Para Thiago Guimarães, o termo contribui para apagar distinções entre formatos, linguagens e contextos, como, por exemplo, produções jornalísticas e publicações informais nas redes sociais
O roteirista, videomaker e criador do canal @oratiago no YouTube, Thiago Guimarães, propôs uma reflexão crítica sobre o termo “criador de conteúdo” e sua relação com o funcionamento das plataformas digitais e da inteligência artificial (IA). Ele foi um dos convidados da mesa de abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo neste sábado (20/6): “Jornalismo e Inteligência Artificial: Um avanço à soberania ou da precarização do trabalho?”.
Ao iniciar sua fala, Thiago afirmou que optou por se apresentar como “criador de conteúdo” de forma intencional, justamente para problematizar o conceito. Segundo ele, a noção de “conteúdo” é ideologicamente carregada e mascara diferenças fundamentais entre distintos tipos de produção audiovisual.
“Quando a gente fala em conteúdo, está colocando um monte de coisa no mesmo saco”, afirmou. Para o criador, o termo contribui para apagar distinções entre formatos, linguagens e contextos — como, por exemplo, produções jornalísticas e publicações informais nas redes sociais.
Thiago resgatou a origem do uso contemporâneo do termo, atribuindo sua popularização a uma fala de Bill Gates, em 1996, que definiu o conteúdo como o principal ativo econômico da internet. A partir dessa perspectiva, ele argumentou que a rede passou a ser tratada como um “depósito” de materiais a serem armazenados e distribuídos, orientado por lógicas de mercado.
Segundo ele, essa lógica se articula com a transformação de serviços tradicionais em modelos digitais que, em muitos casos, implicam precarização do trabalho. Ele citou como exemplo a substituição de serviços regulados por versões mais flexíveis e menos protegidas, fenômeno que também se reflete na comunicação e no audiovisual.
Para Thiago, o conceito de “conteúdo” atende aos interesses de grandes empresas de mídia e tecnologia, que operam como oligopólios globais. Nesse modelo, diferentes produções são tratadas de forma homogênea porque todas se tornam ativos econômicos explorados por essas plataformas.
“O Spotify, por exemplo, não vive apenas de assinaturas, mas de um sistema complexo que envolve a extração e comercialização de dados”, afirmou, ao destacar que o modelo de negócios dessas empresas está profundamente ligado ao uso de informações dos usuários e dos próprios criadores.
O criador também abordou o processo de convergência entre internet e radiodifusão, apontando que formatos considerados “novos”, como podcasts e streaming, muitas vezes reproduzem estruturas tradicionais da televisão e do rádio, porém fora dos marcos regulatórios existentes.
Canais de TV que operam sem obrigações legais
Segundo ele, plataformas de streaming funcionam, na prática, como canais de TV, mas operam sem as mesmas obrigações legais, incluindo regras sobre publicidade e proteção de direitos trabalhistas. Essa ausência de regulação, afirmou, contribui para um cenário de fragilização das condições de trabalho no setor audiovisual.
Thiago relacionou diretamente esse contexto ao avanço da inteligência artificial. Para ele, as grandes plataformas tecnológicas – responsáveis pela disseminação de conteúdos digitais – também são agentes centrais no desenvolvimento das ferramentas de IA, baseadas na coleta e processamento de dados.
Nesse cenário, profissionais do audiovisual passam a depender dessas plataformas para exercer sua atividade, muitas vezes aceitando condições que não garantem controle sobre o uso de suas próprias produções. Ele alertou para o risco de que esses dados sejam utilizados para treinar sistemas de IA que podem, futuramente, substituir o trabalho humano.
Diante disso, o criador criticou a forma como os debates sobre tecnologia, comunicação e regulação têm sido conduzidos de maneira fragmentada. Para ele, é necessário adotar uma abordagem interdisciplinar que articule diferentes setores. “Não dá para deixar a discussão de IA só com quem é da tecnologia ou a discussão de streaming só com o audiovisual”, afirmou, defendendo que essas transformações impactam a sociedade como um todo.
Tecnologias de produção de sentido
Por fim, Thiago destacou que a inteligência artificial não deve ser tratada apenas como uma ferramenta neutra, comparável a um instrumento técnico simples. Para ele, essas tecnologias devem ser compreendidas como dispositivos de produção de sentido e de ideologia, inseridos em estruturas de poder e interesses econômicos. “A gente precisa parar de olhar para a IA como uma mera ferramenta e entender que ela também produz ideologia”, concluiu.





