Atividades em Belém compõem a “segunda parada” da Caravana, que ainda deve visitar outros oito estados durante este ano de 2026
O movimento brasileiro pela democratização da comunicação está ainda mais desafiado neste ano eleitoral em que o debate público está contaminado pela manipulação das empresas estadunidenses de tecnologia e comunicação aliadas à extrema direita. “Sabemos do poder das big techs e de como ela está articulada com a extrema direita organizada internacionalmente”, afirmou a coordenadora-geral do FNDC, Katia Marko, na abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em Belém-PA, nesta terça-feira (28/4/26).
Katia chamou atenção para a necessidade de união dos movimentos sociais e de trabalhadores, entre outros, na defesa das pautas da comunicação, principalmente na regulação das big techs, da inteligência artificial e dos data centers. “Se, no início da década de 90, nosso grande debate era a regulação dos meios tradicionais, hoje nossa grande questão é o poder das big techs e a sua regulamentação necessária e urgente, junto com a regulação dos data centers”.
A coordenadora-geral do FNDC destacou o projeto Scala AI City, anunciado pelo governo do Rio Grande do Sul, em 2024, junto com a empresa Scala Data Center (pertencente ao fundo estadunidense Digital Colony), para ilustrar como a ausência de uma regulação para o setor está impactando negativamente comunidades inteiras, o meio ambiente e a soberania digital brasileira.
Previsto para ser implementado em Eldorado do Sul, o empreendimento tem diversos problemas apontados no relatório que o Conselho Nacional dos Direitos Humanos divulgou na última sexta-feira (24/4), motivando uma série de recomendações ao governo federal, ao Congresso Nacional, órgãos reguladores e outras instâncias governamentais federais e estaduais. A principal recomendação é a instituição de uma regulação transversal para os data centers, considerando, inclusive, a proteção aos direitos humanos.
Katia explicou que o objetivo da Caravana do FNDC é construir uma plataforma para o setor da comunicação e ter um documento mobilizador durante as campanhas eleitorais. “Queremos entregar essa plataforma aos candidatos a presidente da República, governador e a parlamentares estaduais e federais, contendo essas e outras questões relacionadas à pauta do direito à comunicação”.
Katia Marko participou da Caravana remotamente
A coordenadora-geral do FNDC encerrou a fala destacando que “a unidade vencerá o fascismo” e reafirmando que a Caravana é um “espaço de ação, para trabalhar juntos e produzir conteúdos e ações que tragam a pauta da democratização da comunicação para o centro do debate”.
Gilmar José dos Santos, secretário de Comunicação do Sindicato dos Bancários do Estado do Pará, destacou a luta da classe trabalhadora para ter acesso aos meios tradicionais se ampliou. “Hoje, temos mais de 270 milhões de aparelhos celulares habilitados no país e mais de metade da população usa as redes sociais”.
O sindicalista lembrou que mesmo no governo Lula os empresários da comunicação foram privilegiados nas concessões públicas em detrimento das rádios comunitárias, por exemplo.
Para Gilmar, “não é possível democratizar nenhum setor nas bases do sistema capitalista”, por isso, para ele, democratizar a comunicação ou qualquer espaço nesse país passa por fortalecer a luta contra o capitalismo e o neoliberalismo. Para ele, a classe trabalhadora tem como grande tarefa reeleger o presidente Lula e “varrer do Congresso Nacional toda essa corja capitalista, golpista, fascistas, racista e misógina, para avançar nas pautas da classe trabalhadora, inclusive a democratização da comunicação”.
Gilmar José dos Santos, secretário de Comunicação do Sindicato dos Bancários do Estado do Pará. Foto: Sindicato dos Bancários
Debate
Após o encerramento das falas de abertura a programação seguiu com o debate “A luta pela democratização da comunicação na atualidade – A velha mídia a serviço da extrema direita no Brasil e as big-techs a serviço do fascismo”, com Ergon Cugler (pesquisador e conselheiro da Presidência da República), Altamiro Borges (presidente do Centro de Estudos da Mídia Independente Barão de Itararé) e Elaide Martins (professora e pesquisadora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará).
Amanhã (29/4), as atividades prosseguirão com o Grupo de Trabalho Redes sociais para o campo popular – Armar a militância nas redes e nas ruas por uma comunicação democrática e popular para enfrentar o fascismo.
As atividades estão sendo realizadas no Sindicato dos Bancários do Estado do Pará, com transmissão ao vivo pelo Canal do FNDC no YouTube.
Perspectiva renderizada da Scala AI City após estar plenamente desenvolvida
Relatório da visita feita a Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, enumera os problemas do projeto Scala AI City, entre os quais, não cumprimento da legislação ambiental e ausência de consulta prévia à população
O Brasil precisa avançar em um marco regulatório para a instalação e operação de data centers de inteligência artificial (IA) considerando direitos humanos, justiça socioambiental, transparência e participação social. Essa é a primeira recomendação da Relatoria de Inteligência Artificial do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) ao Congresso Nacional e ao governo federal no relatório divulgado na última sexta (24/3).
O documento é resultado da visita a Eldorado do Sul, uma das regiões mais afetadas pelas enchentes de 2024 e onde está prevista a construção da Scala AI City, uma “cidade data center”. A visita se deu entre os dias 25 e 29 de março, com participação na programação da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação (28/3), e visitou as comunidades Guaíba City e Tekoa Guajayvi (aldeia Guarani) e o Assentamento Estadual Belo Monte, localizadas próximo ao local onde deverá ser instalado o data center.
O Scala AI City é um projeto de “Cidade Data Center” da Scala Data Center, empresa pertencente ao fundo estadunidense Digital Colony (nome sugestivo, não?), oficializado em um protocolo de intenções com o governo do RS, assinado em 2024. O empreendimento prevê investimento inicial de R$ 3 bilhões e a criação de mais de 3 mil empregos, dos quais menos de 100 foram criados até o momento, conforme apontou o Relatório SubData, da Subcomissão dos Data Centers da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.
Além de não cumprirem totalmente as etapas de licenciamento ambiental, até o momento as populações locais não foram alvo de nenhuma consulta prévia sobre o projeto e se sentem abonadas pelo poder público, pois não receberam informações sobre o empreendimento e temem pelos impactos ambientais, principalmente na agricultura familiar.
