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Solidariedade ao povo venezuelano

Neste momento de dor e de perdas humanas insubstituíveis, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) presta solidariedade ao povo venezuelano.

O país, que neste momento ainda tenta se situar em meio aos escombros da tragédia da última quarta-feira (24/6), já contabiliza quase 600 mortes e mais de 40 mil desaparecidos, segundo as informações divulgadas pelo governo. Entre os mortos há duas pessoas brasileiras.

Agora, o país conta com ajuda internacional para socorrer vítimas e reconstruir a infraestrutura afetada pelos terremotos. Brasil, China, Rússia, México, Vaticano e Cuba, entre outros, já anunciaram algum tipo de auxílio.

Que o povo venezuelano encontre algum conforto na solidariedade internacional e entre si para que possa retomar a luta por soberania.

FNDC convoca 27ª Plenária Nacional para 1º de agosto em São Paulo

Multiethnic Group of Hands Raised

Poderão participar como delegados, com direito a voz e voto, representantes de entidades nacionais filiadas e de comitês regionais, desde que estejam com cadastro atualizado e em dia com suas obrigações até 25/7

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) convoca entidades filiadas e comitês regionais para a realização da 27ª Plenária Nacional, no sábado 1º de agosto, em formato híbrido, com atividades presenciais no Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.

A plenária é uma das principais instâncias de deliberação do FNDC e deverá reunir representantes de organizações de todo o país para discutir os rumos da entidade e da agenda da democratização da comunicação. Entre os temas centrais estão o balanço da gestão, a definição de estratégias e plano de ações e a aprovação da plataforma política para as eleições de 2026.

Poderão participar como delegados, com direito a voz e voto, representantes de entidades nacionais filiadas e de comitês regionais, desde que estejam com cadastro atualizado e em dia com suas obrigações até 25/7 de 2026. A escolha de parte dos delegados será feita em plenárias regionais, que devem ocorrer entre 25/6 e 25/7. Observadores também poderão acompanhar o encontro, com direito a voz.

As inscrições estarão abertas no mesmo período, de 25/6 a 25/7, e deverão ser feitas por meio de formulário eletrônico enviado por e-mail pela Secretaria Executiva do FNDC. A confirmação depende do envio de documentos como carta de indicação, atas e listas de presença, conforme o tipo de participação.

Antes do evento, a partir de 1º de julho, a Coordenação Executiva disponibilizará textos-base sobre os eixos de debate. Os participantes poderão enviar propostas de alteração, que serão sistematizadas e levadas à votação durante a plenária.

A programação inclui análise de conjuntura, debate estratégico, aprovação de propostas e moções e apresentação da plataforma política, culminando em um ato político de encerramento.

Mais informações e orientações estão disponíveis na Convocatória e Regulamento, neste link.

Larissa Gould: “Levar o debate para os territórios” e regionalizar a construção da agenda nacional da comunicação

Foto: Thompson Griffo

Caravana do FNDC cumpre o papel de descentralizar a construção da luta pela democratização da comunicação e é a prioridade do FNDC neste momento

A abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação, realizada neste sábado (20/6), na PUC-SP (Campus Consolação), destacou a estratégia de regionalização como eixo central da atual gestão da entidade. A secretária de Finanças do FNDC, Larissa Gould, enfatizou que levar o debate sobre comunicação aos territórios é uma das prioridades do fórum neste momento.

Segundo ela, a decisão de descentralizar as discussões busca ampliar a participação e incorporar diferentes realidades regionais na construção das propostas do setor. “Uma das nossas tarefas prioritárias é nos voltarmos para os territórios e fazer o debate em nível regional”, afirmou.

Caravanas pelo país e diversidade de experiências

Larissa apresentou o percurso já realizado pela Caravana ao longo do primeiro semestre. As atividades começaram em março, no Rio Grande do Sul, durante a I Conferência Internacional Antifascista. Em abril, o debate ocorreu no Pará, reunindo mais de cem participantes em Belém. Em maio, a iniciativa chegou ao Recife. Depois de São Paulo, a próxima parada está prevista em Santa Catarina.

