteligência artificial permite literalmente falsificar realidades. O grande problema é que a velocidade da evolução tecnológica é muito maior do que a velocidade das decisões sociais, políticas e institucionais”, afirmou.
Segundo ele, mesmo havendo restrições ao uso de recursos de IA em campanhas eleitorais, a demora das instituições em responder a casos concretos pode abrir espaço para uma escalada de práticas que comprometam a integridade do processo democrático.
Algoritmos e disputa política
Além do uso direto da IA em campanhas, José Vital destacou o papel dos algoritmos das plataformas digitais. Para ele, empresas como Meta, Google, Amazon e Microsoft possuem interesses próprios e são capazes de influenciar o alcance de conteúdos políticos.
“As redes sociais se tornaram um espaço central de disputa. Quando os algoritmos restringem determinadas mensagens e potencializam outras, eles entram em choque com a própria democracia, que pressupõe a livre circulação de ideias e a possibilidade de diálogo com a população”.
José Vital
Sousa Jr. ressaltou que a concentração de poder comunicacional se tornou ainda mais complexa com a ascensão das plataformas digitais. Se antes o debate sobre democratização da comunicação estava centrado na concentração da propriedade dos meios de radiodifusão, hoje soma-se a esse cenário a hegemonia de conglomerados tecnológicos globais.
Regulamentar para proteger direitos
Ao longo da entrevista, Vital defendeu a necessidade de regulação das redes sociais, da inteligência artificial e dos data centers que vêm sendo instalados em diferentes estados brasileiros.
Ele ressaltou que o debate precisa envolver o Congresso Nacional, os governos, universidades e a sociedade civil organizada, uma vez que as decisões tomadas hoje terão impacto direto sobre a soberania digital do país.
“No caso dos data centers, precisamos discutir os impactos ambientais, o consumo de água e energia, os benefícios fiscais concedidos e os retornos efetivos para as comunidades. Não podemos aceitar que projetos bilionários avancem sem regras claras e sem contrapartidas sociais”, afirmou.
O ativista avalia que as grandes empresas de tecnologia resistem a processos regulatórios porque pretendem manter liberdade total de operação. Por isso, considera fundamental eleger representantes comprometidos com o interesse público e com a construção de marcos regulatórios capazes de proteger a sociedade.
Tecnologia a serviço da redução das desigualdades
José Vital também destacou que a defesa da regulamentação não significa oposição ao desenvolvimento tecnológico. Segundo ele, a Frente por IA com Direitos Sociais defende uma tecnologia voltada para a promoção de direitos, redução das desigualdades e melhoria das condições de vida da população.
“Nós queremos a tecnologia. Mas queremos uma tecnologia que ajude a reduzir desigualdades sociais, melhorar as condições de trabalho e ampliar a qualidade de vida das pessoas”.
José Vital
Nesse sentido, ele informou que a Frente por IA com Direitos Sociais vem ampliando sua articulação nacional e já possui coordenações organizadas em estados como Ceará, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Distrito Federal. A próxima plenária estadual, anunciou, será realizada em Minas Gerais.
Eleições e soberania digital
Na avaliação dos participantes do programa, as eleições deste ano terão papel decisivo na definição de políticas relacionadas à regulação das plataformas digitais, da inteligência artificial e da infraestrutura tecnológica do país.
Para José Vital, a sociedade precisa acompanhar atentamente as posições dos candidatos e candidatas aos cargos legislativos e executivos, já que o futuro das políticas públicas ligadas à comunicação, à tecnologia e aos direitos digitais dependerá das decisões tomadas pelos próximos representantes eleitos.
“O futuro está em jogo. Precisamos de representantes que tenham coragem de enfrentar os interesses das grandes corporações e defender uma visão de sociedade comprometida com a democracia, os direitos sociais e a soberania nacional”, concluiu.





