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Disputar as ruas, as narrativas e a infraestrutura das redes: o desafio do campo progressista

Foto: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN

Convidados do Vozes pela Democracia 125 alertam que ocupar as redes sociais é fundamental, mas defendem que a democracia depende também da regulação das plataformas, da transparência dos algoritmos e do fortalecimento da comunicação popular.

A crescente influência das plataformas digitais nos processos políticos foi tema da edição 125 do Vozes pela Democracia, programa do FNDC produzido pela rádio e tv web Atitude Popular. Com o tema “Vencer nas redes é vencer nas urnas?”, a conversa reuniu o criador de conteúdo e pesquisador Thiago Guimarães (Ora Thiago) e o jornalista e produtor audiovisual Lucas Galdino (podcast Ter.a.pia) para refletir sobre o papel das redes sociais na disputa política contemporânea.

Embora reconheçam que as plataformas digitais se tornaram um espaço decisivo para circulação de informações, formação de opinião e mobilização social, ambos defenderam uma visão crítica sobre a centralidade atribuída às redes sociais nos processos eleitorais.

Para Lucas Galdino, o campo democrático e progressista precisou reconhecer, ainda que tardiamente, a importância estratégica desses ambientes digitais. Ele reforçou a necessidade de uma atuação contínua dos setores democráticos no ambiente digital. “A gente não pode agir só no desespero das eleições. Tem que criar realmente uma rede e manter essa discussão todos os dias e todos os anos. O outro lado está muito bem articulado e não começou agora”, afirmou.

“A gente não pode agir só no desespero das eleições. Tem que criar realmente uma rede e manter essa discussão todos os dias e todos os anos. O outro lado está muito bem articulado e não começou agora”

Lucas Galdino

A avaliação foi feita a partir da crescente presença de lideranças políticas, influenciadores e comunicadores nas campanhas eleitorais, fenômeno que ganhou força nos últimos anos. Segundo Galdino, as redes sociais passaram a desempenhar um papel central na construção de identidades políticas e na disputa de narrativas, exigindo organização permanente por parte dos setores comprometidos com a democracia.

O digital é importante, mas não resolve tudo

Durante a conversa, Thiago Guimarães chamou atenção para uma leitura que considera simplificadora: a ideia de que o desempenho nas redes sociais, por si só, determina resultados eleitorais. Segundo ele, o ambiente digital deve ser compreendido como parte de um ecossistema político mais amplo, que envolve organizações sociais, sindicatos, movimentos populares, igrejas, territórios, grupos comunitários e formas tradicionais de mobilização.

“O digital não é uma entidade autônoma. Ele se intercala com muitas outras formas de articulação política. O que a gente vê são experiências que combinam presença digital com outras frentes de mobilização”.

Thiago Guimarães
Thiago Guimarães/Divulgação

O pesquisador observou que diversas candidaturas conseguiram transformar sua relevância digital em votos, mas lembrou que houve também inúmeros casos de influenciadores e personalidades com milhões de seguidores que fracassaram eleitoralmente. Para ele, esse cenário demonstra que alcance e engajamento nas plataformas não podem ser confundidos automaticamente com capacidade de organização política ou apoio social efetivo.

Ausência de transparência das plataformas

Um dos pontos mais relevantes da conversa foi a crítica à falta de transparência das big techs. Thiago destacou que os dados utilizados para medir alcance, visualizações e engajamento nas redes sociais pertencem às próprias plataformas e não podem ser auditados de forma independente pela sociedade. “Estamos tomando decisões importantes sobre comunicação e mobilização política com base em métricas que não sabemos exatamente como são produzidas”, afirmou.

Na avaliação do comunicador, essa opacidade dificulta a compreensão real do impacto das redes sociais sobre o comportamento político da população. Ele lembrou ainda que empresas como Meta, Google e outras gigantes do setor não têm como objetivo principal garantir pluralidade informativa ou fortalecer processos democráticos. “São plataformas de publicidade. O interesse principal delas é lucro, marketing digital e extração de dados.”

“Estamos tomando decisões importantes sobre comunicação e mobilização política com base em métricas que não sabemos exatamente como são produzidas”

Thiago Guimarães

Regulação das plataformas e soberania digital

A necessidade de regulamentação das plataformas digitais também ocupou posição central na conversa. Os participantes defenderam mecanismos públicos de transparência, responsabilização e controle democrático sobre empresas que hoje concentram boa parte da circulação de informações no mundo.

A reflexão ganha relevância diante do crescente poder das big techs sobre a comunicação, o acesso à informação e até mesmo sobre o funcionamento de instituições democráticas. Na avaliação dos convidados, a democratização da comunicação no século 21 passa necessariamente pela discussão sobre algoritmos, coleta de dados, moderação de conteúdos e concentração econômica no ambiente digital. Também foi levantada a necessidade de ampliar a soberania tecnológica e reduzir a dependência brasileira de plataformas estrangeiras.

Lucas Galdino/Divulgação

Disputar a comunicação e sua infraestrutura

Ao longo da conversa, os convidados convergiram na avaliação de que o desafio democrático contemporâneo vai além da simples ocupação das redes sociais. A presença nos ambientes digitais é indispensável, mas precisa estar articulada a formas permanentes de organização política e social.

Nesse sentido, Thiago Guimarães defendeu que a democratização da comunicação exige não apenas disputar conteúdos e narrativas, mas também questionar as regras que estruturam o funcionamento das plataformas. “A gente precisa disputar não apenas a narrativa, mas a infraestrutura onde essa narrativa é construída.”

O criador de conteúdo chamou atenção para o poder concentrado nas grandes plataformas digitais, que controlam algoritmos, critérios de distribuição de conteúdo e mecanismos de monetização sem transparência adequada ou controle social. Para ele, avançar na regulação das Big Techs e construir alternativas mais democráticas para circulação de informação tornou-se uma tarefa estratégica para quem defende o interesse público.

“A gente precisa disputar não apenas a narrativa, mas a infraestrutura onde essa narrativa é construída.”

Thiago Guimarães

A conversa reforçou que as redes sociais ocupam hoje um papel central na disputa política, mas que seu funcionamento está longe de ser neutro. Mais do que buscar vitórias eleitorais imediatas, os participantes apontaram a necessidade de enfrentar questões estruturais, como a concentração de poder nas big techs, a falta de transparência dos algoritmos, a valorização da mídia independente e a construção de uma comunicação efetivamente democrática.

Fim da escala 6×1 é uma conquista histórica da classe trabalhadora

Foto: Elineudo Meira/Brasil de Fato

Após anos de pressão de sindicatos, movimentos sociais e trabalhadores de todo o país, PEC aprovada por ampla maioria reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, e reforça o papel da democracia na conquista de direitos.

A aprovação da PEC que acaba com a escala 6×1 pelo Senado Federal, nesta quarta-feira (14), representa uma conquista histórica alcançada graças à articulação do governo e à mobilização dos trabalhadores, das centrais sindicais e dos movimentos sociais que, ao longo dos últimos anos, mantiveram pressão permanente sobre o Congresso Nacional em defesa da redução da jornada de trabalho sem redução salarial. A proposta foi aprovada em dois turnos por ampla maioria, com 75 votos favoráveis e apenas um contrário.

A sensibilidade do governo para o tema também foi fundamental para a conquista. O movimento pelo fim da escala 6×1 surgiu a partir da atuação do ex-balconista de farmácia, ativista e deputado federal eleito Rick Azevedo, que criou o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) nas redes sociais. A adesão ao movimento ganhou força com o apoio da deputada federal Erika Hilton, que ampliou sua visibilidade, culminando com a articulação do governo para sua aprovação no Congresso Nacional.