Visita à aldeira Guarani Tekoa Guajayvi/Arquivo CNDH
Em Gaíba City, especificamente, a população se preocupa com a captação de água e a manutenção do lençol freático, pois a comunidade depende de poços artesianos e, conforme o relatório do CNDH, um data center com capacidade de 1,8 GW possa consumir aproximadamente 2.160 m³ de água por dia, o que corresponde a cerca de 32% do consumo diário do município de Eldorado do Sul. “Para fins comparativos, caso fosse adotado um sistema de resfriamento aberto, o consumo hídrico poderia atingir cerca de 77.760 m³ por dia, equivalente a mais de 11 vezes o consumo diário da cidade, evidenciando a relevância da escolha tecnológica.”, explica o relatório.
Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, observa que as incertezas da população atingida com relação ao projeto se sustentam na ausência de uma regulação transversal. “O relatório do CNDH aponta aquilo que nós, da sociedade civil organizada, estamos reivindicando: uma regulação que leve em conta não somente os fatores econômicos, mas também os fatores ambientais e os direitos humanos das comunidades locais”.
Visita a Gaíba City/Arquivo CNDH
Caravana do FNDC
Durante a participação da missão na Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação, realizada no dia 28/3, em Porto Alegre, foram discutidas as relações entre infraestrutura digital, poder político, concentração de mídia e soberania informacional. O relatório registra que “a presença de especialistas, lideranças da comunicação e mídia ativistas levaram o debate a questões que se interligam ao tema da missão, pois os data centers são parte estratégica de todo o processo comunicacional moderno.”
O relatório da Missão da Relatoria de IA do CNDH no Rio Grande do Sul está disponível aqui.
Mídia sem regulação é instrumento da classe patronal e impõe atrasos às conquistas das trabalhadoras e trabalhadores
A redução da jornada de trabalho é uma reivindicação histórica da classe trabalhadora brasileira e, como tal, sempre bateu de frente com os interesses da classe empresarial e da mídia. No episódio mais recente de oposição aos interesses da classe trabalhadora por parte da imprensa nacional, a Folha de S. Paulo afirmou, no dia 21/2/26, que “em comparação com o resto do mundo, o brasileiro não trabalha muito. Nem pode ser considerado particularmente esforçado”.
A frase que abre a matéria de Rafael Cariello, publicada no dia 21 de fevereiro, é o suprassumo do viralatismo nacional, que vez ou outra toma conta de corações e mentes desavisados e não isenta sequer um veículo de comunicação de projeção nacional. A própria Ombudsman da Folha, Alexandra Moraes, afirmou, uma semana depois (21/2/26) que o jornal “sem medir as palavras, ofendeu leitores ao falar de trabalho”.
Não deu outra, no momento em que a classe trabalhadora brasileira se mobiliza pelo fim da escala 6×1, a matéria da Folha caiu como luva para os interesses da classe patronal. Embora tenha havido reações e explicações de estudiosos e especialistas no tema, a ideia de que o “brasileiro trabalha pouco” toma conta de sites do Brasil inteiro desde então.
Em artigo publicado no site Outras Palavras, o professor Erik Chiconelli Gomes, Coordenador Acadêmico da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP, explica que há pelo menos três pontos de confusão na forma como a imprensa divulgou o estudo: confusão entre posição relativa e recomendação de política, entre jornada legal e jornada real e entre custo bruto e custo líquido. “Esse tipo de exercício compara países com instituições, histórias e mercados de trabalho radicalmente distintos, e resume a diferença entre eles em um único número.” Ele lembra que “milhões [de brasileiros e brasileiras] cumprem 44 horas e que muitos extrapolam esse limite”.
O vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), criador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e um dos expoentes da luta pela escala 6×1 junto com a deputada Erika Hilton (PSOL-SP), também reagiu. “Bora lá no ponto de ônibus comigo, às 4 da manhã, explicar pro trabalhador que acorda antes do sol que ele trabalha menos que a média mundial, Folha de São Paulo?”, publicou em seu Instagram.
Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, pondera: “especialmente no momento em que a classe trabalhadora se mobiliza pelo fim da escala 6×1, esse tipo de informação não pode ser encarada como isenta. A quem interessa afirmar que o brasileiro trabalha 1,2 hora abaixo da média mundial, sem considerar a precarização das condições de trabalho e a desumanização imposta às trabalhadoras e trabalhadores brasileiros e questões como transporte precário, dupla jornada para as mulheres, entre tantas outras?”.
Para Kátia, a matéria da folha e a sequência de reproduções a partir da ideia de que “o brasileiro trabalha menos” evidencia o que o FNDC já denuncia desde o fim dos anos 80: uma mídia sem regulação democrática e participação popular, sempre vai privilegiar os interesses das elites econômicas e patronais. “Por isso que a luta pela regulação democrática dos meios de comunicação precisa do envolvimento de toda a classe trabalhadora”, ressalta.
Fim da escala 6×1
Esta semana, o governo enviou ao Congresso Nacional, com urgência constitucional, projeto de Lei que acaba com a escala 6×1 ao reduzir o limite da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, garantindo dois dias de descanso remunerado e proibindo qualquer redução salarial. O FNDC acompanha essa pauta e reforça seu apoio a essa luta de toda a classe trabalhadora.
Tadeu Porto, Secretário Adjunto Comunicação da CUT Brasil e Secretário de Comunicação do FNDC, afirma que a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 sem redução de salário é uma luta pela melhoria da qualidade de vida das trabalhadoras e trabalhadores que se amplia para toda a família. “Queremos mais tempo para conviver com nossas famílias, para estudar, para lazer, para viver! Essa luta é de todos nós!”
Tadeu esteve diretamente envolvido na organização da Marcha da Classe Trabalhadora, em Brasília. O ato, organizado pela CUT, reuniu milhares de trabalhadoras e trabalhadores em Brasília para pressionar o Congresso Nacional.
O Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, 17 de abril, marca o maior massacre de trabalhadores rurais no país e lembra que a luta por terra é uma luta por vida e trabalho
Há exatamente 30 anos, no dia 17 de abril de 1996, a Polícia Militar do Pará executou sumariamente 19 trabalhadores rurais sem-terra e feriu dezenas de outros que participavam de uma marcha pacífica na rodovia PA-150 em direção a Belém, onde reivindicariam a desapropriação da Fazenda Macaxeira. No total, foram 21 mortos. O episódio entrou para a história como o massacre de Eldorado dos Carajás.