A proposta é manter uma agenda contínua de caravanas até o fim do ano, com encontros mensais em diferentes regiões do país. Segundo Larissa, essa circulação territorial tem contribuído para a riqueza dos debates, ao reunir experiências diversas e perspectivas locais sobre os desafios da comunicação no Brasil.

Construção coletiva e plataforma eleitoral

Além de ampliar o alcance das discussões, a regionalização também cumpre uma função estratégica na elaboração de propostas. De acordo com Larissa, todas as contribuições apresentadas nos encontros estão sendo sistematizadas por meio de relatorias.

“Essa construção coletiva vai virar documentos que darão base à construção de uma plataforma eleitoral do FNDC, que deverá ser consolidada no segundo semestre, reunindo contribuições de entidades filiadas”.

Incidência política e carta-compromisso

Larissa explicou aos participantes que a plataforma eleitoral será entregue a candidatos e candidatas a presidente da República, governadores e deputados estaduais e federais, servindo como instrumento de inserção das pautas relativas à democratização da comunicação no debate eleitoral. “Queremos que os candidatos e candidatas assinem uma carta-compromisso com as nossas propostas”, afirmou.

Segunda Conferência Nacional de Comunicação

A jornalista também destacou que a mobilização em torno das caravanas está articulada à perspectiva de realização de uma nova Conferência Nacional de Comunicação, considerada outra prioridade da gestão. Para ela, o processo em curso vai além dos encontros pontuais e busca consolidar uma agenda política de longo prazo, construída de forma participativa.

Caravana do FNDC em São Paulo: críticas às big techs e desafios estruturais

A mesa foi mediada pelo coordenador de Comunicação do FNDC, Tadeu Porto

Pesquisadores e militantes enfatizaram que a discussão sobre inteligência artificial, plataformas e comunicação não pode ser dissociada do modelo de sociedade em que essas tecnologias operam.

A mesa “Soberania Digital e Democratização da Comunicação”, realizada neste sábado (20/6), encerrou a programação da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação e, São Paulo. A atividade reuniu diferentes perspectivas sobre os impactos políticos, econômicos e sociais das tecnologias digitais, com um ponto em comum: a crítica à concentração de poder nas grandes plataformas.

Ao longo do debate, jornalistas, pesquisadores e militantes enfatizaram que a discussão sobre inteligência artificial, plataformas e comunicação não pode ser dissociada do modelo de sociedade em que essas tecnologias operam. A mesa foi mediada pelo secretário de Comunicação do FNDC, Tadeu Porto.

O jornalista Altamiro Borges destacou o caráter estratégico das pautas de soberania digital e democratização da comunicação, defendendo que ambas estão em disputa direta no cenário político. Para ele, o Brasil ainda convive com alta concentração midiática e com o avanço das Big Techs, que ampliam esse poder em escala global.

Na mesma direção, o coordenador do núcleo de tecnologia do MTST, Felipe Magalhães Bonel, apresentou o conceito de “soberania digital popular”, defendendo que a tecnologia deve ser apropriada pelos movimentos sociais e pela organização de base. Segundo ele, disputar tecnologia é disputar poder — e essa disputa precisa partir das periferias e da classe trabalhadora.

A antropóloga Letícia Cesarino, por sua vez, ampliou o debate ao caracterizar a soberania digital como uma questão “existencial”. Com base em suas pesquisas sobre tecnopolítica, alertou para o papel do medo como força mobilizadora e criticou o controle das tecnologias por grandes corporações, defendendo a construção de alternativas concretas diante do domínio das plataformas.

Apesar das diferentes abordagens, as falas convergiram na avaliação de que o atual modelo digital está marcado pela concentração econômica, pela disputa geopolítica e por riscos à democracia. Também apontaram a necessidade de articular regulação, organização social e desenvolvimento tecnológico como caminhos para enfrentar esse cenário.

Além de São Paulo, a Caravana do FNDC já percorreu três outras capitais: Porto Alegre-RS, Belém-PA e Recife-PA.

Confira a cobertura de cada uma das palestras

Tadeu Porto defende criatividade sindical e protagonismo dos trabalhadores na disputa por soberania digital

A partir da trajetória do sindicalismo petroleiro no Norte Fluminense, secretário de Comunicação do FNDC relacionou a soberania digital a disputas mais amplas, como energia e controle de recursos estratégicos

O petroleiro e coordenador de Comunicação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Tadeu Porto, afirmou que o debate sobre soberania digital precisa ser conectado à experiência concreta dos trabalhadores e à organização sindical, destacando o papel da criatividade em um cenário de mudanças estruturais.