Pelo texto aprovado, a jornada máxima semanal será reduzida das atuais 44 para 40 horas. A PEC também garante dois dias de descanso remunerado por semana, sendo um deles preferencialmente aos domingos, sem diminuição dos salários. A implementação ocorrerá de forma gradual: dois meses após a promulgação, a jornada cairá para 42 horas semanais; um ano depois, será concluída a redução para 40 horas.

“Somente na democracia a classe trabalhadora pode se organizar, se mobilizar e pressionar por conquistas como essa”

Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC

A proposta altera a Constituição Federal e encerra a chamada escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua durante seis dias consecutivos para ter apenas um de descanso. Segundo as regras aprovadas, o novo regime busca ampliar o tempo destinado ao convívio familiar, ao lazer, à educação e ao descanso, preservando integralmente a remuneração dos empregados.

A votação no Senado coroa uma campanha nacional que reuniu sindicatos, entidades populares e o movimento VAT, além de milhares de trabalhadores em atos públicos realizados em diversas cidades do país. A pressão social foi apontada por diferentes organizações como fator decisivo para a tramitação e aprovação da matéria. O próprio Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) havia destacado anteriormente que “a mobilização da classe trabalhadora surtiu efeito” na aprovação da proposta em etapas anteriores de sua tramitação.

Para a coordenadora-geral do FNDC, Katia Marko, a conquista também reforça a importância da democracia para o avanço dos direitos sociais. “Somente na democracia a classe trabalhadora pode se organizar, se mobilizar e pressionar por conquistas como essa”, afirmou a dirigente. Em manifestações recentes sobre o tema, Marko também destacou que a união dos trabalhadores foi capaz de fazer prevalecer seus interesses diante de setores historicamente resistentes à redução da jornada de trabalho.

Com informações da Agência Senado

Redes sociais e ações judiciais ampliam cerco a vozes críticas e comunicadores progressistas

Censura/Magnific

Da Mídia NINJA ao FONASEFE, passando por sindicatos e entidades de servidores públicos, multiplicam-se denúncias de remoções, bloqueios e restrições a conteúdos críticos durante o período eleitoral, reacendendo o debate sobre censura, liberdade de expressão e o poder das plataformas digitais.

A sucessão de bloqueios, remoções de conteúdo, suspensões de contas e decisões que restringem a circulação de publicações críticas à extrema direita reforça um grave alerta para a democracia brasileira. Nas últimas semanas, jornalistas, veículos independentes, sindicatos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil, além da campanha do presidente Lula, passaram a denunciar uma escalada de medidas que têm em comum um mesmo efeito: limitar a circulação de informações, análises e posicionamentos políticos divergentes em um momento decisivo da disputa eleitoral.

Para se ter ideia, somente a organização CTRL+Z reuniu 1.121 denúncias envolvendo Instagram, Facebook e WhatsApp. Embora os episódios apresentem características distintas, envolvendo tanto plataformas digitais quanto decisões judiciais, o resultado é preocupante. Em diferentes frentes, cresce o número de comunicadores, entidades e veículos que relatam remoções de conteúdo, bloqueio de publicações, suspensão de perfis e restrições de alcance sem transparência adequada, justificativas claras ou mecanismos efetivos de contestação.

Em uma democracia, combater a desinformação é uma necessidade legítima. Mas a defesa da integridade informacional não pode servir de pretexto para silenciar vozes críticas, restringir o pluralismo político ou entregar a grandes plataformas privadas e estruturas judiciais um poder praticamente sem controle sobre a circulação de informações de interesse público.

Lula, Janja e Janones censurados

Nos últimos dias, decisões dos ministros Kássio Nunes Marques e André Mendonça, em ações movidas pela campanha de Flávio Bolsonaro, determinaram a retirada de publicações dos perfis de Lula, Janja, André Janones e Lindbergh Farias. As medidas se somaram a outra controvérsia envolvendo a comunicação digital do campo progressista: a suspensão do canal “Exército do Lula”, coordenado por Janones.

No caso do canal, a decisão de Nunes Marques foi revertida horas depois pelo corregedor eleitoral Ricardo Villas Bôas Cueva, que citou a necessidade de evitar restrições excessivas à liberdade de expressão, mas, nesta terça (13/10), o presidente do TSE voltou a determinar a retirada do canal até sua regularização perante a Justiça Eleitoral.

Para organizações que acompanham o tema, a combinação entre remoções determinadas pela Justiça Eleitoral e restrições impostas por plataformas privadas reforça a necessidade de ampliar o debate sobre liberdade de expressão, pluralismo político e controle democrático dos ambientes digitais.

Fonasefe denuncia censura e ataque ao movimento sindical organizado

A ofensiva também atingiu entidades representativas dos servidores públicos. O Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais (Fonasefe) denunciou que teve 13 publicações removidas após decisão do TSE decorrente de ação movida pela candidatura de Flávio Bolsonaro.

As publicações abordavam impactos de políticas governamentais sobre os serviços públicos e os direitos dos servidores. Segundo o Fórum, todo o material se baseava em reportagens da imprensa, fatos públicos e declarações dos próprios integrantes da campanha bolsonarista. Em nota, a entidade classificou a medida como censura e afirmou que a decisão compromete o debate democrático ao impedir a circulação de informações de interesse público produzidas por organizações da sociedade civil.

Para dirigentes sindicais, o episódio não representa apenas um ataque a uma entidade específica, mas ao próprio movimento sindical organizado e à sua capacidade histórica de informar, mobilizar e participar do debate público.

Segundo Diego Marques, presidente do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN), “Nenhuma das postagens do Fonasefe fazia pedido de voto. Além disso, o FONASEFE não tem CNPJ, não tem personalidade jurídica. Portanto, sua manifestação não viola nenhum termo da legislação eleitoral. O que está acontecendo é simplesmente censura. Flávio Bolsonaro em conluio com o judiciário, com a Meta e big techs, não quer que os eleitores saibam a verdade.”

Para o Fonasefe, a decisão cria um precedente perigoso ao limitar a atuação política e comunicacional de entidades representativas durante um dos momentos mais importantes da vida democrática.

“Nenhuma das postagens do Fonasefe fazia pedido de voto. Além disso, o FONASEFE não tem CNPJ, não tem personalidade jurídica. Portanto, sua manifestação não viola nenhum termo da legislação eleitoral. O que está acontecendo é simplesmente censura. Flávio Bolsonaro em conluio com o judiciário, com a Meta e big techs, não quer que os eleitores saibam a verdade.”

Diego Marques, presidente do ANDES-SN

APD denuncia suspensão sem transparência

Entre os episódios mais recentes está a suspensão do perfil da Advogadas e Advogados Públicos para a Democracia (APD) na plataforma X. A entidade vinha publicando vídeos com posicionamento crítico à candidatura de Flávio Bolsonaro, exercendo direitos constitucionalmente assegurados de liberdade de expressão e livre manifestação do pensamento. De acordo com a organização, “em nenhum momento houve acusação de propaganda irregular ou violação da legislação eleitoral”.

Ainda assim, a conta foi suspensa sob a alegação genérica de “comportamento não autêntico”. A plataforma não apresentou informações concretas sobre quais conteúdos ou condutas teriam motivado a punição. O bloqueio ocorreu justamente quando a associação ampliava sua participação no debate público sobre os rumos do país. Para a APD, o episódio não pode ser analisado isoladamente. A suspensão soma-se a uma sequência de denúncias envolvendo restrições a conteúdos progressistas e críticos ao campo da extrema direita em diferentes plataformas digitais.

