Ao diferenciar liberdade de expressão do exercício profissional do jornalismo, a jornalista Cristina Serra afirma que “informação salva vidas” e defende a qualificação da categoria.
A jornalista e escritora Cristina Serra fez uma distinção central para o debate sobre a volta da exigência do diploma de Jornalismo no Brasil: liberdade de expressão e exercício profissional do jornalismo são coisas diferentes. Segundo ela, defender a formação superior para jornalistas não significa restringir o direito de qualquer cidadão de se expressar, opinar ou produzir conteúdo.
“Uma coisa é opinião, isso é expressão. Outra coisa é o exercício diário, a atividade regular que o jornalista faz. Isso é profissão.”
Cristina Serra
Cristina participou, junto com o jornalista Thiago Tanji, do Vozes pela Democracia 121, que debateu o impacto da obrigatoriedade do diploma para jornalistas. Para Ela, o princípio constitucional da liberdade de expressão continua plenamente garantido. Especialistas poderão continuar escrevendo artigos para veículos de comunicação, assim como comunicadores populares e comunitários seguirão exercendo papel fundamental em seus territórios. O que está em discussão, segundo ela, é a necessidade de qualificação específica para quem exerce profissionalmente a atividade jornalística.
“Uma coisa é alguém que escreve ocasionalmente. Outra coisa é o jornalista, que exerce uma profissão”, destacou.
Jornalismo tem função social
Ao longo do debate, Cristina Serra ressaltou que o jornalismo não pode ser tratado como mera atividade técnica. Para ela, há uma tentativa recorrente de reduzir a profissão ao domínio de ferramentas de apuração e redação, desconsiderando sua dimensão social e democrática.
“É uma mentira, uma falácia, dizer que o jornalismo é apenas uma profissão técnica”, afirmou. Segundo a comunicadora, a atividade jornalística exerce enorme impacto na sociedade e desempenha papel decisivo na garantia do direito à informação.
Como exemplo, ela citou a atuação da imprensa durante a pandemia de covid-19, quando diversos veículos se articularam para assegurar a divulgação de dados confiáveis e combater a disseminação de informações falsas.
“Informação salva vidas”, resumiu.
A jornalista também destacou que o trabalho profissional envolve processos de apuração, checagem e verificação que diferenciam o jornalismo de opiniões e palpites disseminados nas redes sociais. Mesmo no jornalismo opinativo, observou, as análises precisam estar ancoradas em fatos reais e informações verificadas.
FENAJ: diploma valoriza a profissão
Representando a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e vice-presidente da entidade, Thiago Tanji, defendeu que a retomada da obrigatoriedade do diploma é uma medida necessária para valorizar o jornalismo e os profissionais da área.
Segundo ele, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que, em 2009, derrubou a exigência da formação específica para o exercício da profissão produziu efeitos negativos para a categoria e para a qualidade da informação.
Tanji argumentou que a liberdade de expressão, direito garantido a todos os cidadãos, não deve ser confundida com a atividade jornalística profissional.
“Hoje qualquer pessoa pode emitir opiniões nas redes sociais, comentar um filme, um jogo de futebol ou um fato do cotidiano. O que é muito diferente da informação jornalística”, afirmou.
Para ele, o jornalismo profissional exige formação técnica, ética e humanística, elementos desenvolvidos ao longo da graduação e fundamentais para a produção de conteúdos de interesse público.
Combate à desinformação
Outro ponto destacado pelos participantes foi o crescimento da desinformação em um cenário marcado pela expansão das plataformas digitais.
Na avaliação de Tanji, o volume gigantesco de informações disponível atualmente torna ainda mais necessária a atuação de profissionais capacitados para realizar mediação, contextualização e checagem dos fatos.
“O papel do jornalista é justamente ajudar a qualificar a informação”.
Thiago Tanji
Cristina Serra reforçou o argumento ao lembrar que a circulação de conteúdos falsos pode provocar consequências concretas para a vida das pessoas e para a própria democracia.
“Informação salva vidas, desinformação mata. Informação é fundamental para a democracia. Desinformação mata a democracia”, declarou.
Debate tem dimensão democrática
Durante o programa, Cristina Serra também contestou o argumento frequentemente utilizado contra a exigência do diploma, de que a regulamentação da profissão seria um “entulho autoritário” por ter sido instituída durante a ditadura militar.
A jornalista lembrou que diversas outras profissões também foram regulamentadas naquele período sem que suas normas fossem posteriormente questionadas. Além disso, destacou que, durante a Assembleia Nacional Constituinte, houve amplo debate sobre a regulamentação profissional e sobre a necessidade de qualificação para o exercício de determinadas atividades.
Ela citou ainda a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que restabelece a exigência do diploma para jornalistas. A proposta já foi aprovada pelo Senado e aguarda votação na Câmara dos Deputados.
Para os participantes do Vozes pela Democracia, a discussão vai além dos interesses corporativos da categoria. Trata-se de um debate sobre a qualidade da informação, a valorização do trabalho jornalístico e o fortalecimento da democracia brasileira em um ambiente cada vez mais marcado pela desinformação e pela disputa de narrativas.
Ao encerrar sua participação, Cristina Serra sintetizou o significado da discussão com uma frase que marcou o programa:
“Informação salva vidas, desinformação mata.”