Tadeu mediou a mesa “Soberania Digital e Democratização da Comunicação”, que também deu título à Plenária do FNDC/Frentex-SP, realizada dentro da programação da Caravana do FNDC Pelo Direito à Comunicação no sábado (20/6), em São Paulo. A partir da trajetória do sindicalismo petroleiro no Norte Fluminense, ele relacionou a soberania digital a disputas mais amplas, como energia e controle de recursos estratégicos.

“Soberania tem muito a ver com petróleo também, com energia”.

Do sindicato tradicional à ocupação digital

Ao recuperar a história do sindicato petroleiro, fundado nos anos 1980 em um momento de fortalecimento do sindicalismo combativo, Tadeu destacou a prática de “greve por ocupação” como uma marca da categoria.

Segundo ele, diferentemente da paralisação tradicional, essa forma de greve consiste em ocupar os locais de trabalho e assumir o controle da operação. “A máquina é nossa”, resumiu, ao explicar a lógica das mobilizações em que trabalhadores interferem diretamente na produção.

Tadeu citou exemplos de greves em que a categoria chegou a controlar o ritmo de produção de petróleo e até o fluxo de gás nas plataformas, evidenciando o poder estratégico dos trabalhadores no setor.

A experiência de 2020: ocupação virtual

O sindicalista destacou, no entanto, a necessidade de adaptação dessas práticas diante das transformações tecnológicas. Em 2020, durante uma greve da categoria, o movimento adotou uma estratégia diferente: uma “ocupação digital”. A iniciativa consistiu na instalação de uma base dentro de uma sala da Petrobras, de onde os trabalhadores passaram a produzir conteúdo continuamente, alimentando redes sociais, participando de transmissões ao vivo e ampliando a visibilidade do movimento.

“A gente ia ficar três dias, ficamos 20”, afirmou. Durante esse período, os petroleiros permaneceram no local produzindo vídeos, articulando redes de apoio e inserindo a greve no debate público. A estratégia resultou em ampla repercussão, com presença na imprensa tradicional e em canais digitais. “Nós fomos trending topics, tivemos apoio na mídia alternativa e na imprensa”, relatou.

Do corpo físico ao alcance digital

Tadeu destacou que a experiência revelou uma mudança importante na lógica das mobilizações. Se antes a força da ocupação era medida pela presença física, no ambiente digital essa lógica se amplia. “Não são 60 pessoas, podem ser milhões”, afirmou, ao explicar que a circulação de conteúdos permite ampliar o alcance das ações para além do espaço físico.

Segundo ele, o ambiente digital altera a relação entre tempo e espaço na disputa política, permitindo novas formas de mobilização e organização.

Criatividade e organização em tempos de ruptura

Ao relacionar essa experiência ao contexto atual, o secretário de Comunicação do FNDC afirmou que o momento é de “ruptura” e exige criatividade dos movimentos sociais. “Se tem alguma coisa nova vindo, quem gosta de criatividade exerce criatividade”, afirmou.

Para ele, embora a regulação e as políticas públicas sejam importantes, a transformação também depende da organização dos trabalhadores,  incluindo novos segmentos, como programadores e influenciadores digitais.

O sindicalista destacou, inclusive, a ausência de organização formal desses trabalhadores e defendeu a criação de estruturas de proteção, como sindicatos e direitos básicos. “Deveriam estar exigindo plano de saúde e previdência”, afirmou.

Greve, direitos e valor do trabalho

Tadeu também reforçou a importância da greve como instrumento de luta, apesar dos riscos e pressões institucionais. Ele citou a aplicação de multas milionárias contra o sindicato em mobilizações recentes como exemplo das dificuldades enfrentadas.

Ainda assim, defendeu que o trabalho continua sendo o elemento central da geração de valor, inclusive em contextos altamente tecnologizados. “O átomo não gera valor, o que gera valor é o trabalho”, afirmou. Ao final, avaliou que, apesar dos desafios, os trabalhadores estão bem posicionados na disputa em curso.