Jornalistas e veículos independentes na mira

O caso da APD se insere em um contexto mais amplo de ofensivas contra comunicadores e veículos identificados com o campo democrático-popular. Nas últimas semanas, ganhou repercussão uma ação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por aliados de Flávio Bolsonaro que questiona conteúdos publicados por jornalistas e veículos progressistas.

Segundo informações divulgadas pela Revista Fórum e pelo Brasil 247, entre os perfis e conteúdos atingidos pelos pedidos de remoção estão a jornalista Laís Gouveia, a Mídia NINJA e o Pragmatismo Político. Em manifestação pública, Laís Gouveia denunciou que jornalistas, influenciadores e comunicadores críticos à candidatura bolsonarista estariam sendo alvo de uma estratégia de judicialização voltada a retirar conteúdos do ar durante o período eleitoral.

Mais do que controvérsias jurídicas específicas, os episódios revelam uma tendência preocupante: a utilização crescente de mecanismos de remoção de conteúdos políticos como instrumento de disputa eleitoral.

Mídia NINJA denuncia bloqueios e falta de transparência

Outro caso emblemático foi denunciado pela Mídia NINJA. Segundo levantamento do observatório De Olho na Censura, uma reportagem produzida pelo veículo passou a ficar inacessível para usuários brasileiros no Instagram. Ao tentarem visualizar o conteúdo, usuários recebiam uma mensagem informando que a publicação estava restrita em razão da legislação eleitoral.

O problema é que não havia qualquer transparência sobre qual trecho da matéria supostamente violaria a legislação, qual norma teria sido aplicada ou mesmo se a restrição decorria de determinação judicial específica. A situação tornou-se ainda mais grave quando uma segunda publicação, criada justamente para informar o público sobre a restrição sofrida pela reportagem original, também passou a encontrar limitações na plataforma.

O episódio expõe um dos principais problemas da moderação contemporânea: usuários têm seus conteúdos bloqueados sem explicações suficientes para compreender, contestar ou recorrer das decisões.

Sindicato dos petroleiros também sofre restrições

Outro episódio que gerou forte reação ocorreu com o Sindipetro Unificado. A pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE determinou a suspensão da circulação de uma edição do jornal produzido pelo sindicato dos petroleiros.

A medida foi amplamente criticada por entidades sindicais e organizações ligadas ao direito à comunicação, que alertaram para os riscos de restringir a circulação de conteúdos políticos e informativos produzidos por organizações de trabalhadores.

Independentemente do debate jurídico sobre o caso concreto, a decisão amplia a preocupação com a crescente utilização de mecanismos de restrição à comunicação sindical e popular durante o processo eleitoral.

FENAJ alerta para derrubadas de perfis

As denúncias não se restringem aos episódios recentes. A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) já havia manifestado preocupação com o aumento de bloqueios e derrubadas de perfis ligados ao jornalismo independente e alternativo nas plataformas da Meta.

A entidade alertou para os impactos dessas medidas sobre o pluralismo informativo e para a concentração de poder nas mãos de empresas privadas capazes de definir quais conteúdos podem alcançar ou não milhões de pessoas.

Quando plataformas passam a desempenhar papel central na mediação do debate público sem mecanismos efetivos de transparência e responsabilização, toda a sociedade sofre as consequências.

O problema é político e democrático

Cada um desses episódios possui especificidades. Alguns decorreram de decisões judiciais. Outros partiram diretamente de plataformas digitais. Mas existe um elemento comum que não pode ser ignorado: a crescente concentração de poder sobre a circulação da informação nas mãos de poucos atores capazes de decidir o que permanece visível, o que desaparece e quem pode participar do debate público.

Quando jornalistas independentes, movimentos sociais, sindicatos, entidades da sociedade civil, comunicadores populares e organizações progressistas passam a relatar repetidamente remoções, bloqueios e suspensões, o problema deixa de ser individual.

O que está em jogo é a própria arquitetura democrática da comunicação.

O direito à informação, à crítica política e à liberdade de expressão não pode ficar subordinado a decisões opacas de algoritmos, interesses corporativos de gigantes tecnológicas ou mecanismos que dificultem o contraditório e a ampla defesa.

Democratizar a comunicação e regular as plataformas é defender a democracia

Os episódios recentes reforçam uma constatação já apontada há anos por organizações que lutam pela democratização da comunicação: as plataformas digitais exercem hoje um poder político e informacional sem precedentes, sem que existam mecanismos democráticos proporcionais de transparência e controle social. Regulamentar a atuação dessas empresas não significa restringir a liberdade de expressão. Ao contrário, significa criar garantias para proteger a pluralidade de vozes, assegurar direitos e impedir que poucas corporações privadas concentrem poder excessivo sobre o debate público.

Sem transparência, sem mecanismos robustos de recurso e sem controle democrático, esse poder representa uma ameaça concreta ao pluralismo de ideias e à diversidade de vozes necessárias para qualquer democracia. Defender a integridade da informação e combater a desinformação são objetivos legítimos. Mas nenhuma política de moderação pode se transformar em instrumento de silenciamento político.

A democracia exige pluralidade, dissenso e liberdade para a crítica. Sempre que conteúdos jornalísticos, sindicais, acadêmicos ou políticos são removidos sem transparência e sem garantias adequadas, acende-se um sinal de alerta que não pode ser ignorado por quem defende o direito à comunicação como um direito fundamental.


Com informações de: CTRL+Z, De Olho na Censura, FENAJ, Revista Fórum, Brasil 247, Folha de S.Paulo, Mídia NINJA, Fonasefe, ANDES-SN, Advogadas e Advogados Públicos para a Democracia (APD), G1 e SBT News.

Projeto de extinção do CNDH aprofunda ofensiva contra direitos, comunicação pública e participação social

Foto: Pedro França/Agência Senado

Após mais de seis décadas de trajetória, conselho criado para acompanhar violações de direitos humanos pode ser extinto por projeto que transfere suas atribuições ao governo federal e reduz a participação da sociedade civil na fiscalização do Estado.

O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) é uma conquista da sociedade brasileira que demorou quase meio século para se consolidar por meio da Lei nº 12.986/2014. Agora, 12 anos após sua criação, corre o risco de ser extinto por iniciativa do deputado Capitão Augusto (PL-SP), autor do PL 1013/2026.

Pela proposta, as funções do CNDH seriam absorvidas pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, enquanto denúncias passariam a ser tratadas por outros órgãos federais. O projeto integra uma série de iniciativas legislativas voltadas à extinção de órgãos públicos e entidades federais e já motivou reação de entidades como o Conselho Nacional de Saúde (CNS), que classificou a medida como um retrocesso para a participação social e para a democracia.

“Trata-se de um conjunto de iniciativas que enfraquece instrumentos de garantia de direitos e reduz a presença da sociedade civil nos processos decisórios”, alerta Tadeu Porto, secretário de Comunicação do FNDC e secretário-adjunto de Comunicação da CUT Brasil, entidade eleita para representar os trabalhadores no CNDH.

“Trata-se de um conjunto de iniciativas que enfraquece instrumentos de garantia de direitos e reduz a presença da sociedade civil nos processos decisórios”

Tadeu Porto

Ao extinguir a autonomia do CNDH e transferir suas atribuições ao guarda-chuva ministerial, o PL promove um apagamento da participação social, silenciando frentes como a Comissão Permanente de Direito à Comunicação e à Liberdade de Expressão, da qual o FNDC faz parte e tem importante atuação no combate aos discursos de ódio e aos monopólios midiáticos.

