Criação do Observatório Nacional de Violência contra Jornalistas e a adoção de um protocolo de investigação de crimes cometidos contra a imprensa são pontos positivos, mas governo Lula não tem ações para sequer minimizar a concentração do mercado de mídia
A notícia de que o Brasil ultrapassou os Estados Unidos no ranking mundial de liberdade de imprensa pela primeira vez foi bastante difundida pela imprensa brasileira nos últimos dias. O ranking, elaborado pela ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF), mostra que o Brasil cresceu 11 posições em relação a 2025 (em relação a 2022, crescemos 101 posições). Na América do Sul, ficou atrás apenas do Uruguai, que está na 48ª colocação. Mas o que esses números falam sobre a qualidade dessa liberdade de expressão?
Historicamente, o FNDC denuncia a concentração do mercado de mídia brasileiro como um dos pontos que demandam uma modernização e ampliação da regulação do setor. “Reconhecemos que a liberdade de imprensa é um princípio fundamental das democracias e nos alegramos pelo fato de nenhum jornalista ter sido assassinado no país em 2025, mas é nossa tarefa fazer a crítica nesse cenário de monopolização dos meios tradicionais, porque isso afeta a qualidade dessa liberdade de imprensa que preza muito mais por interesses empresariais e de classe do que pelo interesse público”, acredita Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC.
A RSF destaca que o governo Lula trouxe de volta uma normalização das relações entre órgãos estatais e a imprensa, marcadas por hostilidade permanente no mandato de Jair Bolsonaro, mas também que “um cenário midiático marcado pela alta concentração privada e o peso da desinformação representa desafios significativos para o avanço da liberdade de imprensa no país”.
A coordenadora-geral do FNDC afirma que apesar de ter havido avanços importantes nos últimos três anos, como a criação do Observatório Nacional de Violência contra Jornalistas e a adoção de um protocolo de investigação de crimes cometidos contra a imprensa, o governo Lula não tem fortalecido a comunicação pública e comunitária. “Como trabalhadoras e trabalhadores, reconhecemos medidas de proteção aos profissionais da imprensa. Como militantes pelo direito à comunicação, nos ressentimos da falta de medidas para sequer minimizar a concentração do mercado de informação no Brasil”, aponta.
Avanço do Brasil também é reflexo da deterioração da liberdade de imprensa no resto do mundo
Em entrevista à Agência Brasil, o jornalista Artur Romeu, diretor da RSF para América Latina, tratou o avanço do Brasil no ranking como “muito expressivo em um contexto em que a maioria dos países tem vivido um cenário de deterioração”. Mais de metade dos países do mundo (52,2%) estão em situação “difícil” ou “muito grave”. O pior cenário desde 2002, quando eram menos de 14%.
Para ele, o Brasil é um ponto fora da curva com evolução depois dos momentos de tensão durante o governo de Jair Bolsonaro, quando havia ataques diários contra jornalistas. “Um dos marcadores é um cenário de volta à normalidade, a uma relação institucional dentro de um ambiente democrático entre um governo e a imprensa”, afirmou Romeu.





