Coordenador de Tecnologia do MTST destaca que, sem a participação popular, a soberania tecnológica pode se consolidar para servir apenas à burguesia
O coordenador do núcleo de Tecnologia do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Felipe Magalhães Bonel, afirmou que a disputa pela tecnologia não pode ser tratada como um campo distante dos movimentos sociais e defendeu a construção de um projeto de “soberania digital popular” ancorado na organização de base.
Felipe participou da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo no último sábado (20/6) e foi o segundo a falar na mesa “Soberania Digital e Democratização da Comunicação”.Ao retomar sua trajetória no campus Consolação da PUC-SP, onde estudou por meio do FIES e participou da criação de um medialab voltado à democratização da comunicação a partir do movimento estudantil, Felipe trouxe o tema “soberania digital popular”, construído no âmbito
Origem na disputa política e nas limitações da esquerda
Ele explicou que o impulso inicial para a criação de um núcleo de tecnologia dentro de um movimento de luta por moradia surgiu após a eleição de 2018. Naquele momento, afirmou, havia a percepção de que o campo progressista estava em desvantagem na disputa pelos meios digitais, uma leitura que classificou como equivocada.
Para Felipe, essa visão desconsidera que, por trás dos algoritmos e das plataformas, existe trabalho humano. “Existe trabalho, intenção de trabalho da classe trabalhadora”, afirmou, ao defender que a disputa tecnológica também deve ocorrer no nível da organização dos trabalhadores.
Diante disso, o MTST passou a atuar em três frentes: formar sua base militante em tecnologia, politizar profissionais da área técnica e criar alternativas concretas capazes de disputar o uso e o desenvolvimento dessas ferramentas.
Tecnologia não neutra e disputa de interesses
Felipe reafirmou as falas que o antecederam sobre a tecnologia não ser neutra e responder a interesses específicos, localizados e organizados. Para ele, o desafio é deslocar esse poder para o campo popular.
Nesse sentido, citou formulações do próprio movimento, segundo as quais tecnologias emancipadoras não surgem de editais ou iniciativas isoladas, mas da organização coletiva. “Sem organização popular, não há direito digital que se sustente”, afirmou.
A noção de soberania digital popular, explicou, surge justamente da crítica a modelos de soberania que, embora robustos, operam em favor de interesses restritos. Ao mencionar o caso dos Estados Unidos, Felipe apontou que uma soberania tecnológica pode ser consolidada e, ainda assim, servir prioritariamente à burguesia nacional e à concentração de poder.
A proposta do movimento, segundo ele, é construir uma soberania enraizada nas bases sociais, voltada à auto-organização e à transformação estrutural a partir das periferias.
“A tecnologia emancipadora não nasce de editais, mas da luta social”.
Experiências práticas e “provas de conceito”
Para ilustrar a proposta, Felipe apresentou iniciativas desenvolvidas pelo MTST que buscam materializar esse conceito na prática. Entre elas, destacou a instalação de redes de Wi-Fi em cozinhas solidárias, o desenvolvimento de plataformas de trabalho mediadas por aplicativos e ações de letramento digital em territórios periféricos.
Segundo ele, essas experiências funcionam como “provas de conceito”, demonstrando que a democratização tecnológica não esbarra apenas em limites técnicos ou orçamentários, mas, principalmente, em vontade política.
“Com desenvolvedores pé no barro, a gente consegue executar essas soluções”, afirmou, ao defender que os próprios movimentos sociais têm capacidade de desenvolver e aplicar tecnologias voltadas às suas demandas.
Referências internacionais e limites estruturais
Durante a fala, Felipe também citou exemplos internacionais, como iniciativas de letramento digital na China, para ilustrar como políticas estruturadas podem articular organização social e uso tecnológico. Ao mesmo tempo, reconheceu que essas experiências estão inseridas em contextos políticos diferentes, o que exige adaptações à realidade brasileira.
Ele destacou que, no Brasil, a ausência de reformas estruturais, como mecanismos de controle social sobre os meios de comunicação, dificulta a construção de modelos semelhantes, especialmente diante do avanço de oligopólios tecnológicos.
Formação e protagonismo da base
Ao final, Felipe enfatizou que o caminho adotado pelo movimento passa pela formação política e técnica de sua base, em diálogo com outras organizações, como o MST e a Marcha Mundial das Mulheres. Segundo ele, a estratégia não é aguardar soluções institucionais, mas construir, desde já, capacidades concretas nos territórios. “A gente não vai esperar sentado, não vai esperar cair do céu”, afirmou.
Para o coordenador de Tecnologia do MTST, disputar a tecnologia é, ao mesmo tempo, disputar poder, e essa disputa só se sustenta com organização popular e protagonismo das periferias.