Para o FNDC, o desmantelamento de um órgão paritário como o CNDH não é apenas burocracia administrativa, mas um grave retrocesso que atropela os Princípios de Paris da ONU e submete a fiscalização das garantias fundamentais ao humor político do governo de turno.

A coordenadora-geral do FNDC, Katia Marko, avalia que, “na prática, a proposta deforma o legado de meio século de lutas democráticas, trancafiando a sociedade civil do lado de fora dos debates e deixando o controle das violações de direitos humanos sob o monopólio e a conveniência do próprio Estado”.

“na prática, a proposta deforma o legado de meio século de lutas democráticas, trancafiando a sociedade civil do lado de fora dos debates e deixando o controle das violações de direitos humanos sob o monopólio e a conveniência do próprio Estado”

Katia Marko

Para Admirson Ferro Jr., representante do FNDC no CNDH, o projeto faz parte de uma ofensiva contra mecanismos de participação social construídos ao longo das últimas décadas. “O Conselho Nacional de Direitos Humanos resistiu aos governos Temer e Bolsonaro, mantendo uma defesa intransigente dos direitos humanos. Sua extinção representa uma tentativa de enfraquecer espaços fundamentais de controle social e de formulação de políticas públicas”, afirma.

“O Conselho Nacional de Direitos Humanos resistiu aos governos Temer e Bolsonaro, mantendo uma defesa intransigente dos direitos humanos. Sua extinção representa uma tentativa de enfraquecer espaços fundamentais de controle social e de formulação de políticas públicas”

Admirson Ferro Jr.

A sociedade civil fora da mesa de decisões

Ao longo das últimas décadas, conselhos, conferências nacionais e órgãos colegiados passaram a funcionar como pontes entre governo e sociedade civil, permitindo que populações historicamente excluídas dos espaços de poder participassem da formulação e fiscalização de políticas públicas. Para entidades sociais, iniciativas que esvaziam ou extinguem esses espaços representam uma redução da capacidade de controle democrático sobre o próprio Estado.

Uma luta de meio século

Criado em 1964 como Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), foi reformulado pela Lei nº 12.986 e transformado no CNDH, adotando uma composição paritária entre Estado e sociedade civil e alinhando-se aos Princípios de Paris da ONU, que orientam a atuação de instituições nacionais de direitos humanos independentes.

Durante o governo Jair Bolsonaro, o conselho posicionou-se contra medidas de enfraquecimento dos mecanismos de participação social, reforçando seu papel como instância de monitoramento de violações de direitos humanos.

Outras propostas de extinção

O deputado Capitão Augusto apresentou, ao longo de março de 2026, uma série de projetos com o objetivo de extinguir a Ancine, a EBC, o Incra, o Dnocs, a Conab e o Iphan, entre outros órgãos ligados à cultura, à comunicação pública, aos direitos sociais e à formulação de políticas públicas.

“Vivemos um momento marcado pelo avanço de discursos de ódio, pelo crescimento do extremismo e pela concentração de poder nas plataformas digitais. Temas como regulação das big techs, inteligência artificial, reconhecimento facial, direitos dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, da população LGBTQIA+ e a própria defesa da democracia fazem parte da agenda do CNDH. Por isso, a tentativa de extinguir o conselho não é casual: ela atinge justamente um dos espaços mais ativos na defesa dos direitos humanos no país”, avalia Admirson Ferro Jr..

“A tentativa de extinguir o conselho não é casual: ela atinge justamente um dos espaços mais ativos na defesa dos direitos humanos no país”

Admirson Ferro Jr.

>> Leia o projeto na íntegra

Ato de posse dos membros do biênio 2024-2026 também marcou os 76 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foto: Clarice Castro/MDH

Proposta de extinção da Ancine reacende ameaça bolsonarista à cultura

Foto: Renato Araújo/Agência Brasil

Projeto de lei apresentado na Câmara dos Deputados propõe extinguir a Agência Nacional do Cinema e transferir suas atribuições para o Ministério da Cultura. A iniciativa enfrenta ampla rejeição e é mais um ataque do bolsonarismo à cultura brasileira.

O Projeto de Lei nº 994/2026, de autoria do deputado Capitão Augusto (PL-SP), propõe extinguir a Agência Nacional do Cinema (Ancine), criada em 2001 para fomentar, regular e fiscalizar a atividade audiovisual no país. Pelo texto, as atribuições atualmente exercidas pela agência seriam transferidas para uma secretaria a ser criada no âmbito do Ministério da Cultura. O projeto também prevê a transferência da gestão de recursos vinculados ao audiovisual, do patrimônio da autarquia e de seus processos administrativos.

A proposta, apresentada em março na Câmara dos Deputados, voltou à agenda das organizações do setor depois do primeiro turno da eleição, que deu à extrema direita uma força sem precedentes na próxima legislatura parlamentar. O temor é de que a eleição de Flávio Bolsonaro (PL-SP) no segundo turno reforce ainda mais o risco de aprovação da matéria.

Capitão Augusto, aliás, também apresentou outros oito projetos de lei propondo, cada um, a extinção de órgãos e entidades como a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), entre outros.

A proposta, por óbvio, já é alvo de denúncia e resistência por parte do setor empresarial e de organizações de trabalhadores e de defesa da cultura. Só para citar um exemplo, a enquete pública disponível na página do projeto na Câmara dos Deputados registra um resultado parcial de mais de 100 mil manifestações de discordância total em relação à iniciativa, correspondendo a 99% das participações contabilizadas até o momento.

“Sabemos que a extrema direita odeia a cultura e a comunicação que não a enaltecem. Seguimos, desde já, mobilizados e articulados com as organizações da sociedade civil que vão resistir ao pior Congresso da nossa história para fazer resistência. Não nos calaremos!”.

Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC

Muito além do financiamento

Na justificativa do PL, Capitão Augusto argumenta que a Ancine teria se tornado uma estrutura administrativa onerosa, marcada por problemas de transparência e por resultados insuficientes diante dos recursos empregados. O texto também sustenta que as funções da agência poderiam ser desempenhadas de forma mais eficiente por uma secretaria ministerial, reduzindo custos administrativos. Especialistas, gestores, agentes e trabalhadores do setor desmentem essa avaliação e alertam para os riscos de desmonte de uma política pública construída ao longo de mais de duas décadas.

A discussão em torno da Ancine não se limita ao financiamento de filmes e séries. A agência exerce atribuições regulatórias que envolvem fiscalização do mercado audiovisual, monitoramento de plataformas digitais, implementação de políticas de conteúdo nacional, acompanhamento de fundos setoriais e combate à pirataria.

A própria Ancine define sua missão institucional como a promoção de um ambiente regulatório equilibrado e o desenvolvimento do setor audiovisual brasileiro “em benefício da sociedade”. Entre seus objetivos estão a ampliação e democratização do acesso à cultura, a valorização da produção nacional e a promoção da diversidade de conteúdos audiovisuais.

Também integram as atribuições da agência temas centrais para a soberania audiovisual brasileira, como a regulamentação de serviços de vídeo sob demanda, a produção de informações sobre o mercado audiovisual e a implementação de instrumentos de proteção ao conteúdo nacional em um cenário cada vez mais dominado por plataformas globais de streaming.

Por essa razão, extinguir a agência não significaria apenas eliminar uma estrutura administrativa, mas desmontar uma institucionalidade responsável pela formulação e execução de políticas públicas estratégicas para a cultura e para a comunicação.

Dados econômicos contestam argumento de baixa efetividade

Outro ponto contestado diz respeito à alegação de que os recursos destinados ao audiovisual não produziriam resultados proporcionais para a sociedade.

