A última convidada a falar sobre “Soberania Digital e Democratização da Comunicação” na Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação, em São Paulo-SP, foi a antropóloga Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela afirmou que o debate sobre soberania digital ultrapassa o campo técnico e assume um caráter “existencial” diante do cenário atual de concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia. A atividade foi realizada no último sábado (20/6), no campus Consolação da PUC-SP.

Letícia fez uma análise baseada em sua pesquisa sobre fenômenos tecnopolíticos, definidos por ela como processos que emergem da “recursividade entre humanos e máquinas”. Segundo a pesquisadora, esses fenômenos não pertencem exclusivamente ao campo social nem ao campo técnico, mas se constituem justamente na interação entre ambos, especialmente nas plataformas digitais contemporâneas.

Medo como motor político e tecnológico

A antropóloga destacou que, ao longo de mais de uma década de estudos sobre desinformação, teoria da conspiração e radicalização, identificou o medo como o principal afeto mobilizador nesses processos. “O afeto do ódio é secundário ao afeto do medo”, afirmou. Para Letícia, o comportamento agressivo observado em ambientes digitais pode ser entendido como a reação de um “animal acuado”, que intensifica sua postura defensiva.

Ela afirmou que essa lógica também pode ser observada na própria indústria tecnológica, especialmente nos Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, o comportamento recente das empresas do Vale do Silício indica uma reação diante de ameaças percebidas à sua hegemonia. Eu tô aqui, entre outras coisas, para botar um pouco de medo em vocês”, brincou.

Crítica à inteligência artificial generativa

A antropóloga adotou um tom particularmente crítico em relação às ferramentas de inteligência artificial generativa de uso geral, diferenciando-as de aplicações mais específicas e controladas. Segundo ela, tecnologias desse tipo, associadas a grandes empresas e lideranças do setor, devem ser analisadas a partir dos sujeitos que as controlam. Ao mencionar nomes como Sam Altman (OpenAI), Peter Thiel e Mark Zuckerberg, a antropóloga afirmou que essas tecnologias estão sob comando de “pessoas muito perigosas”, que caracterizou como “literais sociopatas”.

Modelo de negócio e dependência tecnológica

A pesquisadora também chamou atenção para a ausência de um modelo de negócio consolidado para a inteligência artificial generativa, apontando que o setor opera em uma lógica de expansão acelerada ainda sem sustentabilidade definida. Entre as hipóteses em circulação, citou a possibilidade de que essas tecnologias passem a ser oferecidas como serviços pagos recorrentes, comparáveis a água ou energia elétrica.

Segundo Letícia, esse cenário implicaria a substituição gradual de tarefas básicas, como escrita e raciocínio lógico, por sistemas automatizados, criando novas formas de dependência tecnológica.

Para além da regulação

Embora tenha reconhecido a importância da regulação de plataformas, ela avaliou que essa abordagem já não é suficiente diante da conjuntura atual. Para ela, o debate sobre soberania digital deve ser ampliado para além da legislação, diante do que classificou como uma disputa estrutural envolvendo o futuro das próprias democracias.

“A frente de soberania digital é existencial”.

Disputa geopolítica e futuro “pós-democrático”

Letícia relacionou esse cenário à disputa crescente entre Estados Unidos e China no campo tecnológico. Segundo ela, essa concorrência tornou-se uma questão “existencial” para empresas e atores ligados à hegemonia estadunidense. Esse contexto, lembra, tem impulsionado discursos e projetos que vislumbram formas de organização social alternativas ao estado democrático. Ela citou, por exemplo, ideias associadas a correntes neorreacionárias, que projetam modelos de soberania “privada, neofeudal e de base tecnológica”.

Crise, colapso e possibilidade de ruptura

Apesar do diagnóstico crítico, a antropóloga também apontou a possibilidade de que o cenário de crise abra brechas para alternativas. Segundo ela, setores progressistas vivem um momento de “melancolia” política e podem subestimar o potencial de transformação de contextos de colapso. “O colapso pode trabalhar a nosso favor. O colapso das big techs, e não da democracia”, afirmou, ao sugerir que fissuras na hegemonia tecnológica atual podem criar oportunidades para construção de novos modelos.

Alternativas concretas e ação política

Ao final, a antropóloga enfatizou que a construção de soberania digital exige mais do que formulações teóricas ou propostas abstratas. Segundo ela, trata-se de uma disputa material, que envolve infraestrutura, desenvolvimento tecnológico e formação de quadros técnicos. “A imaginação tecnológica alternativa é concreta”, afirmou.

Letícia defendeu que movimentos sociais e atores políticos devem atuar simultaneamente em diferentes frentes, incluindo incidência institucional e construção prática de alternativa, sem depender exclusivamente de governos. “A gente não pode ficar parado esperando cair do céu”, afirmou.

Para a pesquisadora, o desafio central é garantir que, diante de eventuais rupturas no modelo atual, existam alternativas organizadas e escaláveis. Caso contrário, alertou, novas formas de concentração de poder podem emergir, como já ocorreu em crises anteriores no setor digital.