Levantamento da FENAJ e Fundacentro aponta altos índices de depressão, estresse, insônia, assédio moral e violência digital entre jornalistas brasileiros, reforçando a urgência de políticas de proteção à saúde mental e melhores condições de trabalho.
A saúde mental de jornalistas brasileiros acendeu um alerta vermelho. Pesquisa inédita realizada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) em parceria com a Fundacentro revelou que 50,2% dos profissionais apresentam sintomas de depressão, enquanto 47,8% relatam sintomas de estresse e 47,9% convivem com sinais de insônia. Os dados fazem parte do relatório técnico “Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil”, elaborado a partir de respostas de 257 jornalistas de diferentes regiões do país.
O estudo também traz evidências preocupantes sobre o ambiente de trabalho da categoria. Segundo o levantamento, 37% dos participantes relataram ter sofrido assédio moral no trabalho, índice que permanece em 26,1% mesmo sob critérios mais restritivos de aferição. Além disso, 30,4% afirmaram ter sido vítimas de cyberbullying, demonstrando que a violência contra jornalistas também se intensifica nos ambientes digitais.
Outro dado que chama atenção é a sobrecarga profissional. Mais da metade dos entrevistados trabalha entre 40 e 60 horas por semana, enquanto 28% estão inseridos em situações classificadas como de “alto desgaste”, caracterizadas por alta demanda psicológica e baixo controle sobre as atividades. O estudo aponta ainda que 61,1% percebem baixo apoio social no ambiente de trabalho.
Na apresentação do relatório, a presidenta da FENAJ, Samira de Castro, destaca que os resultados evidenciam “um cenário preocupante, marcado por altas taxas de estresse, ansiedade, depressão, insônia, assédio moral e violência digital”, além de um ambiente de trabalho caracterizado por “altas demandas, baixo controle sobre as atividades e insuficiente apoio social”. Para ela, esses fatores afetam não apenas a saúde dos profissionais, mas também a qualidade da informação produzida e o próprio direito da sociedade à informação.
Durante o lançamento da pesquisa, repercutido pela FENAJ e pela Agência Brasil, representantes da entidade ressaltaram que os dados reforçam a necessidade de incorporar a saúde mental como eixo central das negociações trabalhistas e das políticas de segurança e saúde no trabalho voltadas à categoria. A pesquisa também dialoga com os desafios impostos pela precarização do trabalho, pela intensificação das jornadas e pelo aumento dos ataques a jornalistas nas plataformas digitais.
O debate sobre os impactos das plataformas digitais na comunicação e no exercício profissional do jornalismo também esteve presente na reunião do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional desta segunda (14/9). Alexandre Arns Gonzales, membro da Diracom e integrante do observatório De Olho na Censura, alertou que as grandes plataformas exercem influência estrutural sobre o direito à comunicação e defendeu mecanismos de transparência nas práticas de moderação.
Segundo Arns, a censura contemporânea pode ocorrer por meio de ações que “impedem, restringem, silenciam, dificultam ou controlam a manifestação e circulação de informações”, produzindo efeitos sobre a democracia, a liberdade de expressão e o acesso da sociedade à informação. Gonzales também ressaltou a importância de garantir o devido processo, transparência e acesso a dados para pesquisadores, jornalistas e organizações da sociedade civil na fiscalização das plataformas digitais.
Para a FENAJ, os resultados da pesquisa devem servir de base para a construção de políticas públicas, ações sindicais e medidas institucionais capazes de enfrentar o adoecimento mental na categoria. O relatório conclui que a saúde mental dos jornalistas brasileiros é uma questão crítica e diretamente relacionada às condições de trabalho, exigindo ação conjunta de empregadores, entidades representativas e poder público para garantir ambientes mais seguros, saudáveis e democráticos.