Estudo da Oxford Economics, encomendado pela Motion Picture Association (MPA), estimou que a indústria audiovisual brasileira gerou R$ 70,2 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2024, sustentou 608.970 empregos e respondeu por R$ 9,9 bilhões em arrecadação tributária. O levantamento também apontou que os trabalhadores do setor recebem, em média, remuneração 84% superior à média nacional.

Dados mais recentes divulgados por estudo da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e da Universidade Federal Fluminense (UFF) indicam que o audiovisual movimentou R$ 81,1 bilhões na economia brasileira em 2025. Segundo o levantamento, cada R$ 10 milhões investidos no setor geram aproximadamente R$ 18,3 milhões em atividade econômica.

Ao comentar os resultados do estudo da Oxford Economics para a Veja, o presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (SIAESP), André Sturm, destacou a relevância estratégica da atividade. “É um trabalho que requer experiência, história e conhecimento. São fatores importantes, inclusive, para justificar políticas públicas de fomento ao audiovisual.”

Transparência e fiscalização

A justificativa do projeto cita críticas históricas formuladas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) quanto à governança da agência. De fato, auditorias do tribunal apontaram, ao longo dos anos, problemas relacionados à concentração de recursos e à morosidade na análise de projetos.

Contudo, a própria agência afirma ter promovido mudanças significativas em seus mecanismos de controle. Em março de 2026, a Ancine informou que o programa “Malha Fina Ancine”, desenvolvido em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU), resolveu 92% do passivo histórico de prestações de contas acumulado pelo setor audiovisual. Segundo a agência, o modelo foi reconhecido pelo próprio TCU como boa prática de gestão pública.

Ao comentar os resultados da iniciativa, o diretor-presidente da agência, Alex Braga, declarou que “Era um problema histórico que atravancava e até mesmo paralisava o setor. Escolhemos enfrentá-lo pelo diálogo, pela cooperação e pela técnica. O resultado é a devolução de segurança e confiança a quem aposta no audiovisual brasileiro.”

O que o projeto não explica

Análises produzidas após a apresentação do PL apontam que a proposta transfere as atribuições da Ancine para o Ministério da Cultura, mas não detalha como seriam mantidas funções técnicas atualmente desempenhadas pela autarquia. Entre elas estão a operação do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), a fiscalização da Condecine, o acompanhamento da execução de projetos, a prestação de contas e diversos procedimentos regulatórios relacionados ao mercado audiovisual.

Também não são apresentados os critérios utilizados para sustentar a estimativa de economia de 40% nas despesas administrativas mencionada na justificativa do projeto.

Política cultural e democracia

Para entidades e movimentos que atuam na defesa da cultura, da comunicação pública e da democratização dos meios, o debate ultrapassa questões de gestão administrativa.

A existência de uma agência especializada é vista como instrumento de garantia da diversidade cultural, da presença do conteúdo brasileiro nas telas e da capacidade do Estado de formular políticas públicas para um setor estratégico da economia criativa. Em um cenário de crescente concentração global do mercado audiovisual, a discussão sobre o futuro da Ancine também envolve temas como soberania cultural, pluralidade de vozes e fortalecimento da produção nacional.

Nesse contexto, o PL 994/2026 recoloca em disputa não apenas o desenho institucional da política audiovisual brasileira, mas o próprio papel do Estado na promoção da cultura e da comunicação como direitos da sociedade.

Um histórico de ataques

O PL 994/2026 não é a primeira iniciativa voltada à extinção ou ao esvaziamento institucional da Ancine. Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, a agência foi alvo de sucessivas ameaças de extinção e de propostas para reduzir sua autonomia administrativa.

Em julho daquele ano, Bolsonaro declarou que o governo pretendia impor “filtros culturais” às produções audiovisuais apoiadas por recursos públicos e afirmou que, caso isso não fosse possível, a agência poderia ser extinta. “Vai ter um filtro sim. Já que é um órgão federal, se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine. Privatizaremos, passarei ou extinguiremos.”

Dias depois, o então presidente voltou ao tema e foi ainda mais explícito: “Vamos buscar a extinção da Ancine. Não tem nada que o poder público tenha que se meter a fazer filme.”

Na ocasião, o governo também defendia transferir a sede da agência para Brasília e estudava transformá-la em uma secretaria subordinada ao Poder Executivo. As declarações provocaram forte reação de cineastas, artistas e instituições ligadas ao audiovisual.

Defesa da comunicação e da soberania audiovisual

Para o FNDC, a tentativa de extinguir a Ancine ultrapassa um debate meramente administrativo. Trata-se de uma iniciativa que ameaça instrumentos construídos ao longo de décadas para garantir diversidade cultural, fortalecimento da produção nacional, regionalização dos investimentos e soberania comunicacional.

Em um contexto em que o audiovisual brasileiro demonstra crescente relevância econômica, capacidade de geração de emprego e reconhecimento internacional, propostas de desmonte institucional tendem a enfraquecer a capacidade do Estado de formular políticas públicas para um setor estratégico da cultura e da comunicação nacional.

Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, avalia a ameaça à Ancine e à EBC no contexto da próxima legislatura como um dos piores ataques ao direito à comunicação e à cultura. “Sabemos que a extrema direita odeia a cultura e a comunicação que não a enaltecem. Seguimos, desde já, mobilizados e articulados com as organizações da sociedade civil que vão resistir ao pior Congresso da nossa história para fazer resistência. Não nos calaremos!”.

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Com informações da Câmara dos Deputados, Oxford Economics, Motion Picture Association (MPA), Mídia Ninja, VEJA, Agência Brasil, Ancine e TCU.

Congresso dominado pela extrema direita alerta para riscos à EBC e à comunicação pública

Proposta de extinção da empresa apresentada na Câmara dos Deputados recoloca em pauta uma agenda iniciada com o esvaziamento da EBC no governo Temer e aprofundada durante o governo Bolsonaro.

A legislatura que se inicia a partir de primeiro de janeiro de 2027 põe em alerta toda a sociedade pelo seu potencial nocivo à manutenção de direitos e avanços obtidos com muita luta política e consolidados na Constituição Federal. No campo do direito à comunicação, uma das ameaças mais urgentes é a extinção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

O PL 995/26, de autoria do deputado Capitão Augusto (PL-SP), propõe extinguir a EBC, autoriza a liquidação de seus ativos e altera a Lei 11.652/08, que autorizou a criação da estatal pelo Executivo e instituiu os princípios e objetivos da comunicação pública.

Apresentado à Mesa Diretora da Câmara em março deste ano, o PL extingue a EBC, determina a devolução das frequências de rádio e televisão atualmente operadas pela estatal à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a demissão dos empregados da estatal.

O autor também apresentou projetos que extinguem a Agência Nacional do Cinema – Ancine (PL 994/2026), o Conselho Nacional de Direitos Humanos CNDH (PL 1013/2026) e outros seis órgãos: INCRA (PL 1001/2026), DNOCS (PL 1002/2026), CONAB (PL 1005/2026), IPHAN (PL 1007/2026), CNPCP (PL 1009/2026) e Codevasf (PL 1015/2026).

As justificativas para a extinção desses órgãos utilizam uma estrutura argumentativa semelhante: redução dos gastos públicos, racionalização institucional, transferência de competências para ministérios e extinção de estruturas autônomas consideradas desnecessárias.

Com relação à EBC, os argumentos não são novidade: baixa audiência, alto custo operacional e a alegação de que o acesso à informação pública poderia ser garantido por outros meios, como portais governamentais e parcerias com emissoras educativas.