Trinta anos depois, como lembra o Movimento Sem Terra, “a data permanece aberta como uma ferida não cicatrizada”. De fato, a violência das elites rurais (com ajuda do aparato repressor do Estado) contra trabalhadores é marca histórica no país e segue batendo recordes. De acordo com o Relatório de Conflitos no Campo Brasil 2024, da Comissão Pastoral da Terra, os assassinatos são mais frequentes nas regiões de expansão do agronegócio.
O ano de 2023 registrou um recorde no número de conflitos desde o início da publicação, há 39 anos: 2.250 conflitos. Em 2024, houve uma pequena redução de quase 3%, com 2.185 registros. A maioria dos casos, 78% do total, ou 1.766 em números absolutos, foram relacionados a disputa por posse de terra.
Os números ilustram uma realidade que Jorge Neri, da direção estadual do MST, contextualiza bem: “a terra no Pará foi dividida em conluio com latifundiários, com políticas oficiais que estimularam gente de fora a vir grilar terra aqui nos anos 70, com a abertura da Transamazônica, com a Sudam. Isso trouxe grandes projetos agropecuários, mineração, hidrelétrica, tudo empurrado pelo próprio governo, sem pensar no povo que já tava aqui.”
Ayala Ferreira, da direção nacional do MST, lembra que o massacre foi “parte de uma realidade dura em que impera a violência como mecanismo de manutenção de uma estrutura agrária baseada na extrema concentração de terras e de exploração dos bens da natureza”.
Impunidade
Dos 155 policiais que atuaram no caso, 153 foram absolvidos. Somente 16 anos depois, os responsáveis pelo massacre, coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Pereira de Oliveira, foram condenados a 280 e 158 anos de prisão em regime fechado, respectivamente. No entanto, Pantoja cumpriu apenas quatro anos em regime fechado e conseguiu a liberação para domiciliar alegando motivos de saúde. Ele morreu em 2020 por Covid-19. Oliveira também alegou problemas de saúde seis anos após o início do regime fechado e passou a cumprir domiciliar.
Coronel Mário Pantoja, condenado a mais de 200 anos pela chacina, cumpriu apenas quatro anos em regime feciado, morreu em 2020 de Covid-19
Marcas perenes
As marcas do massacre também estão presentes como traumas e sequelas de quem sofreu a brutalidade da PM do Pará. José Carlos Agarito Moreira tinha 18 anos na época e havia ido visitar os pais no assentamento Macaxeira. Hoje, aos 48 anos, ele contou ao site Repórter Brasil que ainda carrega as sequelas da violência. Ele ainda tem uma bala alojada no olho de vez em quando escorre pus pela nuca e pelo ouvido. “Acho que é o zinabre da bala que ficou lá dentro”, acredita.
Muitos sobreviventes ainda vivem no Assentamento 17 de abril, território da antiga fazenda Macaxeira que foi desapropriada após o massacre. De acordo com o MST, dos sobreviventes, 64 vítimas foram mutiladas com seus próprios instrumentos de trabalho e 25 delas, até hoje, não foram indenizadas. Todos continuam sem acompanhamento médico para tratar as sequelas da tragédia. Por causa da ausência de assistência médica, José Carlos precisou vender o terreno que recebeu pelo programa de reforma agrária para mudar para a cidade e realizar seus tratamentos.
Depois de receber um terreno pelo programa de reforma agrária, Zé Carlos precisou vender a área e mudar para cidade para realizar tratamentos de saúde (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Uma luta por vida e trabalho
Por causa do massacre, a Via Campesina Internacional instituiu o 17 de abril como o Dia Internacional da Luta Camponesa. No Brasil, a data é oficialmente o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. “Para nós, que construímos a luta social, o episódio de Eldorado dos Carajás é uma ferida aberta e dolorosa, principalmente porque a cada novo assassinato de um trabalhador ou ativista pela causa da reforma agrária, fica patente que as elites burocráticas e econômicas do país não querem mudar, de fato, a estrutura fundiária brasileira. O latifúndio no campo e nas comunicações ainda decide quem é digno de falar, de trabalhar em paz e até quem é digno de viver”, afirma Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC.
MST realiza mobilizações em 13 estados e DF em Jornada de Lutas pela Reforma Agrária/Marcelo Cruz/MST
Com informações dos portais do MST, Brasil de Fato, Brasil 247, CPT e Repórter Brasil
O 9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais acontece nos dias 24 e 25 de abril e reunirá no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo comunicadores, ativistas digitais, estudantes, juventude, pesquisadores e lideranças políticas de todo o país
Do Barão de Itararé
O 9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais (BlogProg), organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, já tem sua programação confirmada e promete dois dias intensos de debates sobre os rumos da comunicação no Brasil, o papel das mídias progressistas e os desafios impostos pelas plataformas digitais.
O evento, que conta com apoio do NIC.br, por meio do CGI.br, acontece nos dias 24 e 25 de abril e reunirá no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo comunicadores, ativistas digitais, estudantes, juventude, pesquisadores e lideranças políticas de todo o país.
A abertura, na sexta-feira (24), às 19h, traz como tema “A batalha da comunicação em 2026”, com a participação de Juliano Medeiros, Orlando Silva e Edinho Silva. O debate deve abordar os desafios políticos e comunicacionais no cenário eleitoral que se aproxima, além do papel das redes e da disputa de narrativas.
No sábado (25), a programação começa às 9h com a mesa “O papel da mídia progressista”, reunindo nomes das mídias independentes como Renato Rovai (Revista Fórum), Talita Galli (TVT News), Kiko Nogueira (DCM) e Dhayane Santos (Brasil 247). A discussão deve aprofundar o papel dos veículos independentes na construção de uma comunicação mais plural e democrática.
Após o almoço, às 14h, o foco será a regulação das plataformas digitais com a mesa “A luta pela regulamentação das Big Techs”, com Renata Mielli (coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br) , Ergon Cugler (pesquisador, cientista de dados e professor) e Sérgio Amadeu (sociólogo, professor e pesquisador das redes digitais). O debate ganha relevância diante do avanço das grandes empresas de tecnologia sobre a circulação de informação e os impactos na soberania informacional.
O encontro se encerra com a Plenária Final, às 17h, quando será debatida e aprovada a Carta do 9º BlogProg — documento político que sintetiza as propostas e diretrizes construídas coletivamente durante o evento. O encerramento está previsto para às 18h.