Para Tadeu, a combinação entre organização sindical, criatividade e apropriação das ferramentas digitais pode abrir caminhos para enfrentar desigualdades estruturais e disputar o rumo das transformações tecnológicas.

Letícia Cesarino aponta medo como motor da tecnopolítica e trata soberania digital como questão “existencial”

Reprodução/YouTube

A última convidada a falar sobre “Soberania Digital e Democratização da Comunicação” na Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação, em São Paulo-SP, foi a antropóloga Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela afirmou que o debate sobre soberania digital ultrapassa o campo técnico e assume um caráter “existencial” diante do cenário atual de concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia. A atividade foi realizada no último sábado (20/6), no campus Consolação da PUC-SP.

Letícia fez uma análise baseada em sua pesquisa sobre fenômenos tecnopolíticos, definidos por ela como processos que emergem da “recursividade entre humanos e máquinas”. Segundo a pesquisadora, esses fenômenos não pertencem exclusivamente ao campo social nem ao campo técnico, mas se constituem justamente na interação entre ambos, especialmente nas plataformas digitais contemporâneas.

Medo como motor político e tecnológico

A antropóloga destacou que, ao longo de mais de uma década de estudos sobre desinformação, teoria da conspiração e radicalização, identificou o medo como o principal afeto mobilizador nesses processos. “O afeto do ódio é secundário ao afeto do medo”, afirmou. Para Letícia, o comportamento agressivo observado em ambientes digitais pode ser entendido como a reação de um “animal acuado”, que intensifica sua postura defensiva.

Ela afirmou que essa lógica também pode ser observada na própria indústria tecnológica, especialmente nos Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, o comportamento recente das empresas do Vale do Silício indica uma reação diante de ameaças percebidas à sua hegemonia. Eu tô aqui, entre outras coisas, para botar um pouco de medo em vocês”, brincou.

Crítica à inteligência artificial generativa

A antropóloga adotou um tom particularmente crítico em relação às ferramentas de inteligência artificial generativa de uso geral, diferenciando-as de aplicações mais específicas e controladas. Segundo ela, tecnologias desse tipo, associadas a grandes empresas e lideranças do setor, devem ser analisadas a partir dos sujeitos que as controlam. Ao mencionar nomes como Sam Altman (OpenAI), Peter Thiel e Mark Zuckerberg, a antropóloga afirmou que essas tecnologias estão sob comando de “pessoas muito perigosas”, que caracterizou como “literais sociopatas”.

Modelo de negócio e dependência tecnológica

A pesquisadora também chamou atenção para a ausência de um modelo de negócio consolidado para a inteligência artificial generativa, apontando que o setor opera em uma lógica de expansão acelerada ainda sem sustentabilidade definida. Entre as hipóteses em circulação, citou a possibilidade de que essas tecnologias passem a ser oferecidas como serviços pagos recorrentes, comparáveis a água ou energia elétrica.

Segundo Letícia, esse cenário implicaria a substituição gradual de tarefas básicas, como escrita e raciocínio lógico, por sistemas automatizados, criando novas formas de dependência tecnológica.

Para além da regulação

Embora tenha reconhecido a importância da regulação de plataformas, ela avaliou que essa abordagem já não é suficiente diante da conjuntura atual. Para ela, o debate sobre soberania digital deve ser ampliado para além da legislação, diante do que classificou como uma disputa estrutural envolvendo o futuro das próprias democracias.

“A frente de soberania digital é existencial”.

Disputa geopolítica e futuro “pós-democrático”

Letícia relacionou esse cenário à disputa crescente entre Estados Unidos e China no campo tecnológico. Segundo ela, essa concorrência tornou-se uma questão “existencial” para empresas e atores ligados à hegemonia estadunidense. Esse contexto, lembra, tem impulsionado discursos e projetos que vislumbram formas de organização social alternativas ao estado democrático. Ela citou, por exemplo, ideias associadas a correntes neorreacionárias, que projetam modelos de soberania “privada, neofeudal e de base tecnológica”.