Renata Maffezoli, secretária de Políticas Públicas do FNDC, rebate as razões. “A EBC existe para cumprir o princípio constitucional da complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de comunicação e garantir acesso à informação plural e diversa”. Ela lembra que a lógica da comunicação pública não é competir com os grandes veículos de comunicação comerciais por audiência, nem fazer propaganda das ações do governo do momento, mas cumprir funções constitucionais de pluralidade informativa, diversidade cultural e interesse público.

“A EBC existe para cumprir o princípio constitucional da complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de comunicação e garantir acesso à informação plural e diversa”

Renata Maffezoli

A EBC é cara?

Renata também contrapõe a ideia de que a EBC “é cara”. A coordenadora lembra, inclusive, que uma moção aprovada pela 26ª Plenária Nacional do FNDC, no ano passado, alertava o governo federal para a necessidade de recomposição do orçamento da empresa pública.

Em artigo publicado na revista Eptic em 2020, o pesquisador Octavio Pieranti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), já rebatia o argumento utilizado pela direita de que a EBC onera os cofres públicos. Segundo ele, o orçamento total previsto entre 2008 e 2018 era de R$ 5,7 bilhões. No mesmo período, o orçamento anual médio executado foi de aproximadamente R$ 495 bilhões.

Desde então, a destinação de recursos vem caindo. A própria EBC informou que o orçamento discricionário previsto para 2027 é de R$ 207,9 milhões, o maior desde 2017. Esse é o montante disponível para contratos, tecnologia, manutenção, operação e investimentos, excluindo despesas obrigatórias como pessoal. “Um valor muito abaixo do R$ 700 milhões que o Capitão Augusto usa para justificar sua proposta”, observa Renata.

O terceiro argumento do autor da proposta de extinção da EBC é o de que o acesso à informação pública pode ser garantido por outros meios.

Nesse ponto, a secretária-geral do FNDC, Helena Martins, ressalta que o serviço prestado pela EBC não serve nem ao governo e nem ao mercado. Ela lembra que a comunicação pública e a EBC, especificamente, existem justamente para garantir esse espaço de informação pública prevista na Constituição. “A EBC existe porque a sociedade precisa de um espaço de comunicação que não seja nem governamental nem comercial. Substituí-la por portais oficiais ou por contratos com veículos privados significa enfraquecer o próprio conceito de comunicação pública”, afirma Helena.

A EBC existe porque a sociedade precisa de um espaço de comunicação que não seja nem governamental nem comercial. Substituí-la por portais oficiais ou por contratos com veículos privados significa enfraquecer o próprio conceito de comunicação pública”

Helena Martins

Resistência

Katia Marko, coordenadora-geral do FNDC, lembra que as ameaças à EBC e à comunicação pública não são uma novidade e que o movimento pela democratização da comunicação está atento e articulado para denunciar e resistir.

Em 2016, uma das primeiras medidas do governo Temer foi intervir na governança da empresa, extinguindo o Conselho Curador da EBC e o mandato fixo de diretor-presidente. Já no governo Bolsonaro, a ameaça era de privatização. “Jair declarou publicamente que pretendia extinguir ou privatizar a empresa, incluindo-a no conjunto de estatais submetidas a estudos de privatização. Também houve a unificação da TV Brasil e da NBR. Conseguimos manter a EBC pública e seguiremos resistindo”, garante Katia.

Jair declarou publicamente que pretendia extinguir ou privatizar a empresa, incluindo-a no conjunto de estatais submetidas a estudos de privatização. Também houve a unificação da TV Brasil e da NBR. Conseguimos manter a EBC pública e seguiremos resistindo”

Katia Marko

Veja o PL 995/2026 na íntegra

Movimentos sociais conquistam acesso à informação para milhões de eleitores nas eleições de 2026

Decisão do STF garante acesso gratuito a serviços da Justiça Eleitoral e plataformas de checagem de fatos mesmo após o esgotamento da franquia de dados móveis

A campanha Democracia sem Franquia conquistou uma importante vitória no Supremo Tribunal Federal (STF): o acesso gratuito a serviços da Justiça Eleitoral e de checagem de fatos mesmo após o esgotamento da franquia de dados móveis. Com a decisão, eleitoras e eleitores de todo o país poderão acessar, nos dias decisivos do processo eleitoral, informações essenciais para o exercício do voto livre e informado.

A medida é resultado de uma mobilização construída por organizações da sociedade civil a partir de pesquisas que demonstraram o impacto das franquias de dados sobre o acesso à informação no Brasil. A campanha Democracia sem Franquia foi liderada pelo Sleeping Giants Brasil em conjunto com cerca de 20 organizações, entre elas o FNDC, a FENAJ, o Intervozes, o Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), a Fenadados e diversas entidades comprometidas com a defesa da democracia e dos direitos digitais.

Segundo a campanha, o problema afeta milhões de brasileiros todos os meses. Dados da Pesquisa de Conectividade Significativa da Anatel indicam que 64,1 milhões de pessoas ficam sem franquia de dados mensalmente, enquanto 29,5 milhões passam pelo menos oito dias sem acesso pleno à internet.

Embora continuem conectados a aplicativos favorecidos por acordos comerciais de zero rating, ficam impedidos de acessar livremente sites de notícias, buscadores, serviços públicos e plataformas de verificação de fatos. O fenômeno foi definido pelos organizadores como uma forma de “confinamento digital”: a pessoa não fica fora da internet, mas limitada a uma parcela restrita dela.

Entre as pessoas que ficaram sem dados móveis, 57,4% deixaram de acessar sites de notícias, o que representa cerca de 37 milhões de eleitores sem acesso direto à imprensa em algum momento do mês.

Foi a partir desse diagnóstico que a campanha contribuiu para levar o tema ao STF por meio da ADPF 1355, protocolada em 22 de setembro pelo Partido Verde (PV) e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). A ação pedia que o acesso à internet aberta fosse garantido durante o período eleitoral, reconhecendo a informação como condição essencial para o exercício da cidadania e do voto.

Seis dias entre a ação e a primeira vitória

A tramitação da ADPF foi rápida. Em 24 de setembro, o ministro Cristiano Zanin solicitou manifestações da Anatel, da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Procuradoria-Geral da República (PGR), além de abrir espaço para contribuições do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

Em 28 de setembro, o ministro concedeu liminar determinando que pessoas com franquia esgotada pudessem acessar gratuitamente os sites e aplicativos da Justiça Eleitoral. No dia seguinte, após articulação da campanha e a publicação da nota “O Fato ou Boato não funciona sem acesso aos portais de checagem parceiros do TSE”, a decisão foi ampliada para incluir também os sites das agências de checagem integrantes da rede de combate à desinformação do TSE.

Em 30 de setembro, o Plenário Virtual do STF referendou por unanimidade a liminar, consolidando a garantia de acesso sem consumo de franquia aos serviços eleitorais e às plataformas de checagem durante os períodos definidos pela decisão.

O que ficou garantido

Com a decisão, eleitoras e eleitores poderão acessar gratuitamente os portais do TSE e dos Tribunais Regionais Eleitorais, a página Fato ou Boato e aplicativos como e-Título, Mesário, Boletim na Mão, Resultados e Pardal. A decisão também alcança os parceiros de checagem do TSE, entre eles Lupa, Aos Fatos, UOL Confere, AFP Checagem, Fato ou Fake, Comprova, Estadão Verifica, E-farsas e Boatos.org.

A medida será aplicada entre os dias 1º e 5 de outubro, durante o primeiro turno, e entre 22 e 26 de outubro, caso haja segundo turno.

