A partir da trajetória do sindicalismo petroleiro no Norte Fluminense, secretário de Comunicação do FNDC relacionou a soberania digital a disputas mais amplas, como energia e controle de recursos estratégicos
O petroleiro e coordenador de Comunicação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Tadeu Porto, afirmou que o debate sobre soberania digital precisa ser conectado à experiência concreta dos trabalhadores e à organização sindical, destacando o papel da criatividade em um cenário de mudanças estruturais.
Tadeu mediou a mesa “Soberania Digital e Democratização da Comunicação”, que também deu título à Plenária do FNDC/Frentex-SP, realizada dentro da programação da Caravana do FNDC Pelo Direito à Comunicação no sábado (20/6), em São Paulo. A partir da trajetória do sindicalismo petroleiro no Norte Fluminense, ele relacionou a soberania digital a disputas mais amplas, como energia e controle de recursos estratégicos.
“Soberania tem muito a ver com petróleo também, com energia”.
Do sindicato tradicional à ocupação digital
Ao recuperar a história do sindicato petroleiro, fundado nos anos 1980 em um momento de fortalecimento do sindicalismo combativo, Tadeu destacou a prática de “greve por ocupação” como uma marca da categoria.
Segundo ele, diferentemente da paralisação tradicional, essa forma de greve consiste em ocupar os locais de trabalho e assumir o controle da operação. “A máquina é nossa”, resumiu, ao explicar a lógica das mobilizações em que trabalhadores interferem diretamente na produção.
Tadeu citou exemplos de greves em que a categoria chegou a controlar o ritmo de produção de petróleo e até o fluxo de gás nas plataformas, evidenciando o poder estratégico dos trabalhadores no setor.
A experiência de 2020: ocupação virtual
O sindicalista destacou, no entanto, a necessidade de adaptação dessas práticas diante das transformações tecnológicas. Em 2020, durante uma greve da categoria, o movimento adotou uma estratégia diferente: uma “ocupação digital”. A iniciativa consistiu na instalação de uma base dentro de uma sala da Petrobras, de onde os trabalhadores passaram a produzir conteúdo continuamente, alimentando redes sociais, participando de transmissões ao vivo e ampliando a visibilidade do movimento.
“A gente ia ficar três dias, ficamos 20”, afirmou. Durante esse período, os petroleiros permaneceram no local produzindo vídeos, articulando redes de apoio e inserindo a greve no debate público. A estratégia resultou em ampla repercussão, com presença na imprensa tradicional e em canais digitais. “Nós fomos trending topics, tivemos apoio na mídia alternativa e na imprensa”, relatou.
Do corpo físico ao alcance digital
Tadeu destacou que a experiência revelou uma mudança importante na lógica das mobilizações. Se antes a força da ocupação era medida pela presença física, no ambiente digital essa lógica se amplia. “Não são 60 pessoas, podem ser milhões”, afirmou, ao explicar que a circulação de conteúdos permite ampliar o alcance das ações para além do espaço físico.
Segundo ele, o ambiente digital altera a relação entre tempo e espaço na disputa política, permitindo novas formas de mobilização e organização.
Criatividade e organização em tempos de ruptura
Ao relacionar essa experiência ao contexto atual, o secretário de Comunicação do FNDC afirmou que o momento é de “ruptura” e exige criatividade dos movimentos sociais. “Se tem alguma coisa nova vindo, quem gosta de criatividade exerce criatividade”, afirmou.
Para ele, embora a regulação e as políticas públicas sejam importantes, a transformação também depende da organização dos trabalhadores, incluindo novos segmentos, como programadores e influenciadores digitais.
O sindicalista destacou, inclusive, a ausência de organização formal desses trabalhadores e defendeu a criação de estruturas de proteção, como sindicatos e direitos básicos. “Deveriam estar exigindo plano de saúde e previdência”, afirmou.
Greve, direitos e valor do trabalho
Tadeu também reforçou a importância da greve como instrumento de luta, apesar dos riscos e pressões institucionais. Ele citou a aplicação de multas milionárias contra o sindicato em mobilizações recentes como exemplo das dificuldades enfrentadas.
Ainda assim, defendeu que o trabalho continua sendo o elemento central da geração de valor, inclusive em contextos altamente tecnologizados. “O átomo não gera valor, o que gera valor é o trabalho”, afirmou. Ao final, avaliou que, apesar dos desafios, os trabalhadores estão bem posicionados na disputa em curso.
Para Tadeu, a combinação entre organização sindical, criatividade e apropriação das ferramentas digitais pode abrir caminhos para enfrentar desigualdades estruturais e disputar o rumo das transformações tecnológicas.