Serviço 9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais Data: 24 (sexta) e 25 (sábado) de abril de 2026 Local: Auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (Rua Rego Freitas, 530 – Sobreloja)
Interessados em participar devem fazer inscrição prévia. A programação acontecerá no Sindicato dos Bancários.
Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação vai desembarcar em Belém do Pará nos dias 28 e 29 de abril! Serão dois dias de mobilização, articulação, oficinas, debates e a plenária do Comitê pela Democratização da Comunicação do Pará. 📣📣📣
PROGRAMAÇÃO
Local : Sindicato dos Bancários do Estado do Pará Endereço: Rua 28 de setembro, 1210, Reduto. CEP: 66053-355
Dia – 28/04/2026 (Terça-Feira)
16h – Abertura da Caravana – Kátia Marko – Coordenadora Executiva do FNDC – Gilmar José dos Santos – Secretário de Comunicação do Sindicato dos Bancários do Estado do Pará
Debate Mediadora: Caroline Beraldo – Secretária de Organização do FNDC A luta pela democratização da comunicação na atualidade – A velha mídia a serviço da extrema direita no Brasil e as big-techs a serviço do fascismo
– Altamiro Borges – Presidente do Centro de Estudos da Mídia Barão de Itararé – Lúcio Flávio de Faria Pinto – Professor, Jornalista e Sociólogo – Ergon Cugler – Pesquisador e Conselheiro da Presidência da República – Doutora Elaide Martins – Docente e Pesquisadora da Faculdade de Comunicação – UFPA
19h – Programação Cultural Com samba e música paraense
Dia – 29/04/2026 (Quarta-Feira) 9h – Grupo de Trabalho de redes sociais para o campo popular – Armar a militância nas redes e nas ruas por uma comunicação democrática e popular para enfrentar o fascismo.
– Tiane Melo: Historiadora e pedagoga de formação. Mestranda em ensino no PPGCIMES/UFPA. Atua como criadora de conteúdo no @mangapoetica desde 2020. – Max Costa: Jornalista, doutorando do Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (Naea) da UFPA, editor da revista socioambiental Jatobá, dirigente do Sinjor/PA e da coordenação do Instituto Universidade Popular (UNIPOP). – Daiane Coelho: Jornalista, graduanda em Publicidade e Propaganda e pós-graduanda em Comunicação, Política e Marketing Eleitoral. – Tel Guajajara: Natural do Maranhão, pertence ao povo indígena Guajajara. Foi Coordenador Geral do Cuca da UNE, atualmente é presidente da Students Organising for Sustainability International (SOS-International), estudante de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA) e Conselheiro Nacional de Juventude.
12h – Almoço
14h – Plenária do Comitê do FNDC – Pará A organização dos ativistas digitais na luta popular em defesa de uma comunicação democrática – Caroline Beraldo – Secretária de Organização do FNDC – Moisés dos Santos Alves – Comitê pela Democratização da Comunicação do Pará – Vera Paoloni – Presidenta da CUT do Estado do Pará
A advogada Laina Crisóstomo participou das audiências e da reunião ordinária do Conselho de Comunicação Social (CCS) no dia 2 de março, apresentando o FNDC e suas pautas. Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
FNDC tem apresentado pautas e subsídios técnicos para os temas relativos ao direito à comunicação, soberania e regulação democrática
Desde o início deste mês de março, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação passou a fazer incidência política no Congresso Nacional. A ideia é intensificar o contato com deputados e senadores para apresentar pautas relativas à garantia do direito à comunicação e à soberania nacional, acompanhar a tramitação de matérias e fornecer subsídios técnicos para os temas que envolvem a pauta do movimento pela democratização da comunicação.
A coordenadora-geral do FNDC, Katia Marko, explica que essa ação é uma das prioridades da atual gestão. Para ela, estar no Congresso Nacional é fundamental para uma organização como o FNDC, que exerce influência e subsidia os debates sobre propostas de regulação da comunicação e do direito à comunicação há mais de três décadas. “Precisamos estar presentes, provocar, pressionar e, também, saber o que acontece nas casas legislativas a tempo de interceder quando necessário”.
A incidência está a cargo da advogada feminista Laina Crisóstomo, especialista em gênero e raça. Laina é fundadora da ONG TamoJuntas, que presta assessoria multidisciplinar para mulheres em situação de violência, e também foi co-vereadora na Mandata Coletiva Pretas por Salvador. Na Câmara Municipal de Salvador, também foi Procuradora Parlamentar da Mulher (2021 a 2024).
Nesse primeiro mês de incidência, o FNDC participou das audiências e reuniões do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional (CCS), apresentando suas pautas, além de restabelecer o contato com vários parlamentares. Laina Crisóstomo avalia a experiência como positiva. “O FNDC tem uma história de luta que, nesse momento, é fundamental para a democracia. Estamos em ano eleitoral com várias ameaças internas e externas, como as big techs aliadas ao governo Trump, por exemplo, que, se quiserem poderão interferir. Então fazer esse alerta é urgente no Congresso Nacional”, comenta.
De olho na pauta!
Além de apresentar as pautas relativas à comunicação, o FNDC também tem acompanhado a tramitação de propostas relativas à regulação das plataformas digitais, como o PL 896/2023 (criminalização da misoginia), PL 6194/2025 (educação digital), PL 6075/2025 (anti-redpill), PL 805/2026 (lei interamericana de enfrentamento à violência digital contra mulheres) e PL 02/2026 (Maria da Penha Digital).
Fórum acompanha propostas que podem resultar em novas regulações de plataformas digitais
O FNDC tem acompanhado pautas relativas à regulação de ambientes digitais no Congresso Nacional como parte de sua incidência política no Legislativo. Propostas de lei como a criminalização da misoginia, educação digital, Lei Interamericana de enfrentamento à violência digital contra as mulheres, de combate ao movimento redpill e Maria da Penha Digital estão no foco do Fórum.
A advogada Laina Crisóstomo, responsável pela incidência, explica que as matérias que se relacionam direta ou indiretamente com a regulação de plataformas interessam diretamente ao FNDC. “Antes, o foco do FNDC eram as concessões públicas, que continuam sendo parte da agenda, mas as iniciativas que buscam regular os espaços digitais são urgentes. São muitas violências de gênero, racismo, enfim, violações de direitos humanos de todos os tipos que precisam ser combatidas com políticas públicas”, aponta.
Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, afirma que o FNDC está vigilante a essas pautas para poder incidir de forma precisa nos momentos decisivos. Abaixo, o resumo dos projetos acompanhados pelo Fórum.
