Convidados do Vozes pela Democracia 125 alertam que ocupar as redes sociais é fundamental, mas defendem que a democracia depende também da regulação das plataformas, da transparência dos algoritmos e do fortalecimento da comunicação popular.

A crescente influência das plataformas digitais nos processos políticos foi tema da edição 125 do Vozes pela Democracia, programa do FNDC produzido pela rádio e tv web Atitude Popular. Com o tema “Vencer nas redes é vencer nas urnas?”, a conversa reuniu o criador de conteúdo e pesquisador Thiago Guimarães (Ora Thiago) e o jornalista e produtor audiovisual Lucas Galdino (podcast Ter.a.pia) para refletir sobre o papel das redes sociais na disputa política contemporânea.

Embora reconheçam que as plataformas digitais se tornaram um espaço decisivo para circulação de informações, formação de opinião e mobilização social, ambos defenderam uma visão crítica sobre a centralidade atribuída às redes sociais nos processos eleitorais.

Para Lucas Galdino, o campo democrático e progressista precisou reconhecer, ainda que tardiamente, a importância estratégica desses ambientes digitais. Ele reforçou a necessidade de uma atuação contínua dos setores democráticos no ambiente digital. “A gente não pode agir só no desespero das eleições. Tem que criar realmente uma rede e manter essa discussão todos os dias e todos os anos. O outro lado está muito bem articulado e não começou agora”, afirmou.

“A gente não pode agir só no desespero das eleições. Tem que criar realmente uma rede e manter essa discussão todos os dias e todos os anos. O outro lado está muito bem articulado e não começou agora”

Lucas Galdino

A avaliação foi feita a partir da crescente presença de lideranças políticas, influenciadores e comunicadores nas campanhas eleitorais, fenômeno que ganhou força nos últimos anos. Segundo Galdino, as redes sociais passaram a desempenhar um papel central na construção de identidades políticas e na disputa de narrativas, exigindo organização permanente por parte dos setores comprometidos com a democracia.

O digital é importante, mas não resolve tudo

Durante a conversa, Thiago Guimarães chamou atenção para uma leitura que considera simplificadora: a ideia de que o desempenho nas redes sociais, por si só, determina resultados eleitorais. Segundo ele, o ambiente digital deve ser compreendido como parte de um ecossistema político mais amplo, que envolve organizações sociais, sindicatos, movimentos populares, igrejas, territórios, grupos comunitários e formas tradicionais de mobilização.

“O digital não é uma entidade autônoma. Ele se intercala com muitas outras formas de articulação política. O que a gente vê são experiências que combinam presença digital com outras frentes de mobilização”.

Thiago Guimarães
Thiago Guimarães/Divulgação

O pesquisador observou que diversas candidaturas conseguiram transformar sua relevância digital em votos, mas lembrou que houve também inúmeros casos de influenciadores e personalidades com milhões de seguidores que fracassaram eleitoralmente. Para ele, esse cenário demonstra que alcance e engajamento nas plataformas não podem ser confundidos automaticamente com capacidade de organização política ou apoio social efetivo.

Ausência de transparência das plataformas

Um dos pontos mais relevantes da conversa foi a crítica à falta de transparência das big techs. Thiago destacou que os dados utilizados para medir alcance, visualizações e engajamento nas redes sociais pertencem às próprias plataformas e não podem ser auditados de forma independente pela sociedade. “Estamos tomando decisões importantes sobre comunicação e mobilização política com base em métricas que não sabemos exatamente como são produzidas”, afirmou.

Na avaliação do comunicador, essa opacidade dificulta a compreensão real do impacto das redes sociais sobre o comportamento político da população. Ele lembrou ainda que empresas como Meta, Google e outras gigantes do setor não têm como objetivo principal garantir pluralidade informativa ou fortalecer processos democráticos. “São plataformas de publicidade. O interesse principal delas é lucro, marketing digital e extração de dados.”

“Estamos tomando decisões importantes sobre comunicação e mobilização política com base em métricas que não sabemos exatamente como são produzidas”

Thiago Guimarães

Regulação das plataformas e soberania digital

A necessidade de regulamentação das plataformas digitais também ocupou posição central na conversa. Os participantes defenderam mecanismos públicos de transparência, responsabilização e controle democrático sobre empresas que hoje concentram boa parte da circulação de informações no mundo.

A reflexão ganha relevância diante do crescente poder das big techs sobre a comunicação, o acesso à informação e até mesmo sobre o funcionamento de instituições democráticas. Na avaliação dos convidados, a democratização da comunicação no século 21 passa necessariamente pela discussão sobre algoritmos, coleta de dados, moderação de conteúdos e concentração econômica no ambiente digital. Também foi levantada a necessidade de ampliar a soberania tecnológica e reduzir a dependência brasileira de plataformas estrangeiras.

Lucas Galdino/Divulgação

Disputar a comunicação e sua infraestrutura

Ao longo da conversa, os convidados convergiram na avaliação de que o desafio democrático contemporâneo vai além da simples ocupação das redes sociais. A presença nos ambientes digitais é indispensável, mas precisa estar articulada a formas permanentes de organização política e social.

Nesse sentido, Thiago Guimarães defendeu que a democratização da comunicação exige não apenas disputar conteúdos e narrativas, mas também questionar as regras que estruturam o funcionamento das plataformas. “A gente precisa disputar não apenas a narrativa, mas a infraestrutura onde essa narrativa é construída.”

O criador de conteúdo chamou atenção para o poder concentrado nas grandes plataformas digitais, que controlam algoritmos, critérios de distribuição de conteúdo e mecanismos de monetização sem transparência adequada ou controle social. Para ele, avançar na regulação das Big Techs e construir alternativas mais democráticas para circulação de informação tornou-se uma tarefa estratégica para quem defende o interesse público.

“A gente precisa disputar não apenas a narrativa, mas a infraestrutura onde essa narrativa é construída.”

Thiago Guimarães

A conversa reforçou que as redes sociais ocupam hoje um papel central na disputa política, mas que seu funcionamento está longe de ser neutro. Mais do que buscar vitórias eleitorais imediatas, os participantes apontaram a necessidade de enfrentar questões estruturais, como a concentração de poder nas big techs, a falta de transparência dos algoritmos, a valorização da mídia independente e a construção de uma comunicação efetivamente democrática.