Uma conquista importante, mas parcial

A campanha considera a decisão uma conquista concreta para milhões de brasileiros, mas ressalta que a reivindicação original era mais ampla. O STF não acolheu, nesta etapa, o pedido de suspensão geral do bloqueio da internet após o fim da franquia de dados nem a garantia de acesso irrestrito à rede em velocidade reduzida. O julgamento do mérito da ADPF 1355, que discute o próprio modelo de franquias de dados no Brasil, continua em aberto.

Ainda assim, a mobilização produziu um resultado inédito. Pela primeira vez, chegar aos dias decisivos de uma eleição sem dados móveis não significará ficar sem acesso às informações oficiais da Justiça Eleitoral e às principais fontes de checagem reconhecidas pelo TSE. Como destaca o relatório da campanha, trata-se de uma vitória construída pela pesquisa, pela incidência jurídica, pela comunicação e pela capacidade da sociedade civil de transformar uma desigualdade pouco visível em uma questão pública e constitucional.

Fonte: relatório da campanha Democracia Sem Franquia

Proteção ao jornalismo nas plataformas digitais exige transparência e garantias democráticas

Entidade alerta para impactos da moderação privada de conteúdo sobre o trabalho jornalístico e reforça necessidade de mecanismos de proteção aos profissionais da comunicação

O debate sobre o poder das grandes plataformas digitais na circulação de informações ganhou mais um capítulo com a campanha “Defende tua voz na internet”, lançada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). A iniciativa busca ampliar a proteção a jornalistas diante de remoções de conteúdo, suspensões de contas e outras formas de restrição impostas unilateralmente por empresas de tecnologia, sem transparência adequada ou garantias efetivas de contestação.

Ao chamar atenção para os efeitos da censura privada das plataformas, a FENAJ destaca que decisões automatizadas ou pouco transparentes podem comprometer o direito da sociedade à informação e atingir diretamente o exercício profissional do jornalismo. A entidade defende que a moderação de conteúdos respeite princípios de devido processo, ampla possibilidade de recurso e transparência nos critérios utilizados pelas plataformas.

Para o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), a discussão reforça a urgência de estabelecer mecanismos democráticos de governança do ambiente digital, capazes de equilibrar o enfrentamento à desinformação, aos discursos de ódio e às práticas ilícitas com a proteção da liberdade de expressão e da atividade jornalística.

A concentração de poder comunicacional nas mãos de poucas empresas globais tem permitido que decisões com grande impacto sobre o debate público sejam tomadas sem controle social, transparência ou responsabilização adequados. Quando perfis, conteúdos ou veículos jornalísticos são removidos sem justificativa clara ou sem canais efetivos de contestação, não está em jogo apenas o direito individual dos profissionais atingidos, mas também o acesso da sociedade à pluralidade de vozes e informações.

Plataforma política 20 Pontos para uma Comunicação Democrática

O tema dialoga diretamente com uma das propostas da plataforma política 20 Pontos por uma Comunicação Democrática, construída pelo FNDC. O ponto 18 defende o fortalecimento de políticas de proteção a jornalistas e comunicadores contra violências e intimidações, com atenção especial aos profissionais que atuam em territórios de conflito e em contextos de maior vulnerabilidade.

Embora historicamente associada a ameaças físicas, perseguições judiciais e assédio, a proteção ao trabalho jornalístico precisa considerar também os riscos decorrentes da mediação exercida pelas plataformas digitais. Na atual configuração do ecossistema comunicacional, suspensões arbitrárias de contas, remoções indevidas de conteúdos e bloqueios de alcance podem representar formas adicionais de constrangimento e silenciamento, afetando especialmente comunicadores independentes, populares e comunitários.

Nesse sentido, iniciativas como a campanha da FENAJ contribuem para ampliar o debate público sobre direitos digitais e liberdade de imprensa, reafirmando que a construção de um ambiente informacional democrático depende não apenas da proteção aos profissionais da comunicação, mas também de regras transparentes e socialmente controladas para a atuação das plataformas digitais.

Fonte: Fenaj/“Defende tua voz na internet” (acesse aqui)

Censura seletiva não pode ser o caminho para o debate eleitoral!

FNDC e mais de 70 entidades assinam manifesto contra interferência da plataforma Meta no processo democrático brasileiro

Publicado originalmente em diracom.org

A Meta retirou do Instagram, na última quarta-feira (23), o perfil da série jornalística Revelando, que havia publicado uma reportagem apresentada por Fábio Porchat sobre relações entre o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e políticos de extrema direita, como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira.

Segundo reportagem da Folha, o Instagram alegou apenas que o conteúdo não seguia seus padrões, sem informar qual regra teria sido violada. O teaser da reportagem havia alcançado cerca de 6 milhões de visualizações antes da retirada, estando no primeiro lugar de visualizações no YouTube.

A decisão e mesmo a velocidade da ação da Meta contrastam com outros casos em que a empresa tem sido omissa. Pesquisas e investigações jornalísticas já documentaram que contas do Instagram que difundiram conteúdos nazistas. Nas eleições de 2022 no Brasil, toda uma série de grupos e canais denunciados pelo TSE permaneceu no ar até meses depois do pleito, contribuindo com a organização da tentativa de golpe de 8 de janeiro. Nestas eleições, dezenas de casos de suspensão de perfis de jornalistas e meios de comunicação de maneira arbitrária pela Meta já foram denunciados ao Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais. Outras iniciativas, como o Observatório de Olho na Censura, do DiraCom, também tem divulgado casos de práticas de moderação equivocadas.

Isso mostra o que há tempos denunciamos: as plataformas não devem decidir, sozinhas, o que circula ou não nas redes sociais, que se tornaram espaços públicos fundamentais para o debate político.

A Meta está lucrando bastante com as eleições e a sociedade também paga por isso. A empresa deve fornecer explicações sobre o caso da série Revelando e os critérios que estão sendo utilizados na moderação de conteúdo eleitoral. Deve ainda franquear informações para as autoridades, partidos e pesquisadores.

A situação é ainda mais perigosa diante da postura do TSE na eleição atual à presidência da República. Em meio a graves suspeitas de seu próprio envolvimento com Daniel Vorcaro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, deu 24 horas para o Instagram retirar publicação que associa Flávio Bolsonaro ao Banco Master. Em outra, rejeitou o pedido para excluir vídeo publicado pela campanha de Flávio que relaciona a vitória de Lula em 2022 ao crime.

Diante da diferença entre os tratamentos, manifestamos nosso repúdio e cobramos que haja transparência e acompanhamento dessas decisões tomadas pelas empresas pela sociedade civil. Cobramos também que o TSE cumpra seu papel e utilize critérios transparentes, previsíveis e aplicados de maneira consistente, especialmente quando a moderação atinge conteúdos de interesse público e relacionados a candidatos e instituições políticas. O escrutínio público é fundamental para garantir a lisura e a confiança no processo eleitoral.

As plataformas digitais têm interesses claros na manutenção de um ambiente desregulado e não podem usar seu poder e alcance no Brasil para influenciar o resultado das eleições.

A democracia brasileira não pode ficar refém das grandes plataformas digitais. É por isso que o DiraCom – Direito à Comunicação e Democracia e outras entidades da sociedade civil têm defendido há anos uma regulação pública democrática, a qual, entre outros aspectos, deve assegurar as explicações nestes casos e o devido processo na moderação de contas e conteúdos.

Censura seletiva não pode ser o caminho para o debate eleitoral!