Criminalização da misoginia – PL 896/2023
Autoria: Senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA)
Ementa: Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, para incluir os crimes praticados em razão de misoginia.
A proposta altera a legislação para incluir crimes motivados por misoginia (ódio ou aversão às mulheres) entre aqueles punidos por discriminação ou preconceito. Isso abrange injúrias e incitação ao ódio contra mulheres.
Situação: O PL 896/2023 foi aprovado com 67 votos favoráveis e nenhum contrário no dia 24 de março/26. O texto prevê penas de até 5 anos de reclusão e segue para votação na Câmara dos Deputados
Educação digital – PL 6194/2025
Autoria: Ana Pimentel (PT-MG)
Ementa: Dispõe sobre normas de prevenção, proteção, responsabilização civil e educação digital para o enfrentamento à misoginia em aplicações de internet.
Lei interamericana – PL 805/2026
Autoria: Jack Rocha (PT-ES)
Ementa: Dispõe sobre o enfrentamento à violência digital contra as mulheres por sua condição de mulher, com base na Lei Modelo Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Digital de Gênero contra as Mulheres, elaborada no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Dados Complementares: Altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 e a Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965.
Combate ao movimento redpill – PL 6075/2025
Autoria: Sâmia Bonfim (PSOL-SP)
Ementa: Acrescenta o art. 287-A ao Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), para tipificar a promoção, a incitação e a divulgação de conteúdo misógino capaz de estimular hostilidade, discriminação ou violência contra mulheres.
Lei Maria da Penha Digital – PL 02/2026
Autoria: Randolfe Rodrigues (PT-AP)
Ementa: Institui a Política Nacional de Combate ao Discurso de Ódio contra a Mulher na Internet (Lei Ivone e Tainara contra a Violência de Gênero no Ambiente Digital), obriga a implementação de sistemas híbridos de detecção e moderação, cria o Cadastro Nacional de Bloqueio, estabelece o Modo de Segurança Digital e dá outras providências.
A ação tem como objetivo fortalecer a articulação entre diferentes setores na luta pelo direito à comunicação | Crédito: Jorge Leão
O encontro marca o início de uma mobilização nacional que percorrerá 10 cidades brasileiras ao longo de 2026
Fabiana Reinholz Brasil de Fato
Debate sobre desinformação, concentração de poder nas plataformas digitais e o papel da mídia tradicional no avanço da extrema direita marcaram, neste sábado (28/3), em Porto Alegre, a abertura da Caravana do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), realizada durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O encontro foi a primeira parada de uma mobilização nacional que percorrerá 10 cidades brasileiras ao longo de 2026.
O auditório da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) ficou lotado. A caravana faz parte de uma estratégia de fortalecimento da sociedade civil organizada em torno do direito humano à comunicação no país.
A abertura cultural contou com apresentação do músico Zé Martins, do grupo Unamérica, que cantou a música Pealo de Sangue, de Raul Ellwanger, músico gaúcho exilado durante a ditadura militar. Também interpretou canções como Canción con todos (Julio César Isella e Armando Tejada Gómez), além de versões em português de Bella Ciao e El pueblo unido jamás será vencido, de Sergio Ortega, símbolo da Unidade Popular chilena.
Evento teve apresentação do músico Zé Martins, do grupo Unamérica – Crédito: Jorge Leão
A programação incluiu o debate “O papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo”, com participação da jornalista Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, representando o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), vice-presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (SindJoRS) e editora-chefe do Brasil de Fato RS, da antropóloga Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), do jornalista Federico Pita, editor do Página 12 (Argentina) e integrante da Diáspora Africana da Argentina (Diafar), do sociólogo Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), e de Diego Marques, diretor de imprensa e divulgação do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Na sequência, a mesa “Propostas para soberania nas comunicações” contou com a secretária-geral do FNDC, representado o Diracom, e professora da Universidade Federal do Ceará, Helena Martins, Ergon Cugler, do Barão de Itararé e conselheiro da Presidência da República no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, Admirson Medeiros Ferro Júnior (Greg), representante da relatoria de Inteligência Artificial do Conselho Nacional de Direitos Humanos, Mateus Azevedo, primeiro secretário executivo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS), José Nunes, presidente da ARI, e o historiador Walter Lippold, integrante do Coletivo Fanon.
Unidade política e mobilização pela democratização da comunicação
A coordenadora-geral do FNDC, Katia Marko, destacou que a caravana tem como objetivo fortalecer a articulação entre diferentes setores na luta pelo direito à comunicação. Segundo ela, a iniciativa busca promover debates e construir, de forma coletiva, alternativas ao modelo hegemônico. “Se tem algo que podemos afirmar a partir desta conferência em Porto Alegre é que, para vencer o fascismo, precisamos de unidade. Unidade dos antifascistas, de todos que acreditam que este não é o mundo que queremos.”
De acordo com Marko, a caravana pretende reunir vozes que se posicionam contra o fascismo, os monopólios da comunicação e o que classificou como “ditadura das big techs”. A escolha de Porto Alegre como ponto de partida está relacionada à realização da Conferência Internacional Antifascista, vista como uma oportunidade de ampliar o alcance do debate com a presença de participantes de diferentes estados e países.
A jornalista também anunciou que a caravana percorrerá outras dez cidades brasileiras ao longo do ano. A próxima parada será em Belém (PA), prevista para o final de abril. “Nada melhor do que discutir a comunicação e como essa visão fascista de mundo vem se consolidando no país, com contribuição da grande imprensa e das plataformas digitais”, afirmou.
Big techs, algoritmos e controle da visibilidade
O professor Sérgio Amadeu abriu o debate analisando o funcionamento das redes digitais e o poder das big techs no atual ecossistema de comunicação. Segundo ele, embora a internet tenha ampliado as possibilidades de expressão, isso não significou, necessariamente, maior democratização. “Na internet, o difícil não é falar, é ser ouvido”, afirmou, destacando que a visibilidade é controlada dentro de uma economia de rede que tende ao monopólio.
Para Amadeu, plataformas como Meta e Google concentram a atenção global e exercem um poder sem precedentes ao controlar a distribuição de conteúdos por meio de algoritmos invisíveis. Esses sistemas definem o que será visto, por quem e com que frequência, a partir da coleta massiva de dados e da construção de perfis comportamentais. “Não há um alargamento da realidade, mas um encurtamento.”