Crise, colapso e possibilidade de ruptura

Apesar do diagnóstico crítico, a antropóloga também apontou a possibilidade de que o cenário de crise abra brechas para alternativas. Segundo ela, setores progressistas vivem um momento de “melancolia” política e podem subestimar o potencial de transformação de contextos de colapso. “O colapso pode trabalhar a nosso favor. O colapso das big techs, e não da democracia”, afirmou, ao sugerir que fissuras na hegemonia tecnológica atual podem criar oportunidades para construção de novos modelos.

Alternativas concretas e ação política

Ao final, a antropóloga enfatizou que a construção de soberania digital exige mais do que formulações teóricas ou propostas abstratas. Segundo ela, trata-se de uma disputa material, que envolve infraestrutura, desenvolvimento tecnológico e formação de quadros técnicos. “A imaginação tecnológica alternativa é concreta”, afirmou.

Letícia defendeu que movimentos sociais e atores políticos devem atuar simultaneamente em diferentes frentes, incluindo incidência institucional e construção prática de alternativa, sem depender exclusivamente de governos. “A gente não pode ficar parado esperando cair do céu”, afirmou.

Para a pesquisadora, o desafio central é garantir que, diante de eventuais rupturas no modelo atual, existam alternativas organizadas e escaláveis. Caso contrário, alertou, novas formas de concentração de poder podem emergir, como já ocorreu em crises anteriores no setor digital.

O MTST e o conceito de “soberania digital popular”

Coordenador de Tecnologia do MTST destaca que, sem a participação popular, a soberania tecnológica pode se consolidar para servir apenas à burguesia

O coordenador do núcleo de Tecnologia do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Felipe Magalhães Bonel, afirmou que a disputa pela tecnologia não pode ser tratada como um campo distante dos movimentos sociais e defendeu a construção de um projeto de “soberania digital popular” ancorado na organização de base.

Felipe participou da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo no último sábado (20/6) e foi o segundo a falar na mesa “Soberania Digital e Democratização da Comunicação”.Ao retomar sua trajetória no campus Consolação da PUC-SP, onde estudou por meio do FIES e participou da criação de um medialab voltado à democratização da comunicação a partir do movimento estudantil, Felipe trouxe o tema “soberania digital popular”, construído no âmbito

Origem na disputa política e nas limitações da esquerda

Ele explicou que o impulso inicial para a criação de um núcleo de tecnologia dentro de um movimento de luta por moradia surgiu após a eleição de 2018. Naquele momento, afirmou, havia a percepção de que o campo progressista estava em desvantagem na disputa pelos meios digitais, uma leitura que classificou como equivocada.

Para Felipe, essa visão desconsidera que, por trás dos algoritmos e das plataformas, existe trabalho humano. “Existe trabalho, intenção de trabalho da classe trabalhadora”, afirmou, ao defender que a disputa tecnológica também deve ocorrer no nível da organização dos trabalhadores.

Diante disso, o MTST passou a atuar em três frentes: formar sua base militante em tecnologia, politizar profissionais da área técnica e criar alternativas concretas capazes de disputar o uso e o desenvolvimento dessas ferramentas.

Tecnologia não neutra e disputa de interesses

Felipe reafirmou as falas que o antecederam sobre a tecnologia não ser neutra e responder a interesses específicos, localizados e organizados. Para ele, o desafio é deslocar esse poder para o campo popular.

Nesse sentido, citou formulações do próprio movimento, segundo as quais tecnologias emancipadoras não surgem de editais ou iniciativas isoladas, mas da organização coletiva. “Sem organização popular, não há direito digital que se sustente”, afirmou.

A noção de soberania digital popular, explicou, surge justamente da crítica a modelos de soberania que, embora robustos, operam em favor de interesses restritos. Ao mencionar o caso dos Estados Unidos, Felipe apontou que uma soberania tecnológica pode ser consolidada e, ainda assim, servir prioritariamente à burguesia nacional e à concentração de poder.

A proposta do movimento, segundo ele, é construir uma soberania enraizada nas bases sociais, voltada à auto-organização e à transformação estrutural a partir das periferias.

“A tecnologia emancipadora não nasce de editais, mas da luta social”.

Experiências práticas e “provas de conceito”

Para ilustrar a proposta, Felipe apresentou iniciativas desenvolvidas pelo MTST que buscam materializar esse conceito na prática. Entre elas, destacou a instalação de redes de Wi-Fi em cozinhas solidárias, o desenvolvimento de plataformas de trabalho mediadas por aplicativos e ações de letramento digital em territórios periféricos.

