O jornalista James Görgen defende que a soberania nacional no ambiente digital exige controle sobre dados, infraestrutura tecnológica, minerais estratégicos e capacidade própria de desenvolvimento de plataformas.
A soberania nacional não depende mais apenas do controle sobre recursos naturais ou da capacidade produtiva de um país. No ambiente digital, ela passa também pelo domínio da infraestrutura tecnológica, dos dados, dos serviços de nuvem, dos data centers e das plataformas que organizam a circulação de informações. Essa foi a principal reflexão apresentada pelo jornalista e pesquisador James Görgen ao discutir os desafios da soberania digital brasileira.
O tema foi debatido na edição 128 do programa Vozes pela Democracia (30/10), do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), intitulada “Democracia em rede, soberania em disputa”. Servidor público federal, jornalista e mestre em Economia Política da Comunicação, Görgen acompanha a agenda digital desde a década de 1990 e é autor do livro Notas da Floresta Digital.
Durante a entrevista ao radialista Sousa Jr., o pesquisador argumentou que o debate público sobre o poder das big techs costuma se restringir à regulação de plataformas como Meta, Google e outras empresas globais de tecnologia. Para ele, embora a regulação seja necessária, ela não resolve sozinha o problema da dependência tecnológica.
Segundo Görgen, as grandes empresas digitais deixaram de atuar apenas na chamada camada de conteúdo da internet, formada por buscadores, redes sociais e aplicativos. A partir da década de 2010, elas passaram a investir fortemente na infraestrutura da rede, ampliando seu controle sobre cabos submarinos, serviços de nuvem, data centers e fluxos globais de dados.
Esse movimento, afirma, ocorreu por muitos anos sem mecanismos efetivos de controle por parte dos governos nacionais, especialmente dos países do Sul Global.
Poder econômico e influência política
Outro ponto central da análise foi o impacto das plataformas digitais sobre os processos democráticos. Na avaliação de Görgen, as big techs acumularam não apenas poder econômico, mas também capacidade de influenciar agendas políticas, eleições e o fluxo de informações nas democracias contemporâneas.
Ele destacou que a combinação entre algoritmos, sistemas de moderação de conteúdo e ferramentas de inteligência artificial tornou ainda mais relevante o debate sobre transparência, responsabilidade das plataformas e governança digital.
Para o pesquisador, o enfrentamento desse cenário exige tanto medidas regulatórias quanto uma estratégia nacional voltada ao fortalecimento da soberania tecnológica.
Dados e minerais estratégicos
A entrevista também abordou o papel estratégico dos dados e dos minerais críticos na economia digital. Görgen comparou a importância atual desses recursos à centralidade que o petróleo teve ao longo do século 20. O Brasil, observou, ocupa posição de destaque no mercado digital global, figurando entre os maiores usuários de redes sociais, plataformas de streaming e serviços digitais. Esse volume expressivo de usuários gera uma enorme quantidade de dados, que atualmente são processados e monetizados, em grande medida, por empresas estrangeiras.
Ao mesmo tempo, o país possui importantes reservas de minerais estratégicos, incluindo terras raras fundamentais para a fabricação de semicondutores, baterias, equipamentos eletrônicos e outras tecnologias de ponta. Na avaliação do entrevistado, a soberania digital passa tanto pela capacidade de agregar valor a esses minerais quanto pela criação de políticas que permitam ao país armazenar, processar e utilizar seus próprios dados.
Política industrial para o digital
Entre as propostas apresentadas, Görgen defendeu a construção de uma política industrial voltada especificamente para o setor digital.
Segundo ele, o Brasil dispõe de conhecimento técnico, universidades, centros de pesquisa e profissionais qualificados para desenvolver soluções tecnológicas próprias. O desafio estaria em organizar uma estratégia nacional capaz de estimular investimentos, inovação e produção local.
O pesquisador citou ainda experiências internacionais, como as da China e da Rússia, que desenvolveram ecossistemas digitais próprios em diferentes áreas. Para ele, o Brasil também possui condições de criar plataformas nacionais e reduzir sua dependência das grandes corporações estrangeiras.
Ministério e fundo para a soberania digital
Como parte dessa estratégia, Görgen defendeu a criação de um Ministério de Assuntos Digitais, capaz de integrar políticas atualmente dispersas entre diferentes órgãos do governo federal.
A proposta envolve reunir, em uma mesma estrutura, temas relacionados à infraestrutura digital, inteligência artificial, semicondutores, proteção de dados, plataformas digitais e soberania tecnológica.
O entrevistado também sugeriu a criação de um Fundo Nacional para a Soberania Digital, destinado a financiar projetos estratégicos para o desenvolvimento da infraestrutura e das capacidades tecnológicas brasileiras.
Comunicação, democracia e disputa de narrativas
Ao longo da conversa, o programa também destacou o papel crescente das redes digitais na disputa política e na circulação de informações, avaliando que as eleições recentes evidenciaram a necessidade de uma presença mais organizada dos setores progressistas nas plataformas.
Nesse contexto, o debate ressaltou o fortalecimento de iniciativas de comunicação alternativa e independente, bem como a ampliação do debate sobre políticas públicas voltadas ao ambiente digital.
Ao final do programa, Görgen destacou que a luta histórica pela democratização da comunicação passou a incorporar novos desafios. Além da tradicional disputa em torno da radiodifusão e dos meios de comunicação de massa, a agenda contemporânea envolve temas como algoritmos, inteligência artificial, infraestrutura de internet, dados, plataformas digitais e soberania tecnológica.
Para ele, a construção de uma estratégia nacional para o setor digital será uma das tarefas centrais do Brasil nos próximos anos.
A soberania digital na agenda do FNDC
As propostas apresentadas por James Görgen dialogam diretamente com diretrizes já defendidas pelo FNDC. A Plataforma Política 20 Pontos para uma Comunicação Democrática, aprovada pela entidade para mobilizar candidaturas durante a eleição deste ano, propõe investimentos em soberania tecnológica, desenvolvimento de aplicações nacionais, fortalecimento da infraestrutura digital pública e regulação democrática das plataformas digitais. Nesse sentido, as ideias debatidas no programa reforçam a necessidade de ampliar a agenda histórica da democratização da comunicação para temas como inteligência artificial, dados, algoritmos e autonomia tecnológica do país.