O professor também alertou para a capacidade dessas plataformas de interferir diretamente no debate público e em processos eleitorais. Segundo ele, ao controlar a circulação e a visibilidade de conteúdos, as empresas podem reduzir o alcance de determinadas vozes, inclusive de candidaturas. “Vocês acham que eles não podem bloquear candidaturas ou reduzir a visualização das forças de esquerda?”, questionou. Para ilustrar ele citou episódios como o da Colômbia, onde perfis de candidatos de esquerda chegaram a ser retirados do ar durante o período eleitoral.
Amadeu também relacionou o poder das big techs ao campo geopolítico e militar, mencionando a Faixa de Gaza como exemplo do uso de dados e sistemas algorítmicos na definição de alvos em conflitos contemporâneos. “Sem regulação, há violação da liberdade de expressão”, afirmou, defendendo a necessidade de controle democrático sobre as plataformas e a criação de alternativas ao modelo atual.
Ao final, associou esse processo ao avanço do que chamou de “tecnofascismo” e citou o empresário Peter Thiel como exemplo de influência nesse campo, defendendo uma concepção de liberdade vinculada à igualdade.
De acordo com Katia Marko a caravana busca promover debates e construir, de forma coletiva, alternativas ao modelo hegemônico | Crédito: Jorge Leão
Eleições, hegemonia e plataformas digitais
A antropóloga Letícia Cesarino avaliou que o Brasil enfrentará eleições decisivas em um cenário de avanço da comunicação hegemônica alinhada ao fascismo. Segundo ela, já há sinais de atuação da grande mídia na tentativa de normalizar candidaturas associadas ao bolsonarismo. “Parte da mídia tem se deslocado para sanitizar uma candidatura a Flávio Bolsonaro, inclusive com a retirada do sobrenome das manchetes”, afirmou.
Citando autores como Steven Levitsky e Marco Nobre, além de exemplos internacionais como Viktor Orbán, Narendra Modi e Donald Trump, Cesarino pontuou que é nos segundos mandatos que se aprofundam processos de erosão democrática. Ainda no campo político, apontou a convergência entre big techs e governos de extrema direita, impulsionada por disputas geopolíticas e pela expansão das empresas.
“Eles vão fazer o que for preciso, inclusive interferir em eleições, porque podem”, disse, mencionando práticas como shadowban. Também conhecido como shadow banning ou stealth banning, é uma prática em que uma plataforma de mídia social limita a visibilidade de um usuário ou de suas postagens sem notificar diretamente o usuário sobre a penalidade. Isso significa que o conteúdo do usuário é “escondido” dos outros usuários, especialmente aqueles que não o seguem, reduzindo drasticamente o alcance e o engajamento.
A professora destacou ainda a chamada “bolha da inteligência artificial”, associada ao crescimento de empresas como NVIDIA e OpenAI, que buscam se tornar indispensáveis à economia e à estratégia global dos Estados Unidos. Para ela, o avanço do fascismo altera a lógica tradicional da hegemonia, mobilizando afetos difusos, medo, ressentimento e insegurança, contra inimigos construídos, com as plataformas digitais funcionando como infraestrutura central desse processo. “Elas ocupam o espaço da nossa mente estendida.”
Ao abordar caminhos de enfrentamento, indicou três frentes: a disputa política nas próprias plataformas, combinada com organização offline, a regulação, apesar das limitações, e, sobretudo, a construção de alternativas no campo da soberania digital.
Para Cesarino, a criação de infraestruturas digitais alternativas é um caminho estratégico de longo prazo e mais viável do que parece. “As pessoas não conseguem imaginar um mundo fora das big techs, mas essas alternativas já existem”, concluiu.
Racismo, colonialidade e comunicação
Participando de forma virtual, o jornalista argentino Federico Pita propôs uma leitura histórica do fascismo relacionada ao racismo e à comunicação hegemônica. Segundo ele, o fascismo não deve ser entendido como uma anomalia ou um acidente da democracia, mas como parte de um processo mais amplo ligado à formação do mundo moderno. “O fascismo é uma forma intensificada de uma ordem que já existia no capitalismo moderno.” Na avaliação do jornalista essa análise precisa considerar a dimensão racial dessa construção histórica.
Para ele, esse processo remonta à expansão colonial europeia, que não produziu apenas dominação econômica, mas também uma narrativa que organizou o mundo em termos de hierarquia racial. No caso da Argentina, destacou que essa lógica se consolidou na formação do Estado nacional, com políticas que privilegiaram a imigração europeia, como previsto na Constituição de 1853. “A Argentina se narrou como branca”, enfatizou, classificando essa construção como uma tecnologia de exclusão e apagamento.
Segundo Pita, padrões de exclusão racial se consolidaram na Argentina e seguem ativos no presente, sob governos como o de Javier Milei. Ele criticou setores progressistas por não colocarem o racismo no centro das análises. “O racismo não é residual, é estrutural.”
O jornalista ressaltou ainda estratégias discursivas globais para desorganizar o campo antirracista, como a equiparação entre antissionismo e antissemitismo. Citou figuras como Donald Trump como parte de um ecossistema em que convivem nacionalismo branco, autoritarismo e discursos conspiratórios.
Ao concluir, Pita destacou que o fascismo também opera no plano das sensibilidades sociais e que a comunicação hegemônica é um de seus principais instrumentos. “Se não desarmarmos a arquitetura que sustenta esse dispositivo, a crítica ao fascismo corre o risco de ficar na superfície.”
“O racismo não é residual, é estrutural”, frisou Federico Pita | Crédito: Jorge Leão
Tecnologia, crise e disputa de futuro
Encerrando a primeira mesa, Diego Marques relacionou fascismo, tecnologia e comunicação, retomando reflexões de Walter Benjamin sobre o surgimento do fascismo e as revoluções técnicas associadas aos conflitos. A partir dessa leitura, argumentou que momentos de intensificação de conflitos estão historicamente associados a revoluções tecnológicas.
Ele citou como exemplo a Primeira Guerra Mundial, marcada pelo impacto de inovações nos transportes e na indústria, e destacou que, já nos anos 1930, Benjamin identificava uma nova transformação em curso, com o avanço da radiodifusão, do cinema e das primeiras tecnologias de processamento de dados. “Esse paralelo ajuda a compreender o presente. Onde há fumaça de guerra, há uma revolução da técnica em curso”, sintetizou.