Segundo ele, essas experiências funcionam como “provas de conceito”, demonstrando que a democratização tecnológica não esbarra apenas em limites técnicos ou orçamentários, mas, principalmente, em vontade política.

“Com desenvolvedores pé no barro, a gente consegue executar essas soluções”, afirmou, ao defender que os próprios movimentos sociais têm capacidade de desenvolver e aplicar tecnologias voltadas às suas demandas.

Referências internacionais e limites estruturais

Durante a fala, Felipe também citou exemplos internacionais, como iniciativas de letramento digital na China, para ilustrar como políticas estruturadas podem articular organização social e uso tecnológico. Ao mesmo tempo, reconheceu que essas experiências estão inseridas em contextos políticos diferentes, o que exige adaptações à realidade brasileira.

Ele destacou que, no Brasil, a ausência de reformas estruturais, como mecanismos de controle social sobre os meios de comunicação, dificulta a construção de modelos semelhantes, especialmente diante do avanço de oligopólios tecnológicos.

Formação e protagonismo da base

Ao final, Felipe enfatizou que o caminho adotado pelo movimento passa pela formação política e técnica de sua base, em diálogo com outras organizações, como o MST e a Marcha Mundial das Mulheres. Segundo ele, a estratégia não é aguardar soluções institucionais, mas construir, desde já, capacidades concretas nos territórios. “A gente não vai esperar sentado, não vai esperar cair do céu”, afirmou.

Para o coordenador de Tecnologia do MTST, disputar a tecnologia é, ao mesmo tempo, disputar poder, e essa disputa só se sustenta com organização popular e protagonismo das periferias.

Altamiro Borges alerta para riscos à soberania digital e critica concentração midiática e poder das Big Techs

Foto: Thompson Griffo

O jornalista lembrou que um eventual avanço da extrema direita comprometeria diretamente essas agendas. “Não vai ter soberania digital, vai ser o reinado das big techs”.

O jornalista Altamiro Borges, presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, afirmou que as agendas de soberania digital e democratização da comunicação estão sob ameaça no Brasil e devem ser tratadas como centrais na disputa política em curso.

Durante participação na mesa “Soberania Digital e Democratização da Comunicação”, que integrou a Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo, neste sábado (20/6), Miro defendeu que as duas pautas são “bandeiras de esperança” para o país, mas ressaltou que correm riscos concretos.

O jornalista lembrou que um eventual avanço da extrema direita comprometeria diretamente essas agendas. “Não vai ter soberania digital, vai ser o reinado das big techs”, afirmou, ao relacionar o tema à atuação internacional dessas empresas e à influência dos Estados Unidos. Na mesma linha, destacou que também não haveria avanço na democratização da comunicação, pois a extrema direita é autoritária e contrária à liberdade de expressão.

Para Miro, soberania digital e democratização da comunicação precisam estar bo debate eleitoral como elementos centrais de um projeto político.

Concentração midiática e alinhamentos políticos

Miro avaliou que o Brasil avançou pouco na democratização da comunicação desde a redemocratização. Segundo ele, os problemas estruturais identificados desde a criação do FNDC, ainda nos anos 1980, seguem vigentes.

Ele destacou a continuidade da concentração da mídia, afirmando que, se antes o controle era associado a poucas famílias, hoje há maior presença de bancos na estrutura dessas empresas. Para o jornalista, esses grupos mantêm posições políticas e econômicas claras e influenciam o debate público.

Como exemplo, citou a cobertura da política externa do governo Lula, afirmando que esses veículos atacam a atuação internacional do país ao associá-la a regimes considerados autoritários, sem aplicar o mesmo critério a outras nações. Também mencionou abordagens críticas a políticas públicas, apontando que parte da mídia adota discursos semelhantes aos do apresentador Luciano Huck sobre o Bolsa Família, relacionando o programa à ideia de desestímulo ao trabalho.

