Ergon Cugler enumera apropriação de conteúdos produzidos por veículos e instituições sem autorização ou remuneração, manipulação da informação e substituição de trabalho humano como os principais impactos da inteligência artificial no jornalismo
O professor, pesquisador, cientista de dados e autor Ergon Cugler, representante do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, destacou os impactos estruturais da inteligência artificial (IA) sobre o jornalismo, o trabalho e o meio ambiente, defendendo que o debate sobre tecnologia deve ir além das ferramentas e considerar o modelo de sociedade em que estão inseridas.
Ergon foi o último a palestrar na mesa de abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo, neste sábado (20/6). O tema foi “Jornalismo e Inteligência Artificial: Um avanço à soberania ou da precarização do trabalho?”.
O pesquisador chamou atenção para a forma como a linguagem associada às tecnologias digitais contribui para naturalizar seu funcionamento. Termos como “nuvem”, “conteúdo” e “seguidores”, segundo ele, constroem um imaginário que distancia os usuários da materialidade e dos efeitos reais dessas plataformas.
Impactos da IA no jornalismo
No campo do jornalismo, Ergon destacou três impactos centrais da inteligência artificial. O primeiro, segundo ele, é a apropriação de conteúdos produzidos por veículos e instituições sem autorização ou remuneração. Ele citou como exemplo sistemas de busca que sintetizam informações jornalísticas diretamente nas plataformas, reduzindo o acesso aos sites de origem.
O segundo impacto diz respeito à manipulação da informação. De acordo com o pesquisador, estudos já indicam que conteúdos gerados por inteligência artificial podem atingir maior capacidade de persuasão do que materiais jornalísticos tradicionais, ampliando o potencial de desinformação.
Já o terceiro ponto é a substituição de trabalho humano. Ergon apontou que, em diferentes áreas, há iniciativas que buscam ampliar o uso da IA como forma de reduzir custos, como no caso de propostas que preveem a substituição de professores por sistemas automatizados.
Para ele, esses processos revelam que o problema central não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada dentro de um modelo orientado pelo lucro. “A tecnologia é apropriada não para melhorar a vida das pessoas, mas para gerar lucro para quem a controla”, afirmou.
Impactos ambientais
Além da dimensão digital, o pesquisador também destacou a importância de considerar os impactos materiais da inteligência artificial, especialmente no que se refere à infraestrutura necessária para seu funcionamento. Ele citou a expansão de projetos de data centers no Brasil, voltados ao treinamento de modelos de IA, incluindo empreendimentos próximos a comunidades vulneráveis.
Ergon falou sobre como esses centros de dados demandam grandes quantidades de energia e recursos naturais, além de gerar impactos ambientais e sociais, como aumento do consumo de água, formação de ilhas de calor e poluição sonora. Ao mesmo tempo, a geração de empregos nesses projetos é sempre muito menor do que a das expectativas anunciadas.
Ao final, o pesquisador vinculou o debate sobre inteligência artificial à necessidade de discutir políticas públicas e regulação, incluindo incentivos governamentais. Ele criticou propostas que preveem benefícios fiscais para empresas de tecnologia, ao mesmo tempo em que outras iniciativas de comunicação seguem submetidas a tributações.
Para Ergon, enfrentar os desafios impostos pela inteligência artificial exige uma abordagem ampla, que articule a defesa do trabalho, da qualidade da informação e da soberania tecnológica.





