Invisibilização dos agressores, culpabilização das vítimas e apagamento racial ainda marcam a cobertura jornalística brasileira sobre feminicídio
A cobertura jornalística dos casos de feminicídio ainda reproduz práticas que invisibilizam os agressores, culpabilizam as vítimas e reforçam desigualdades raciais e sociais. Esse é o resumo da última edição do programa Vozes pela Democracia, que discutiu o papel da imprensa diante do feminicídio. O programa foi ao ar na sexta-feira (4/7) e está disponível na íntegra no Canal do FNDC no YouTube.
Participaram do debate a jornalista Vanessa Rodrigues, coautora dos livros Histórias de Morte Matada Contadas Feito Morte Morrida e Voz Ativa: O Manual do Jornalismo Antifeminicídio, e Brenda Gomes, jornalista e técnica do Programa de Comunicação do Instituto Odara.
Vanessa alertou para o agravamento dos casos de feminicídio no país, mesmo diante do fortalecimento da legislação e da ampliação das campanhas de conscientização. Segundo ela, pesquisas indicam não apenas o aumento dos registros, mas também a crescente crueldade dos crimes, incluindo casos de violência vicária (quando o agressor ataca familiares da mulher, especialmente os filhos) para atingi-la emocionalmente.
Ao abordar a atuação da imprensa, a jornalista destacou que muitos erros identificados em pesquisas realizadas para o livro Histórias de Morte Matada Contadas Feito Morte Morrida continuam presentes nas coberturas atuais. Um dos principais problemas é o uso recorrente da voz passiva em títulos de notícias, com expressões como “mulher foi encontrada morta” ou “mulher foi morta”, que ocultam a responsabilidade do agressor e podem até sugerir uma morte natural ao leitor.
Para Vanessa, a narrativa jornalística deve nomear corretamente a violência e dar visibilidade a quem a pratica. “Se mulheres estão sendo mortas, quem está matando?”, questionou. Ela também criticou o uso de imagens retiradas das redes sociais das vítimas em contextos inadequados, que podem reforçar estereótipos e alimentar interpretações de culpabilização da mulher assassinada.
O manual Voz Ativa, lançado neste ano, busca justamente oferecer orientações práticas para jornalistas. A publicação propõe formas de redação que respeitem a presunção de inocência prevista na legislação, sem minimizar a gravidade do crime nem desrespeitar a memória das vítimas e de seus familiares.
Para Brenda Gomes, a imprensa não pode ser analisada isoladamente, mas como parte de um contexto social e institucional mais amplo. Ela chamou atenção para o enfraquecimento de políticas educacionais voltadas para gênero e raça e defendeu que os meios de comunicação assumam um papel pedagógico na discussão sobre violência contra as mulheres.
Apagamento racial
Outro ponto central da discussão foi o apagamento racial na cobertura dos feminicídios. As debatedoras destacaram que as maiores vítimas desse tipo de crime no Brasil são mulheres negras, periféricas e de baixa renda, mas esse perfil raramente aparece refletido nas narrativas produzidas pela mídia. Muitas vezes, os casos envolvendo mulheres negras recebem menor repercussão, menos acompanhamento jornalístico e até menos identificação das vítimas.
Vanessa lembrou que o racismo estrutural atravessa a cobertura da imprensa e influencia quais histórias recebem destaque e como elas são contadas. Segundo ela, essa seletividade contribui para reproduzir desigualdades e invisibilizar parte significativa das vítimas.
Misoginia na internet
As participantes também relacionaram o crescimento da violência de gênero à expansão de discursos extremistas e de grupos misóginos que atuam especialmente em ambientes digitais, influenciando jovens e adolescentes. Para Brenda, esse cenário reforça a necessidade de uma formação continuada dos profissionais da comunicação sobre feminicídio, direitos humanos e violência contra as mulheres.
Jornalismo humanizado
Ao final do programa, as debatedoras defenderam uma prática jornalística mais humanizada, que contextualize os crimes, diversifique suas fontes de informação e contribua para o enfrentamento da violência de gênero. Mais do que relatar casos, afirmaram, o jornalismo deve cumprir seu papel na defesa dos direitos humanos e na construção de uma sociedade comprometida com a vida das mulheres.
Vozes pela Democracia
Apresentado pelo radialista Sousa Júnior, o “Vozes pela Democracia” é transmitido ao vivo pela rádio web Atitude Popular, pelo portal radios.com.br e seu aplicativo Radiosnet e dezenas de emissoras comunitárias no país. Você também acompanha pelo canal do FNDC no YouTube.