Da velha mídia às plataformas digitais

Além da velha mídia, lembrou Miro, nos últimos anos o desafio da luta pela democratização da comunicação passou a incluir o poder das big techs. A internet deixou de representar um espaço aberto e se transformou em um ambiente concentrado e controlado. “Não é mais o reino da liberdade, é um reino murado pelas plataformas”, afirmou. Ele ressaltou que essas empresas desempenham papel crescente na disputa políti

Debate sobre inteligência artificial e jornalismo abre Caravana do FNDC em São Paulo

Foto: Thompson Griffo

A Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo reuniu jornalistas, pesquisadores, comunicadores e militantes de diferentes áreas, no campus Consolação da PUC-SP, para discutir os impactos das novas tecnologias no campo da comunicação

A relação entre jornalismo, inteligência artificial (IA) e as transformações no mundo do trabalho esteve no centro da roda de diálogo “Jornalismo e inteligência artificial: um avanço à soberania ou à precarização do trabalho?”, que abriu a Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo neste sábado (20/6).

A atividade reuniu jornalistas, pesquisadores, comunicadores e militantes de diferentes áreas, no campus Consolação da PUC-SP, para discutir os impactos das novas tecnologias no campo da comunicação. A mesa foi mediada pela secretária de Finanças do FNDC, Larissa Gould.

A proposta da mesa foi abordar a inteligência artificial como fenômeno inserido em disputas políticas, econômicas e sociais, com efeitos diretos sobre a produção de informação, os modelos de negócio das plataformas e as condições de trabalho no setor.

Em comum, as falas destacaram a necessidade de superar visões fragmentadas sobre tecnologia e comunicação. A inteligência artificial foi apresentada como parte de um processo mais amplo, que envolve disputas por poder, controle de dados, modelos de negócio e direitos trabalhistas.

Comunicação como prática política e coletiva

A jornalista e militante feminista Bianca Pessoa, da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e do portal Capire, trouxe ao debate a perspectiva dos movimentos sociais, destacando a comunicação como elemento estruturante da organização política.

Sua fala enfatizou que o fazer comunicativo não deve ser entendido como uma etapa posterior às ações coletivas, mas como parte constitutiva da própria militância. A partir da experiência da MMM, ela apontou a necessidade de formação política e tecnológica das militantes, incluindo o uso crítico da inteligência artificial.

Também apresentou iniciativas concretas do movimento que articulam comunicação, formação e tecnologia, evidenciando como ferramentas digitais podem ser apropriadas para fortalecer processos organizativos e ampliar a circulação de narrativas feministas.

Tecnologia, poder e trabalho

O radialista Alexandre D’Lou, diretor do Sindicato dos Radialistas de São Paulo (Sinrad-SP) e mestrando da UFSCar, trouxe uma abordagem histórica e crítica sobre o desenvolvimento da inteligência artificial.

Ao resgatar a trajetória de Alan Turing, o pesquisador destacou a relação entre tecnologia, Estado e controle social, estabelecendo paralelos com o cenário contemporâneo de transformação do trabalho. Ele ressaltou que a ideia de neutralidade tecnológica não se sustenta, pois as ferramentas refletem os interesses de quem as desenvolve e operam dentro de estruturas de poder.

Alexandre também chamou atenção para o impacto da IA nas relações laborais, especialmente diante de discursos empresariais que associam a tecnologia à substituição de trabalhadores, reforçando uma lógica de descartabilidade.

Plataformas, “conteúdo” e regulação

O criador de conteúdo Thiago Guimarães, do canal @oratiago, concentrou sua intervenção na crítica ao conceito de “conteúdo” e ao modelo de funcionamento das plataformas digitais.

Segundo ele, a generalização promovida por esse termo contribui para diluir diferenças entre formatos e esvaziar o debate sobre produção audiovisual. Ao mesmo tempo, destacou a centralidade da extração de dados na lógica econômica dessas plataformas, que tratam diferentes produções como ativos de mercado.

Thiago também abordou a convergência entre internet e radiodifusão, apontando que formatos como streaming e podcasts frequentemente replicam estruturas tradicionais da mídia, porém fora dos marcos regulatórios existentes. Ele alertou que esse cenário está diretamente relacionado ao avanço da inteligência artificial e à precarização do trabalho no setor.