Segundo Marques, hoje as dez maiores empresas globais de tecnologia representam cerca de 6% do PIB mundial, sendo que Alphabet e Meta concentram 70% desse total. Ele chamou atenção para o peso das infraestruturas tecnológicas nesse processo. “A gente olha muito para as plataformas, para o que está na nossa mão, mas esquece toda a cadeia produtiva e as redes que tornam isso possível.”
Marques comparou esse setor com a comunicação tradicional e destacou a diferença de escala. Enquanto as grandes empresas de tecnologia concentram uma parcela significativa da economia global, o conjunto da mídia convencional, incluindo radiodifusão, jornalismo e streaming, representa menos de 1% do PIB mundial. “Não estamos diante de uma simples transição de linguagem ou de modelo. Estamos diante de uma revolução material da técnica”, afirmou.
O professor também ligou as tecnologias à coleta de dados e à modulação comportamental em contextos estratégicos, inclusive militares. “O fascismo, nesse contexto, deixa de ser apenas uma opção ideológica e passa a ser uma necessidade para a reprodução do sistema”, afirmou, relacionando o fenômeno à crise climática e ao tecno-solucionismo, que exclui parcelas da população para garantir privilégios a outras.
Ele concluiu ressaltando que o enfrentamento passa pelo entendimento crítico das tecnologias e pela capacidade de construir usos sociais alternativos. “Se existe alguma brecha, ela está na nossa capacidade de imaginar e construir outros usos sociais para essas tecnologias. Se a gente não acelerar a marcha, a história pode acabar nos atropelando.”
Histórico e perspectivas
“Queremos mobilizar as pessoas para movimentar essa ação política junto com uma imaginação política transgressora”, destacou Helena Martins | Crédito: Jorge Leão
Na mesa “Propostas para soberania nas comunicações”, Helena Martins iniciou sua fala resgatando a trajetória do FNDC e a atuação de rádios comunitárias e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Martins lembrou que propostas consideradas radicais hoje chegaram a ser defendidas naquele contexto. “A Fenaj chegou a defender a nacionalização dos sistemas de comunicação. Isso mostra que o alcance das nossas pautas depende do contexto histórico. Era um momento de reabertura democrática, com uma radicalidade de tentar tirar o setor privado de um campo considerado estratégico.”
Segundo ela, prevaleceu o avanço da privatização, não só da radiodifusão, mas de todo o complexo das comunicações. Ao conectar o debate histórico com o cenário atual, Martins defendeu a necessidade de ampliar horizontes políticos e conceituais. “Precisamos pensar caminhos para outra comunicação, outra radiodifusão, outra internet, algo que talvez ainda nem saibamos qual formato terá.”
Ela reforçou que soberania não é replicar modelos existentes, mas ter capacidade de decisão e imaginação sobre educação, cultura e tecnologia. “Queremos mobilizar as pessoas para movimentar essa ação política junto com uma imaginação política transgressora. O desafio é enorme, e a nossa capacidade de formulação também precisa ser.”
Soberania digital e disputa dentro do Estado
O conselheiro da Presidência no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável Ergon Cugler pontuou que o debate sobre tecnologia também ocorre dentro do governo. “É um espaço de disputa política. Ao mesmo tempo em que temos militantes dos direitos digitais, também temos representantes de big techs como Amazon, Microsoft e Google.”
De acordo com ele, a presença dessas empresas revela a complexidade da correlação de forças. “Não é porque temos um governo progressista que a correlação será progressista. As big techs estão infiltradas no alto escalão.”
Cugler criticou diferentes concepções de soberania digital. Conforme apontou, há quem ache que basta melhorar contratos ou instalar data centers no país. “Mas isso não nos garante soberania. Mesmo com infraestrutura nacional, pode haver captura pelo setor privado.”
Diante disso, defendeu o conceito de soberania digital popular. “A tecnologia precisa estar a serviço do povo e sob controle do povo.” Para isso, propôs cinco pilares: institucional, estrutural, democrático, cognitivo e ético-civilizatório. No campo institucional, destacou a necessidade de regulação. “Sem regulação do ambiente digital, não saímos do zero.”
Cugler alertou ainda para o poder econômico das plataformas. Segundo ele, as principais big techs acumulam trilhões e usam esse poder para influenciar legislações. “O Brasil já pagou pelo menos R$ 23 bilhões em softwares estrangeiros, em vez de investir em tecnologia própria.”
Tecnologias, colonialismo e alternativas populares
O historiador Walter Lippold, do Coletivo Fanon, relacionou tecnologia com processos históricos de dominação e resistência. “A radiodifusão, que servia ao colonialismo francês, foi transformada em ferramenta de luta anticolonial”, disse. Segundo ele, a tecnologia deve ser entendida como campo de disputa. “A tecnologia não é da Europa. É nossa também. Podemos reapropriá-la e transformá-la.”
Ele defendeu aproximação entre movimentos sociais e debate tecnológico. “Queremos que hackers estudem Fanon e que os movimentos populares se apropriem dessas questões.” Entre as propostas, destacou o hackativismo popular e a autodefesa digital. Para o historiador não é mais possível organizar lutas em plataformas proprietárias sem questionamento. Neste sentido citou experiências concretas, como clubes hackers e iniciativas de tecnologia livre em periferias e movimentos sociais. “Temos alternativas. Não é só desesperança.”
Ele criticou o modelo de negócio das plataformas digitais, baseado na extração e monetização de dados. “A desinformação não é um erro. É parte central desse modelo. Nossos dados são coletados, processados e vendidos para segmentação de anúncios.”
O historiador também apontou o desequilíbrio de poder na disputa por narrativas. “Nos últimos quatro dias da campanha de Bolsonaro, a última que ele perdeu, foram investidos R$ 4,5 milhões por dia em anúncios segmentados apenas no YouTube. Se você coloca R$ 6 por dia em um anúncio no Instagram, chega a cerca de 1.500 pessoas. A escala é completamente desigual.”
Ele explicou como o próprio modelo econômico das plataformas lucra com conteúdos nocivos, incluindo masculinismo redpill, golpes de tigrinho, pirâmides de pix, negacionismo climático, negacionismo científico, revisionismo histórico e neonazismo. “Isso tudo dá lucro. Faz parte do modelo.”
Para Lippold, embora sejam importantes estratégias como alfabetização digital crítica e autodefesa, há limites estruturais. “Nunca vamos vencer nesse campo, porque é o capital que manda ali. Mas é nos movimentos sociais que vai nascer o novo. É ali que a gente vai resistir e avançar.”
