Jornalista e educomunicadora da Cáritas Brasil destaca o papel dos movimentos sociais na formação crítica da população, na disputa de narrativas e no combate às fake news a partir das comunidades.
A desinformação não é um fenômeno novo, mas ganhou escala inédita com o poder das plataformas digitais e das grandes empresas de tecnologia. Para enfrentar esse cenário, é preciso fortalecer a comunicação popular nos territórios, investir em educação midiática e dialogar diretamente com a população. Essa foi a avaliação da jornalista, repórter, educomunicadora e editora audiovisual Clara Glock, assessora de comunicação da Cáritas Brasil, durante participação no programa Vozes pela Democracia, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).
Ao abordar o tema “Os movimentos sociais contra a desinformação”, Clara ressaltou que a chamada educomunicação tem raízes na educação popular de Paulo Freire e nas contribuições do comunicador uruguaio Mario Kaplún, associando comunicação, diálogo e produção coletiva de conhecimento.
“A educomunicação não é só comunicação, nem educação pela educação. É uma educação popular, com base na ética, no diálogo e na informação e conhecimento a partir dos saberes das populações nos territórios”.
Clara Glock
Para a jornalista, a desinformação sempre esteve presente na sociedade, mas atualmente está associada ao enorme poder político e econômico das plataformas digitais globais. Segundo ela, compreender quem controla os meios de comunicação é um passo fundamental para enfrentar a manipulação informacional.
“Quando a gente faz oficinas de educomunicação, a primeira pergunta é: quem são os donos da mídia? As big techs, essas grandes empresas que todo mundo usa no dia a dia, estão muito ligadas a essa questão da desinformação.”
Comunicação popular frente às emergências climáticas
Durante a entrevista, Clara apresentou experiências desenvolvidas pela Cáritas no Rio Grande do Sul após as enchentes que atingiram o estado em 2024. Ela destacou o projeto “Cáritas nas Emergências: comunidades mobilizadas no enfrentamento às mudanças climáticas”, que atuou diretamente junto às populações afetadas.
A iniciativa combinou ações emergenciais, incidência política, apoio psicossocial e processos de comunicação comunitária. Um dos resultados foi a construção de um dicionário popular com termos relacionados à prevenção de desastres, elaborado a partir da realidade vivida pelas comunidades.
Segundo Clara, a experiência demonstrou a importância de traduzir temas técnicos para uma linguagem acessível e conectada ao cotidiano das pessoas. “Informar é também fazer com que as comunidades consigam entender do que a gente está falando e participem ativamente disso.”
Ela argumentou que as mudanças climáticas, a disputa por informações e os processos eleitorais estão diretamente conectados, uma vez que as decisões políticas influenciam questões ambientais e sociais centrais para a vida das populações.
Sair das bolhas e dialogar com afeto
Ao comentar o cenário eleitoral e o avanço da desinformação, Clara defendeu que movimentos sociais, organizações populares e cidadãos fortaleçam o diálogo cotidiano com seus círculos de convivência. Para ela, mais do que confrontar ou hostilizar quem pensa diferente, é necessário construir pontes de conversa e estimular reflexões sobre direitos sociais e democracia. “Esse não é o momento para a gente acusar. Esse é um momento para conversar com as pessoas e mostrar do que elas já usufruem por viverem numa democracia.”
A educomunicadora também alertou para o papel dos algoritmos na circulação de conteúdos e destacou a importância de compartilhar informações de qualidade, acessíveis e produzidas em linguagem popular. “Hoje vale muito mais a gente sair das nossas bolhas e conversar com as pessoas no dia a dia.”
Comunicação como direito e participação
Na avaliação da representante da Cáritas, o combate à desinformação exige presença permanente nos territórios, fortalecimento da comunicação comunitária e valorização dos saberes populares. Ela defendeu que espaços como associações comunitárias, escolas, pontos de cultura, coletivos juvenis, grupos de rap e slam podem ser fundamentais para reconstruir laços sociais e promover formação crítica.
Ao final da entrevista, Clara reforçou a importância do voto consciente e da participação cidadã como instrumentos para a defesa e ampliação de direitos. “Quando a gente está falando de meio ambiente, a gente também está falando de eleição e de voto potente. Nosso voto é potente.”
O programa Vozes pela Democracia é uma produção do FNDC dedicada ao debate sobre cidadania, direito à comunicação e fortalecimento da democracia no Brasil.