Impactos estruturais da inteligência artificial

Encerrando o debate, o professor e cientista de dados Ergon Cugler, do Barão de Itararé, apresentou uma análise ampla dos efeitos da inteligência artificial sobre o jornalismo e a sociedade.

Ele destacou três impactos principais: a apropriação de conteúdos jornalísticos por sistemas automatizados, o potencial ampliado de manipulação da informação e a substituição de trabalho humano. Para Ergon, esses processos estão inseridos em um modelo econômico orientado pela concentração de poder nas big techs.

O pesquisador também chamou atenção para a dimensão material da IA, destacando os impactos ambientais e sociais da expansão de data centers e questionando políticas públicas que incentivam esse modelo sem considerar seus efeitos.

Confira a cobertura de cada uma das palestras separadamente

Pesquisador enumera principais impactos da IA no jornalismo e no meio ambiente

Ergon Cugler enumera apropriação de conteúdos produzidos por veículos e instituições sem autorização ou remuneração, manipulação da informação e substituição de trabalho humano como os principais impactos da inteligência artificial no jornalismo

O professor, pesquisador, cientista de dados e autor Ergon Cugler, representante do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, destacou os impactos estruturais da inteligência artificial (IA) sobre o jornalismo, o trabalho e o meio ambiente, defendendo que o debate sobre tecnologia deve ir além das ferramentas e considerar o modelo de sociedade em que estão inseridas.

Ergon foi o último a palestrar na mesa de abertura da Caravana do FNDC pelo Direito à Comunicação em São Paulo, neste sábado (20/6). O tema foi “Jornalismo e Inteligência Artificial: Um avanço à soberania ou da precarização do trabalho?”.

O pesquisador chamou atenção para a forma como a linguagem associada às tecnologias digitais contribui para naturalizar seu funcionamento. Termos como “nuvem”, “conteúdo” e “seguidores”, segundo ele, constroem um imaginário que distancia os usuários da materialidade e dos efeitos reais dessas plataformas.

Impactos da IA no jornalismo

No campo do jornalismo, Ergon destacou três impactos centrais da inteligência artificial. O primeiro, segundo ele, é a apropriação de conteúdos produzidos por veículos e instituições sem autorização ou remuneração. Ele citou como exemplo sistemas de busca que sintetizam informações jornalísticas diretamente nas plataformas, reduzindo o acesso aos sites de origem.

O segundo impacto diz respeito à manipulação da informação. De acordo com o pesquisador, estudos já indicam que conteúdos gerados por inteligência artificial podem atingir maior capacidade de persuasão do que materiais jornalísticos tradicionais, ampliando o potencial de desinformação.

Já o terceiro ponto é a substituição de trabalho humano. Ergon apontou que, em diferentes áreas, há iniciativas que buscam ampliar o uso da IA como forma de reduzir custos, como no caso de propostas que preveem a substituição de professores por sistemas automatizados.

Para ele, esses processos revelam que o problema central não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada dentro de um modelo orientado pelo lucro. “A tecnologia é apropriada não para melhorar a vida das pessoas, mas para gerar lucro para quem a controla”, afirmou.

Impactos ambientais

Além da dimensão digital, o pesquisador também destacou a importância de considerar os impactos materiais da inteligência artificial, especialmente no que se refere à infraestrutura necessária para seu funcionamento. Ele citou a expansão de projetos de data centers no Brasil, voltados ao treinamento de modelos de IA, incluindo empreendimentos próximos a comunidades vulneráveis.

Ergon falou sobre como esses centros de dados demandam grandes quantidades de energia e recursos naturais, além de gerar impactos ambientais e sociais, como aumento do consumo de água, formação de ilhas de calor e poluição sonora. Ao mesmo tempo, a geração de empregos nesses projetos é sempre muito menor do que a das expectativas anunciadas.

Ao final, o pesquisador vinculou o debate sobre inteligência artificial à necessidade de discutir políticas públicas e regulação, incluindo incentivos governamentais. Ele criticou propostas que preveem benefícios fiscais para empresas de tecnologia, ao mesmo tempo em que outras iniciativas de comunicação seguem submetidas a tributações.

Para Ergon, enfrentar os desafios impostos pela inteligência artificial exige uma abordagem ampla, que articule a defesa do trabalho, da qualidade da informação e da soberania tecnológica.