O historiador Walter Lippold, do Coletivo Fanon, relacionou tecnologia com processos históricos de dominação e resistência | Crédito: Jorge Leão
Jornalistas gaúchos destacam precarização e políticas de comunicação
Em sua fala, Mateus Azevedo defendeu que a esquerda precisa de um projeto concreto de comunicação. “A gente colocou nossos representantes em conselhos, mas grandes empresas engoliram quem estava lá. Isso só piora a situação. Temos piso baixo, sobrecarga e desmobilização. Muitos colegas não se veem como operários da informação, mas sonham em ser celebridades. A luta sindical é essencial para mudar isso.”
Entre as propostas do SindJoRS apresentadas estão aprovação da PEC do diploma, implementação do piso nacional, combate à pejotização, fortalecimento da comunicação pública e popular, taxação das big techs e revogação da lei multimídia.
José Nunes destacou sua trajetória de mais de 30 anos na militância no sindicato, Fenaj e ARI. Ele recordou a luta contra a decisão do Supremo Tribunal Federal de 2009, que retirou a obrigatoriedade do diploma para jornalistas, e criticou a falta de implementação das demandas aprovadas na primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). “Foram 600 propostas aprovadas e nenhuma implementada. A segunda conferência só faz sentido se algumas dessas medidas forem colocadas em prática.”
Por fim, criticou o modelo atual de formação acadêmica, que privilegia títulos sobre experiência de mercado. “Precisamos de jornalistas preparados, com conhecimento prático, capazes de enfrentar os desafios do mercado e da comunicação pública.”
Unidade, infraestrutura própria e educação midiática
Encerrando o debate, Admirson Medeiros Ferro Júnior (Greg) reforçou a importância da articulação entre movimentos, educação midiática e infraestrutura tecnológica própria. “Fico contente de ver esse plenário repleto e uma agenda de caravanas Brasil afora. É cada um no seu quadradinho fazendo o seu pedaço. É raro ter projetos estratégicos. A rede de soberania precisa discutir que sociedade queremos, só assim podemos falar em soberania.”
Ele destacou cooperativas como alternativa ao capitalismo concentrado “Quem aqui usa Uber ou 99? Tem uma cooperativa de transporte de passageiros funcionando em todo o Brasil. Estou ajudando a organizar e divulgar, todo mundo precisa apoiar.”
Greg também alertou para hábitos cotidianos e vigilância digital. “O povo não está educado a usar as mídias. Estamos vigiados 24 horas, Uber, compras, cartões, até casamento com IA já existe. Eles sabem tudo.”
O dirigente concluiu reforçando a necessidade de ação contínua e articulação ampla, lembrando que a soberania digital não depende apenas do governo federal, mas da participação de estados, municípios e movimentos sociais. “Esse debate tem que ser permanente. Discutir soberania, plataformas e educação midiática é fundamental para avançarmos.”
A programação de estreia da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação será realizada durante a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, em Porto Alegre
O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) realizará, ao longo de 2026, a “Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação”. Serão 10 cidades mobilizadas em torno dessa luta. A primeira parada será na I Conferência Internacional Antifascista, no dia 28 de março, em Porto Alegre. As atividades serão realizadas na Associação Riograndense de Imprensa (ARI).
Helena Martins, secretária-geral do FNDC, explica que será um momento de denúncia, organização e luta política diante do avanço do fascismo no Brasil e no mundo.
Reunindo acadêmicos, movimentos sociais, militantes, veículos e coletivos de comunicação contra-hegemônica, as atividades discutirão o papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo e propostas para soberania nas comunicações. Entre as pessoas convidadas estão Kátia Marko, Sérgio Amadeu, Letícia Cesarino, Helena Martins, Ergon Cugler, Federico Pita (Argentina) e Greg Medeiros.
Contexto político
A Caravana é mais uma forma de intensificar a mobilização do movimento pela democratização da comunicação. Helena explica que ideia nasceu do entendimento de que não há enfrentamento efetivo ao fascismo sem enfrentar, de forma radical, o papel da comunicação hegemônica na sustentação das estruturas de dominação.
Diversos ataques recentes, com destaque para o genocídio do povo palestino e o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, bem como as ameaças abertas a diversos países do Sul Global, escancaram mais uma vez a operação dos grandes grupos de comunicação como aparelhos privados de hegemonia, a serviço dos interesses do andar de cima — neste caso, do imperialismo estadunidense.
Kátia Marko, coordenadora-geral do FNDC, destaca que o papel das big techs, nesse cenário, merece destaque. “São elas que têm viabilizado a guerra cibernética, a vigilância massiva, as operações datificadas, além de favorecerem o controle da circulação das informações, em um alinhamento cada vez mais explícito à extrema direita mundial”, analisa.
Em relação aos meios de comunicação tradicionais, há uma narrativa que oculta ou naturaliza essas violências. “Ainda que a brutalidade desses acontecimentos force, ocasionalmente, alguma fissura no discurso dominante, o que se vê é apenas uma abertura controlada para a crítica ou, mais precisamente, para a ponderação”, afirma Helena.
Para ela, a crítica ou a ponderação “são uma encenação de pluralismo que confere aparência democrática a um ambiente comunicacional que, cotidianamente, constrói e impõe uma visão de mundo específica, funcional à reprodução do capital e da dominação imperialista”.
Se o imperialismo e o próprio capitalismo em profunda crise passam a exibir de forma cada vez mais crua seus mecanismos de dominação, a comunicação acompanha esse movimento, seja ocultando, legitimando, distorcendo abertamente a realidade ou produzindo informações para alcançar seus propósitos. “Justamente por isso, a disputa comunicacional se atualiza como campo fundamental da luta de classes e da luta antifascista”, observa Kátia.
PROGRAMAÇÃO Sábado, 28 de março de 2026
10h – Reunião com o Comitê FNDC RS 13h – Abertura da Caravana
Atividade Cultural – *Zé Martins (Unamérica)
14h – O papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo
16h – Propostas para soberania nas comunicações
Roda de conversa com mídias contra-hegemônicas e movimentos sociais do RS
Local ARI – Associação Riograndense de Imprensa
Endereço: Edifício Alberto André – Av. Borges de Medeiros, 915 – Centro Histórico, Porto Alegre – RS, 90240-640
Telefone: (51) 3211-1555
Mapa: https://maps.app.goo.gl/96gdsVesRfksEqf26