Assinam este manifesto as organizações e entidades a seguir:

  1. ABPEducom – Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação
  2. Aliança Nacional LGBTI+
  3. ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais
  4. ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior
  5. ANDI – Comunicação e Direitos
  6. Aqualtune Lab
  7. Articulação Nacional de Agroecologia (ANA)
  8. Artigo 19 Brasil
  9. As Cunhãs Podcast
  10. Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor)
  11. Associação Cultura Cidade e Arte (ACCA)
  12. Associação Mulheres na Comunicação (AMC)
  13. Associação Mundial de Rádios Comunitárias – AMARC Brasil
  14. BemTV
  15. Bloco Não é Não – Goiânia, Goiás
  16. Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
  17. Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC)
  18. Ciranda Net
  19. Coding Rights
  20. Coletivo Democratiza UFRN
  21. Coletivo Digital
  22. Coletivo Feminista Emancipa
  23. Coletivo Soylocoporti
  24. COMPÓS
  25. CTRL+Z
  26. data_labe
  27. DiraCom
  28. EMERGE
  29. Estratégia Latino-Americana de Inteligência Artificial – ELA-IA
  30. Faculdade de Educação da UFC
  31. FALA – estúdio de impacto
  32. Federação Nacional de Jornalistas – FENAJ
  33. FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
  34. Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública
  35. FRENTE MATERNA FEMINISTA
  36. GAPPI
  37. Grupo de Pesquisa Desinfomídia (UFSM/CNPq/RNCD)
  38. Grupo de Pesquisa em Gênero, Tecnologia Digital e Cultura/GIG@
  39. Iandé Comunicação e Educação
  40. Individual
  41. Inovacom
  42. Instituto Aaron Swartz
  43. Instituto Atrium de Políticas Públicas e Mediação Social
  44. Instituto Bem Estar Brasil – IBEBrasil
  45. Instituto de Defesa de Consumidores (Idec)
  46. Instituto de Referência em Internet e Sociedade
  47. Instituto Decodifica
  48. Instituto Devir Educom
  49. Instituto Nupef
  50. Instituto Vladimir Herzog
  51. INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
  52. International Center for Information Ethics – ICIE
  53. Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
  54. Ipê UFMG (Grupo de pesquisa em instituições, públicos e experiências coletivas)
  55. Laboratório de Qualidade Informativa (Qual-i)
  56. MediaLab.UFRJ
  57. MíDI – Laboratório de Mídias Digitais e Internet
  58. Moto coletivo Anhangá
  59. Movimento Ouro Preto pela Infância
  60. Museu Paraense Emílio Goeldi
  61. Núcleo de Tecnologia do MTST
  62. Observatório da Mídia: direitos humanos, políticas, sistemas e transferência
  63. Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (OBCOM)
  64. Rede Folkcom
  65. Rede Nacional de Combate à Desinformação
  66. Rede Sementes da Agroecologia
  67. Sindicato de Jornalistas do Distrito Federal (SJPDF)
  68. Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro
  69. Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo
  70. Sindipúblicos – Sindicato dos Trabalhadores e Servidores Públicos do Estado do Espírito Santo
  71. SINT-IFESGO
  72. Sleeping Giants Brasil
  73. SOCICOM (Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação)
  74. Sociedade EPTICC
  75. Terra de Direitos
  76. Visão Nativa Educação e Cultura

Educação midiática nos territórios é arma estratégica contra a desinformação

Jornalista e educomunicadora da Cáritas Brasil destaca o papel dos movimentos sociais na formação crítica da população, na disputa de narrativas e no combate às fake news a partir das comunidades.

A desinformação não é um fenômeno novo, mas ganhou escala inédita com o poder das plataformas digitais e das grandes empresas de tecnologia. Para enfrentar esse cenário, é preciso fortalecer a comunicação popular nos territórios, investir em educação midiática e dialogar diretamente com a população. Essa foi a avaliação da jornalista, repórter, educomunicadora e editora audiovisual Clara Glock, assessora de comunicação da Cáritas Brasil, durante participação no programa Vozes pela Democracia, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

Ao abordar o tema “Os movimentos sociais contra a desinformação”, Clara ressaltou que a chamada educomunicação tem raízes na educação popular de Paulo Freire e nas contribuições do comunicador uruguaio Mario Kaplún, associando comunicação, diálogo e produção coletiva de conhecimento.

“A educomunicação não é só comunicação, nem educação pela educação. É uma educação popular, com base na ética, no diálogo e na informação e conhecimento a partir dos saberes das populações nos territórios”.

Clara Glock

Para a jornalista, a desinformação sempre esteve presente na sociedade, mas atualmente está associada ao enorme poder político e econômico das plataformas digitais globais. Segundo ela, compreender quem controla os meios de comunicação é um passo fundamental para enfrentar a manipulação informacional.

“Quando a gente faz oficinas de educomunicação, a primeira pergunta é: quem são os donos da mídia? As big techs, essas grandes empresas que todo mundo usa no dia a dia, estão muito ligadas a essa questão da desinformação.”

Comunicação popular frente às emergências climáticas

Durante a entrevista, Clara apresentou experiências desenvolvidas pela Cáritas no Rio Grande do Sul após as enchentes que atingiram o estado em 2024. Ela destacou o projeto “Cáritas nas Emergências: comunidades mobilizadas no enfrentamento às mudanças climáticas”, que atuou diretamente junto às populações afetadas.

A iniciativa combinou ações emergenciais, incidência política, apoio psicossocial e processos de comunicação comunitária. Um dos resultados foi a construção de um dicionário popular com termos relacionados à prevenção de desastres, elaborado a partir da realidade vivida pelas comunidades.

Segundo Clara, a experiência demonstrou a importância de traduzir temas técnicos para uma linguagem acessível e conectada ao cotidiano das pessoas. “Informar é também fazer com que as comunidades consigam entender do que a gente está falando e participem ativamente disso.”

Ela argumentou que as mudanças climáticas, a disputa por informações e os processos eleitorais estão diretamente conectados, uma vez que as decisões políticas influenciam questões ambientais e sociais centrais para a vida das populações.

Sair das bolhas e dialogar com afeto

Ao comentar o cenário eleitoral e o avanço da desinformação, Clara defendeu que movimentos sociais, organizações populares e cidadãos fortaleçam o diálogo cotidiano com seus círculos de convivência. Para ela, mais do que confrontar ou hostilizar quem pensa diferente, é necessário construir pontes de conversa e estimular reflexões sobre direitos sociais e democracia. “Esse não é o momento para a gente acusar. Esse é um momento para conversar com as pessoas e mostrar do que elas já usufruem por viverem numa democracia.”

A educomunicadora também alertou para o papel dos algoritmos na circulação de conteúdos e destacou a importância de compartilhar informações de qualidade, acessíveis e produzidas em linguagem popular. “Hoje vale muito mais a gente sair das nossas bolhas e conversar com as pessoas no dia a dia.”

Comunicação como direito e participação

Na avaliação da representante da Cáritas, o combate à desinformação exige presença permanente nos territórios, fortalecimento da comunicação comunitária e valorização dos saberes populares. Ela defendeu que espaços como associações comunitárias, escolas, pontos de cultura, coletivos juvenis, grupos de rap e slam podem ser fundamentais para reconstruir laços sociais e promover formação crítica.

Ao final da entrevista, Clara reforçou a importância do voto consciente e da participação cidadã como instrumentos para a defesa e ampliação de direitos. “Quando a gente está falando de meio ambiente, a gente também está falando de eleição e de voto potente. Nosso voto é potente.”

O programa Vozes pela Democracia é uma produção do FNDC dedicada ao debate sobre cidadania, direito à comunicação e fortalecimento da democracia no Brasil.