Organização defende que a comunicação não deve ser exclusividade de especialistas e todas as militantes devem ser capazes de produzir e difundir suas próprias narrativas

A comunicação deve ser compreendida como parte central da organização política e não apenas como instrumento de divulgação. Essa foi uma das principais ideias defendidas por Bianca Pessoa, jornalista e militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), durante a mesa de abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo neste sábado (20/6).

A mesa debateu o tema “Jornalismo e Inteligência Artificial: um avanço à soberania ou da precarização do trabalho?”. Falando a partir da experiência do movimento feminista popular, Bianca destacou que a Marcha Mundial das Mulheres acumula um longo processo de reflexão sobre o papel da comunicação “dentre desse sistema de múltiplas opressões:  patriarcal, racista e capitalista”.

Comunicação como fator organizativo

Segundo Bianca, essa reflexão ganhou força a partir de uma ação internacional realizada pela Marcha em 2010, na República Democrática do Congo, quando ficou evidente a dificuldade de acesso das mulheres à comunicação em seus territórios. A partir da constatação do papel central da comunicação para sua organização política, o movimento passou a aprofundar a compreensão da comunicação não apenas como representação midiática das mulheres, mas como um fator organizativo fundamental.

No Brasil, esse processo resultou, em 2013, na criação do primeiro coletivo de comunicadoras da Marcha. A iniciativa partiu de duas premissas: a comunicação não deve ser exclusividade de especialistas e todas as militantes devem ser capazes de produzir e difundir suas próprias narrativas; além disso, comunicar não é uma etapa posterior às ações políticas, mas parte constitutiva do próprio processo organizativo.

Com a expansão das tecnologias digitais, o movimento incorporou ao debate o impacto da inteligência artificial e da coleta de dados. Para Bianca, essas transformações ultrapassam o campo da comunicação e dizem respeito à própria reorganização da economia e do trabalho. “É uma nova maneira como a economia se organiza e também uma nova força de trabalho”, afirmou, ao defender que a compreensão dessas tecnologias deve fazer parte da formação política das militantes.

Formação técnica e política

Nesse sentido, a Marcha aposta na educação popular como estratégia para lidar com os desafios contemporâneos. A formação envolve tanto a análise do contexto geopolítico quanto o aprendizado prático das ferramentas tecnológicas. Cursos e oficinas têm sido realizados em parceria com movimentos aliados, reunindo participantes de diferentes perfis, com mulheres de todas as idades passando a utilizar recursos de inteligência artificial para produção de conteúdo. “Temos militantes na faixa dos setenta anos produzindo conteúdo com IA”, conta Bianca.

Entre os exemplos citados, Bianca destacou iniciativas do portal Capire, veículo internacional vinculado à Marcha, que opera com uma equipe reduzida e produz conteúdos em quatro idiomas. A incorporação da inteligência artificial ao fluxo de trabalho permitiu ampliar as atividades, incluindo a criação de um programa de rádio distribuído em plataformas digitais e rádios comunitárias.

Outro caso mencionado foi o desenvolvimento de uma ferramenta de inteligência artificial voltada à difusão de conhecimentos em agroecologia, construída em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e baseada em software livre.

Soberania de dados e plataformas livres

Apesar das possibilidades abertas pelas novas tecnologias, Bianca ressaltou a importância de discutir soberania de dados e o uso de plataformas livres. Para ela, é fundamental que os movimentos sociais se apropriem da inteligência artificial de forma crítica, garantindo que essas ferramentas contribuam para ampliar a democracia e o acesso à informação.

“A gente precisa garantir que a inteligência artificial seja utilizada a nosso favor”, afirmou, alertando para os riscos de dependência de plataformas privadas e de reprodução de vieses nos resultados.

A experiência da Marcha Mundial das Mulheres, segundo Bianca, demonstra que a comunicação, aliada à formação política e ao domínio tecnológico, pode fortalecer a organização coletiva e a difusão de agendas transformadoras.

Conheça o portal Capiremov.org